Grécia torna-se gargalo de imigrantes enquanto vizinhos fecham fronteiras

Liz Alderman

Em Atenas (Grécia)*

  • Marko Djurica/Reuters

    3.mar.2016 - Refugiados bloqueiam linha férrea na fronteira entre Grécia e Macedônia, em protesto contra o fechamento da fronteira pelas autoridades macedônias

    3.mar.2016 - Refugiados bloqueiam linha férrea na fronteira entre Grécia e Macedônia, em protesto contra o fechamento da fronteira pelas autoridades macedônias

O Terminal E2 em Pireu, a cidade-porto próxima de Atenas, é geralmente um lugar animado, com turistas que esperam para embarcar nos ferry-boats que os levarão às ensolaradas ilhas gregas. Alguns dias atrás, porém, quase mil migrantes exaustos que tinham acabado de atravessar o mar Egeu, vindos da Turquia, se espalhavam pelo piso empapado de suor e pelo asfalto lá fora, aguardando para saber se poderiam seguir em direção à Alemanha.

A resposta não demorou: os sírios e iraquianos poderiam embarcar em ônibus até a fronteira norte da Grécia, com a Macedônia, que já estava lotada com quase 10 mil migrantes desde do fim de semana, quando o país vizinho fechou sua fronteira. Todos os outros, incluindo os afegãos, que formavam a maior parte da multidão, seriam levados para um dos campos de refugiados que surgem cada vez mais depressa ao redor de Atenas.

Com milhares de migrantes que continuam chegando à Grécia todos os dias e outros milhares que são rejeitados na fronteira, os arredores áridos de Atenas, Pireu e a cidade de Tessalônica, ao norte, perto da fronteira, estão se tornando os novos locais para contê-los. Os campos são inaugurados ao ritmo de quase um por dia, incluindo no depredado Estádio Olímpico e em bases militares desativadas, para abrigar mais de 25 mil pessoas que não podem seguir adiante devido às novas restrições na fronteira e porque não podem ou não querem voltar atrás.

O governo pretende abrir mais campos entre Atenas e o norte da Grécia para acomodar o surto previsto. Depois de cenas de caos na fronteira da Macedônia na segunda-feira (29), onde migrantes quebraram parte de uma cerca de arame cortante, o ministro da Migração, Ioannis Mouzalas, advertiu na quarta-feira que mais de 100 mil migrantes em breve estarão emperrados na Grécia. A crise poderá durar até três anos, acrescentou ele, pois a Grécia se tornará um país de recepção, mais que de trânsito, para solicitantes de asilo.

"Nunca vimos algo parecido aqui", disse Katerina Kitidi, uma porta-voz da agência de refugiados da ONU, observando a cena no terminal marítimo: mulheres com lenços na cabeça se amontoavam com crianças em uma calçada coberta de lixo perto do mar, enquanto os homens faziam uma fila enorme para obter água e comida.

"Com as fronteiras fechadas, há um acúmulo de gente e um perigo definitivo de que uma má situação humanitária se instale na Grécia."

Os afegãos, que constituem cerca de um terço dos migrantes que entram na Grécia como porta dos fundos da Europa, estão se tornando o maior grupo preso no limbo aqui, depois que a Macedônia e os países ao norte dela subitamente reclassificaram os afegãos como migrantes econômicos, e não refugiados, na semana passada.

Milhares esperam ao redor dos campos ou se aventuram no centro de Atenas, segurando papéis de registro, recebendo propostas de contrabandistas sobre rotas alternativas para a Alemanha e a Áustria e tentando encontrar alguma maneira de não ter de voltar ao Afeganistão.

"Mesmo com a fronteira fechada, os afegãos continuarão vindo: eles preferem enfrentar os problemas aqui ao perigo e o conflito", disse Jamshid Azizi, 24, um afegão que ficou parado em Schisto, um acampamento que o governo abriu na semana passada perto de Pireu, depois que a polícia da Macedônia o devolveu à Grécia após duas tentativas de seguir para o norte.

