Opinião: Depois da Superterça, preparem-se para um presidente Trump

Nicholas Kristof

  • Andrew Harnik/AP

    Donald Trump faz discurso de vitória da Superterça em Palm Beach, na Flórida

    Donald Trump faz discurso de vitória da Superterça em Palm Beach, na Flórida

A campanha para a eleição geral talvez já tenha começado

Depois dos resultados da votação na Superterça, os mercados de apostas mostram Hillary Clinton com mais de 90% de probabilidade de ser a candidata nomeada pelos democratas e Donald Trump com no mínimo 75% de probabilidade de sair como o nomeado republicano.

Esta é a mais surpreendente eleição presidencial desde pelo menos 1968, no auge da guerra do Vietnã. O candidato republicano melhor colocado é rejeitado não apenas pelos democratas, mas também por muitos republicanos proeminentes, e tem menos experiência de governo do que qualquer presidente na história.

Somente dois presidentes -- William Howard Taft e Herbert Hoover-- não haviam exercido uma importante função eletiva ou militar, e ambos tinham ocupado cargos no gabinete ministerial.

Em suma, um governo Trump seria sem precedentes não apenas por suas bizarras posições políticas e propensão a insultar mulheres e minorias, mas também por causa de sua inacreditável falta de experiência ou conhecimento relevantes.

Trump habilmente manipulou a mídia noticiosa e mostrou que é um leitor muito mais preciso do eleitorado do que nós, analistas. Mas eu nunca conheci um político nacional tão desinformado, tão evasivo, tão bombástico e --francamente-- tão pueril.

Segundo Dana Milbank, do jornal "The Washington Post", a maioria dos candidatos republicanos falou em um nível colegial no último debate republicano, com base no Índice Flesch-Kincaid de Nível de Escolaridade. Enquanto isso, Trump falou em um nível de terceira ou quarta série.

Depois dos encontros partidários em Nevada, Ted Cruz falou em um nível de nona série, Hillary Clinton, de sétima série e Trump, de segunda série! (Eu verifiquei o discurso da vitória de Trump na noite da Superterça, um discurso mais moderado que parecia visar o centro, e Trump havia elevado sua retórica ao nível da sexta série.)

Então, deixem-me conversar com um (imaginário) eleitor de Trump:

Eu: Como você pode apoiar um demagogo com menos experiência que qualquer outro presidente na história?

Eleitor: Vocês, sabichões da mídia, são tão superiores! Trump tem experiência no que importa: fazer as coisas acontecerem no mundo dos negócios. De qualquer modo, o que os políticos experientes nos deram? Um sistema corrupto e falido. Vamos experimentar algo novo --e pelo menos ele é um sujeito franco.

Eu: Ele tem a reputação de franqueza, mas mente. Quando a PolitiFact estava escolhendo sua "mentira do ano", descobriu que todas as concorrentes eram declarações de Trump --por isso premiou coletivamente seus muitos engodos de campanha como "a mentira do ano". Ao apoiá-lo, você está praticamente garantindo a presidência de Hillary Clinton. Na verdade, por causa de Trump, os mercados de apostas hoje também estão prevendo um Senado democrata.

Eleitor: Ora! Trump provou diversas vezes que todos vocês, analistas, estavam errados, e o fará novamente. E mesmo esses mercados de apostas que vocês gostam de citar mostram que Trump tem uma probabilidade de pelo menos 25% de ser nosso próximo presidente, e é por isso que os outros republicanos estão tentando destruí-lo. Espere para ver quando o partido se unir ao redor de Trump.

Eu: Mas como você pode apoiar um candidato tão cheio de ódio? É um homem que chama os mexicanos de estupradores, que hesita em denunciar a Ku Klux Klan e que não quer dar um registro aos muçulmanos. Você aprova um racista na Casa Branca?

Eleitor: Espere um pouco! Vocês da mídia sempre sacam a carta do racismo, mas nós estamos cheios do politicamente correto. Não concordo com tudo o que Trump diz, mas pelo menos ele não está em cima do muro. Ele fará os EUA serem fortes de novo. Quanto a suas declarações mais radicais, dê um certo desconto. Ele provavelmente não acredita nelas, mas as usa para negociar. Seu histórico é o de um negociante, e não de um ideólogo.

Eu: Mas Trump já está prejudicando a reputação dos EUA em todo o mundo, ao comentar com simpatia sobre o presidente russo, Vladimir Putin, e o massacre na China dos manifestantes do movimento pró-democracia em Tiananmen. Mais de 580 mil britânicos assinaram uma petição para proibir que ele pise em suas terras. E o importante economista Larry Summers adverte que apenas a perspectiva de um demagogo protecionista como presidente poderá levar os EUA à recessão ou provocar uma crise financeira internacional.

Eleitor: Respire fundo. Não me importa que os estrangeiros gostem de nós, desde que eles nos temam.

Eu: E você não vê problema em um candidato que reduz as mulheres a brinquedos sexuais, que critica as mulheres mais com base nos seios do que nos cérebros (nas palavras dele: "Uma pessoa de peito achatado é muito difícil ser nota 10"), que insulta ou zomba de metade da população?

Eleitor: No passado, Trump foi uma personalidade do entretenimento, por isso ele disse coisas chocantes. A partir de agora, ele será mais presidencial e moderado, para alcançar os democratas --o que ele pode fazer melhor que Cruz ou Rubio, porque não é tão conservador. E apesar de todas as suas oposições ele será eleito presidente e mostrará que todas as suas ansiedades são tão imaginárias quanto eu. Acostume-se com a expressão "presidente Trump".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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