Crise habitacional em NY piora a superlotação nas residências da cidade

Kirk Semple

Em Nova York (EUA)

  • JAXA/ESA

    A cidade de Nova York, incluindo a ilha de Manhattan no centro, os bairros do Brooklyn e do Queens do lado direito, e do Bronx ao longo da parte superior direita

    A cidade de Nova York, incluindo a ilha de Manhattan no centro, os bairros do Brooklyn e do Queens do lado direito, e do Bronx ao longo da parte superior direita

A situação no lar de Rafael é um exercício de tolerância e gestão criativa do espaço. Ele mora com quatro outras pessoas em um apartamento lotado em Jackson Heights, Queens, que mede menos de 45 metros quadrados.

Ele divide um quarto com sua mãe. Dois homens sublocam um segundo quarto menor, criado por Rafael com a subdivisão da sala de estar com parede de drywall. Seu irmão dorme em um colchonete na cozinha, que ele enrola toda manhã e coloca em um canto, abrindo o caminho para a porta de entrada.

Há pertences ocupando praticamente cada centímetro de espaço. Pratos e utensílios de cozinha limpos ficam empilhados no balcão, porque não há onde guardá-los. As roupas ficam em sacolas ao longo da parede da cozinha. As estantes estão cheias de contas, revistas, remédios e ração canina (para o chihuahua residente). Bicicletas ficam empilhadas sobre um armário.

"Essa é a vida aqui em Nova York", disse Rafael, 51 anos, um imigrante mexicano que trabalha como garçom e insistiu para que seu sobrenome não fosse mencionado, para evitar que seu senhorio saiba dos sublocatários ilegais. "Não é fácil para ninguém."

A residência apertada de Rafael está se tornando cada vez mais comum em muitos bairros, à medida que a crise habitacional da cidade de Nova York força cada vez mais pessoas a se espremerem em apartamentos lotados.

Segundo os dados mais recentes do Census Bureau (agência de estatísticas americana, semelhante ao IBGE), cerca de 9% de todos os lares –ou quase 280 mil unidades habitacionais– na cidade de Nova York contam com mais de uma pessoa por cômodo, uma medida comum do governo de superlotação. Há uma década, a taxa era de 8%. A mudança representa um aumento de quase 13%. Em comparação, a taxa nacional de lotação é de 3,4%.

O problema da superlotação em Nova York piora consideravelmente em bairros específicos, particularmente aqueles com grande população de classe trabalhadora e imigrante, onde não é incomum duas famílias se espremerem em apartamentos destinados a uma, e dois, três ou mais trabalhadores dormirem em um mesmo quarto.

Apesar do Bronx e do Brooklyn terem o maior percentual de unidades habitacionais lotadas entre os distritos, segundo dados do Census Bureau de 2014, a área com taxa mais elevada de superlotação fica no distrito de Queens e abrange Elmhurst e o sul de Corona. Lá, um quarto de todas as residências é considerado superlotado. Um estudo publicado em fevereiro, pela StreetEasy.com, apontou que cinco dos 10 bairros mais lotados da cidade ficavam na região central de Queens.

"Dada a crise de moradias a preço acessível em nossa cidade, para onde iremos?" disse Aniqa Nawabi, a gerente de desenvolvimento de recursos do Chhaya, um grupo de desenvolvimento comunitário em Jackson Heights que trabalha estreitamente com a população imigrante sul-asiática em Queens. "Os preços não param de subir."

Os moradores forçados a viver em espaços apertados para manter o equilíbrio financeiro com frequência o fazem sob grande risco à saúde e segurança pessoal. Um grande volume de pesquisa associa superlotação a problemas de saúde e disseminação de doenças infecciosas, incluindo infecções respiratórias e asma, assim como ansiedade e outros problemas de saúde mental.