"Vamos esperar para ver se a fronteira abre, e se não, faremos o possível para não voltar."

Enquanto a Europa continua paralisada politicamente sobre como lidar com os migrantes, parece enfrentar a realidade de que os campos de refugiados poderão ser uma presença no continente nos próximos anos. Na quarta-feira, a União Europeia reconheceu pela primeira vez que uma crise humanitária fermenta dentro de suas fronteiras e concordou com um pacote de emergência de 700 milhões de euros (cerca de R$ 3 bilhões) durante três anos para ajudar a Grécia e outros países na rota dos migrantes a enfrentar a crise.

Mesmo que a Europa chegue a um acordo na cúpula especial no próximo dia 7, em Bruxelas, para conter a maré de pessoas que cruzam o Mediterrâneo a partir da Turquia, grupos humanitários e de ajuda advertem que pessoas desesperadas que fogem da Síria e do Iraque continuarão tentando vir de qualquer maneira, enquanto afegãos e outros que hoje não se qualificam ao asilo político poderão permanecer na Grécia por um tempo considerável.

Na terça-feira, o principal comandante da Otan na Europa, general Philip Breedlove, da Força Aérea dos EUA, avisou os congressistas em Washington (EUA) que a Rússia e o governo de Assad, na Síria, estão "deliberadamente armando a migração na tentativa de exaurir as estruturas europeias e abalar a decisão política da UE".

No campo de Schisto, um antigo quartel militar que o Exército transformou em centro de refugiados em apenas 11 dias, já se faziam preparativos para transformá-lo em uma instalação semipermanente. Alguns dias atrás, mais de 1.400 migrantes, quase todos afegãos, com exceção de três, aguardavam do lado de fora sob vigilância militar, cercados por uma alta cerca com arame farpado. Aproximadamente 150 tendas brancas abrigavam oito pessoas cada, enquanto tendas maiores continham dezenas de camas adicionais.

Até o final de março, porém, o acampamento deverá ser ampliado com contêineres para acomodar pelo menos 4.000 pessoas, "pelo tempo que precisarem ficar", segundo um porta-voz do Exército, Vassilis Thanos.

Uma equipe de construção já liberava espaço para um playground perto de uma clínica improvisada, um refeitório e uma área de culto religioso. As acomodações abrigariam mulheres e crianças, que hoje formam cerca de 60% dos migrantes que chegam, separadas dos homens "para respeitar sua cultura", segundo Thanos.

A base militar estava funcionando de forma organizada, mas outros campos não.

A meia hora dali, entre os esqueletos maciços cobertos de grafite de prédios abandonados do antigo Estádio Olímpico, outro acampamento foi montado no interior de uma arena vizinha a um campo de futebol. Cercados por arame farpado, mais de 1.300 migrantes disputavam espaço no prédio dilapidado. Os migrantes disseram que ninguém sabia quanto tempo ficariam ali ou quando poderiam continuar viagem.

Muitos migrantes que buscam alívio dos campos chegam ao centro de Atenas, à Praça da Vitória, um parque arborizado onde jovens, na maioria afegãos e iraquianos, dormem ao ar livre enquanto contrabandistas tentam atraí-los.

Dezenas de gregos percorriam o parque distribuindo suprimentos e comida feita em casa. Mais tarde, os migrantes se reuniram ao redor de policiais que mostravam fotos do Centro Olímpico. Naquele dia, o antigo campo de beisebol fora aberto, e os policiais tentavam convencer os migrantes a entrar nos ônibus para lá, onde receberiam abrigo e alimentação.

Mas os apelos não eram atendidos.

"Não queremos ir", disse Ahmed, um adolescente do Afeganistão. "Não queremos ir a lugar nenhum até sabermos quando as fronteiras serão abertas."

(*Colaboraram na reportagem Dimitris Bounias, de Atenas, e James Kanter, de Bruxelas.)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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