Opinião: Cuidado, Canadá, aí vêm eles

Mike McPhate

  • Piotr Redlinski/The New York Times

Fortes reações online são comuns durante ciclos eleitorais presidenciais: "Vou me mudar para o Canadá!" E elas ocorreram em abundância nesta semana, após as vitórias de Hillary Clinton e Donald J. Trump na Superterça.

Naquela noite, o Google registrou um aumento acentuado de buscas incluindo a frase "mudança para o Canadá", e muitos usuários do Twitter prometeram voar para o norte. Mas os relatos de que a queda do site da imigração canadense ocorreu devido ao tráfego pesado foram exagerados. Ele foi causado por um problema técnico não relacionado, disse a agência.

Na quarta-feira, as organizações de notícias ofereciam guias úteis sobre como fugir dos Estados Unidos.

Isso é em grande parte da boca para fora, é claro. A história política americana recente é repleta de promessas vazias de exílio autoimposto por parte do lado perdedor. (Veja Eddie Vedder, Robert Altman e Rush Limbaugh, entre outros.)

Neste momento, grande parte do desalento parece ligado à ascensão política de Trump. Milhares de americanos, incluindo algumas celebridades, alegam estar estudando suas opções.

"No momento, nossos telefones literalmente enlouqueceram com chamadas de americanos", disse um advogado de imigração em Vancouver, David Aujla, na quarta-feira.

"Eu costumava dizer que George Bush era meu melhor aliado de marketing. Mas parece que vou elevar Donald Trump para essa posição assim que ele se tornar presidente."

A ascensão do governo de esquerda no Canadá no ano passado, ele acrescentou, formou uma "tempestade perfeita" de sonho por parte dos liberais americanos a respeito de uma nova vida ao norte da fronteira. Paisagens deslumbrantes e atendimento de saúde garantido do nascimento até a morte também ajudam.

Julian Dotson, um simpatizante de Bernie Sanders em Medford, Massachusetts, disse que ele e sua namorada pesquisaram endereços em Toronto e Nova Escócia. Ele afirmou que sua ameaça não é vazia: se Sanders perder, eles farão suas malas.

"O que aconteceu ontem me deixou doente", ele disse na quarta-feira, depois que o senador de Vermont sofreu uma derrota decisiva para Hillary Clinton nas primárias realizadas no Sul.

Dotson, 22 anos, espera se casar em poucos anos e começar uma família.

"É tipo, quem quer fazer isso aqui?" ele disse. "Não somos ricos. Mas farei o esforço que for preciso para sair deste país caso pareça que não irá se recuperar."

Há poucos dados confiáveis sobre o número de americanos que partiram para o Canadá em consequência de insatisfação política, dizem os pesquisadores. O único aumento claro de americanos fugindo para o norte ocorreu durante a Guerra do Vietnã, quando milhares de homens jovens buscavam evitar a convocação militar.

Alguns especialistas associaram um aumento de emigração para o Canadá em 2005 à reeleição de George W. Bush no ano anterior, em um momento em que os Estados Unidos estavam emaranhados em duas guerras no exterior.

Mas qualquer alegação sobre as motivações para a mudança, que podem ser inúmeras, depende de relatos pessoais, disse Janice Stein, uma professora da Escola Munk de Assuntos Globais da Universidade de Toronto.

Para alguns da mais recente onda de emigrantes potenciais, o desalento em relação a Trump parece representar apenas mais um empurrão na direção em que já estavam inclinados.

Rob Calabrese, um apresentador de rádio de Nova Escócia, disse que foi inundado por mais de 3 mil sondagens de pessoas como Dotson depois que ele, por brincadeira, montou um site no mês passado convidando americanos anti-Trump a se mudarem para Cape Breton, uma ilha na costa do Atlântico que perdeu população após a perda de indústrias.

"As pessoas falam sobre Donald Trump. Elas falam sobre segurança", disse Calabrese. "Muita gente diz que já pensava há muito tempo em seu mudar para outro lugar e que talvez esse seja o empurrão que faltava."

Mas advogados de imigração dizem: não será fácil.

Uma década de governo conservador no Canadá, a partir de 2006, reorientou o sistema de imigração a dar maior ênfase a jovens e trabalhadores capacitados que já possuam ofertas de emprego.

A menos que você se enquadre em certas categorias, incluindo estudantes de ensino superior ou alguém capacitado em uma lista de profissões encontrada no Acordo de Livre Comércio da América do Norte, você pode não ter sorte. (Se sua intenção for se aposentar no Canadá, esqueça, dizem os advogados.)

"Às vezes encontro americanos que sentem que podem simplesmente cruzar a fronteira", disse Aujla, o advogado. "É uma surpresa para eles: 'Como assim, tenho que estar qualificado?' Sim, você precisa estar qualificado."

E mesmo aqueles que estejam podem esperar passar seis anos ou mais cuidando da papelada e vivendo no equivalente do Canadá do "green card" para obter as exigências de residência. Uma presidência de Trump ou Hillary poderá já ter chegado ao fim até lá.

Se a burocracia não basta para dissuadir os aspirantes a canadenses, há outros obstáculos.

Margaret Wente, uma colunista nascida nos Estados Unidos do jornal "The Globe and Mail" de Toronto, apresentou mais alguns possíveis dissuasores e ajustes. Não há nenhum bom churrasco sulista, ela disse, uma casa em Vancouver custará US$ 2,4 milhões e o inverno dura seis meses.

Também há diferenças culturais, ela acrescentou: "Você terá que aprender alguns costumes locais estranhos, como dizer 'me desculpe' quando esbarra em alguém na calçada".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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