Espaços lotados também prejudicam o desenvolvimento cognitivo e comportamental em crianças e atrapalham o sono e os estudos, levando a problemas que podem durar por toda a vida. Um estudo de 2012 publicado na revista "Social Science Research" chamou os efeitos sobre as crianças de lares superlotados de "grandes e generalizados".

"Crianças criadas em lares lotados podem apresentar desvantagens educacionais, comportamentais e de saúde física que persistirão por toda sua vida", disse o estudo.

Muitas residências lotadas em Nova York, como a de Rafael, também podem incluir divisões ilegais de cômodos, que impedem o movimento de bombeiros e aumentam a vulnerabilidade desses imóveis a incêndios.

Estudos e pesquisas também estabeleceram a superlotação como grande causadora de moradores de rua.

O secretário da controladoria geral municipal, Scott M. Stringer, buscou recentemente chamar atenção para a dimensão dos problemas habitacionais da cidade em um relatório chamado "Lares Escondidos".

"O problema da superlotação está teimosamente aumentando", ele disse em uma declaração que acompanhou o relatório, publicado em outubro. "E apesar de que todos nós poderíamos contar com um pouco mais de espaço para respirar, temos que dar atenção especial àqueles que estão sob maior risco dos efeitos negativos da superlotação, incluindo saúde ruim, menores oportunidades econômicas e maior risco de acabarem como moradores de rua."

O relatório apontou que a lotação se concentra em prédios maiores e mais antigos e em imóveis locados, em vez de imóveis ocupados pelo proprietário. Mais da metade de todos os moradores em idade de trabalho nos imóveis lotados estava desempregada; cerca de 70% dos imóveis lotados tinham um imigrante como chefe do lar, a maioria latinos; e cerca de 40% de todos os moradores nos imóveis lotados tinham menos de 18 anos.

Segundo o estudo, o percentual de imóveis com pelo menos 1,5 pessoa por cômodo –uma medida de "lotação severa" usada pelo Departamento de Preservação e Desenvolvimento Habitacional– aumentou quase 45% entre 2005 e 2013, de 2,3% para mais de 3,3%.

O imóvel superlotado geralmente encontra sua expressão mais severa nos apartamentos de porão e adega convertidos ilegalmente, a maioria superlotados e repletos de riscos à segurança, como construção precária, instalação elétrica perigosa e saídas impróprias em caso de incêndio.

Nos últimos anos, vários desses imóveis chamaram atenção pública quando seus moradores morreram em incêndios e os locadores foram processados criminalmente.

Segundo um relatório de 2008 do Chhaya e do Centro Pratt para o Desenvolvimento Comunitário, o Queens é o distrito que conta com mais imóveis ilegais, cerca de 48 mil.

Os dois grupos fazem parte de uma coalizão que faz lobby para que a prefeitura mude as leis de construção e zoneamento, para permitir a legalização de alguns desses imóveis de porão e adega. Eles querem criar um programa piloto que permitiria a regularização de algumas unidades habitacionais.

A coalizão estimou que as unidades informais, a maioria em porões e adegas, são responsáveis por quase 40% de todas as novas moradias criadas na cidade entre 1990 e 2005, e agora chegam a mais de 100 mil por toda a cidade.

León, um imigrante colombiano, vive em um apartamento de porão de dois quartos e 28 metros quadrados em Astoria, Queens, com cinco outras pessoas: sua mulher, duas filhas, um genro e uma neta. Eles pagam um aluguel mensal de US$ 1.200 (cerca de R$ 4.700).

"É uma situação ruim", ele disse, insistindo para que seu sobrenome não fosse publicado porque, assim como Rafael, seu senhorio não está ciente de que tantas pessoas estão morando ali. "Nós precisamos de dignidade, cara. Precisamos de privacidade. Precisamos de uma vida mais decente, na qual seja mais fácil ser humano."

Mas León tenta olhar para o lado positivo de uma situação difícil. "Estou feliz", ele disse, "porque ao menos tenho minha família comigo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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