Líder afegão confronta o Taleban e seu próprio passado

Mujib Mashal*

Em Lashkar Gah (Afeganistão)

  • Abdul Aziz Safdari/Xinhua

    16.fev.2016 - Membros das forças de segurança afegãs participam de uma operação militar no distrito de Sangin, na província de Helmand, no Afeganistão

    16.fev.2016 - Membros das forças de segurança afegãs participam de uma operação militar no distrito de Sangin, na província de Helmand, no Afeganistão

Quando os mujahedin ("guerreiros santos") capturaram esta capital de província no sul do Afeganistão, em 1993, o general Abdul Jabar Qahraman foi o comandante do governo afegão no último combate e entregou a cidade.

Em uma virada ressonante mais de duas décadas depois, Qahraman é novamente a face do governo afegão aqui quando uma insurgência ameaça derrubar seu posto.

Desta vez é o Taleban que está nos portões da cidade. Os rebeldes estão firmemente entrincheirados em um subúrbio da capital da província, Lashkar Gah, e separados da sede do governo apenas pelas águas tranquilas do rio Helmand. Eles controlam ou disputam pelo menos dez dos 14 distritos da província de Helmand, a maior do Afeganistão em tamanho e também na produção de ópio.

Qahraman veio para Helmand no mês passado como representante do presidente Ashraf Ghani e assumiu o comando dos esforços para manter a província contra o Taleban. Mas, insistindo que somente medidas militares não são a melhor opção do governo, o ex-general também tenta envolver os comandantes talibans em negociações.

"Na época, eu também acreditava que a solução para o problema deste país não é lutar, e acredito nisso hoje", disse Qahraman em uma entrevista na semana passada em seu centro de comando aqui, entre assessores que frequentemente lhe passavam o telefone para falar com comandantes militares, autoridades locais e anciãos.

"Artilharia, tanques e aviões de combate são instrumentos falhos e devem ser usados raramente, só quando você pensa que será destruído", disse ele. E acrescentou: "Nossa primeira tentativa é desacelerar o combate, acalmá-lo".

Em alguns lugares, porém, isso pareceu uma retirada.

O Exército abandonou recentemente suas últimas bases nos distritos de Musa Qala e Now Zad, há mais de uma semana, retirando até 1.500 soldados em uma aparente medida para reforçar um cinturão de segurança ao redor de Lashkar Gah. Forças de Operações Especiais dos EUA foram trazidas à luta, ajudando a liberar as estradas que levam à capital da província e participando do planejamento de sua defesa.

Qahraman, 58, já esteve aqui. Seu comando foi o último bastião do governo comunista apoiado pela Rússia no sul do Afeganistão, e ele se identificou pessoalmente com seu colapso aqui em 1993, quando retirou suas forças e entregou Lashkar Gah aos mujahidin apoiados pela CIA. Depois disso, ele se exilou em Moscou durante uma década.

Voltou ao Afeganistão depois da invasão americana em 2001 e da queda do Taleban e tornou-se um membro do Parlamento. Suas opiniões sobre como engajar o Taleban que ressurge se encaixam com as de Ghani, que tentou abrir negociações com os líderes insurgentes na esperança de alcançar um final político para a longa guerra.

Mas, na crise imediata, os anciãos das tribos locais consideram os esforços de Qahraman impraticáveis e sem futuro --atos desesperados de um comandante nostálgico. O Taleban, em vez de reagir a seus apelos por paz, o desafiou a uma luta "face a face", e não acredita nas chances do governo.

"Acho que Qahraman está sonhando acordado", disse Hajji Mohammad Tahir, um ancião do distrito de Sangin que recentemente participou de discussões com Qahraman.

"Neste momento, o Taleban está com a vantagem; o governo está por baixo. Quando os derrubarmos militarmente, seria possível que o Taleban local baixasse as armas e entrasse no processo de paz --mas não agora."

O mulá Abdul Rahman Ehsan, um comandante Taleban em Sangin, disse que Qahraman claramente voltou a Helmand para compensar as humilhações do passado.

"Vamos lutar primeiro e esquecer a paz e o desarmamento", disse Ehsan. "Primeiro precisamos lutar, depois trabalhar no processo de paz."

Outros viram até motivos cínicos nos acontecimentos recentes em Helmand, especialmente depois da rendição das bases do Exército. Após um ano desastroso do ponto de vista militar, o governo poderia estar fechando acordos com o Taleban nos distritos para mantê-lo afastado da cidade, exatamente como fez o governo comunista no período final no sul do Afeganistão.

A suspeita é ampliada pelo fato de que o homem no comando das operações em Helmand fala em paz e o ministro que conduz a defesa nacional, Mohammad Masoom Stanekzai, até o ano passado esteve efetivamente encarregado do processo nacional de paz.

"A pergunta que passa pela minha cabeça, depois que eles recuaram de Musa Qala, é: e se eles estiverem dizendo que não resistirão nos distritos se nós não atacarmos a cidade?", disse Abdul Majid Akhundzada, o subchefe do conselho provincial de Helmand, cujo pai foi um importante comandante rebelde contra Qahraman nos anos 1980. "Se não for esse o caso, por que eles estão partindo sem lutar?"

Qahraman, que disse que os recentes recuos eram necessários, e não fazem parte de um acordo, admitiu que enfrenta uma tarefa difícil.

Em Helmand, o governo perdeu para o Taleban não apenas a maioria dos distritos, mas também, ao longo dos últimos anos, grande parte do apoio público e qualquer semelhança de combate à corrupção. A atração dos lucros do ópio envolve igualmente membros do Taleban e do governo.

Nas profundezas dos desertos que são supostamente território Taleban, autoridade e anciãos relatam batidas noturnas antidrogas pelas forças de segurança. Os corpos são deixados para trás, mas sacos de ópio lucrativos acabam desaparecendo.

"Se você me enviar para toda Helmand neste momento e disser: 'Jabar, encontre alguns bons governadores de distrito, alguns bons chefes de polícia de distrito, alguns bons diretores', não encontrarei um só em toda Helmand. Absolutamente não há", disse Qahraman.

"Mesmo que você aponte os homens mais próximos de mim, eles se transformam em lobos. A mentalidade agora é essa: os maus se tornaram bons na percepção das pessoas."

*Taimoor Shah colaborou na reportagem, de Kandahar (Afeganistão)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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