Tempestade Sandy

Três anos após furacão Sandy, casas em Staten Island (EUA) serão leiloadas

Matt A. V. Chaban

Em Nova York (EUA)

  • Angel Franco/The New York Times

    Casa na região de Staten Island, em Nova York (EUA), que será leiloada no mês de maio

    Casa na região de Staten Island, em Nova York (EUA), que será leiloada no mês de maio

Staten Island não é um bairro conhecido por sua silhueta, mas, ao longo do litoral leste, um perfil serrilhado hoje cobre o horizonte de New Dorp Beach: sobe, desce, sobe, desce, desce, desce, sobe... vazio.

Envoltas em plástico ou cobertas de tábuas bege ou verdes, mais de uma dúzia de casas flutuam acima das vizinhas, sustentadas por grossas vigas de metal e andaimes de madeira. Outras se erguem atrás de tapumes verdes, com faixas laranja que dizem "Build It Back" (Reconstrua, em inglês) tremulando ao vento, enquanto as casas esperam a vez de serem levantadas acima do nível das enchentes. Muitas outras simplesmente esperam, ainda com risco de serem submersas caso o mar suba.

Nesta comunidade na baía de Nova York, programas municipais, estaduais, federais e privados se arrastam há mais de três anos, desde que o furacão Sandy causou devastação.

As decorações para o Dia de São Patrício estão penduradas em portas e janelas, mas sinais de desordem permanecem em todo lugar. Embora o progresso finalmente esteja ocorrendo em muitos quarteirões, os moradores esperam retomar suas vidas, mesmo que não consigam esquecer as ondas que as transformaram.

"Queremos voltar ao normal, mas o que é normal hoje?", disse Debbie Ingenito, que mora com sua irmã em uma casa geminada na Topping Street, que não conseguem levantar.

Depois das primeiras discussões sobre afastar-se da costa --inclusive desapropriando grande parte dos bairros de Oakwood Beach, Graham Beach e Ocean Breeze--, as autoridades determinaram que seria melhor restaurar comunidades como New Dorp, Midland Beach, South Beach e Dongan Hills. Nem todo mundo quis partir ou podia pagar por isso, e acreditava-se que as pessoas poderiam sobreviver à próxima tempestade com a infraestrutura adequada.

A cidade assumiu a tarefa de elevar as casas ou construir novas para os moradores, enquanto o Estado compraria as que os proprietários não pudessem mais manter.

Em outubro, no terceiro aniversário da tempestade, a prefeitura definiu o fim de 2016 como prazo final para terminar as obras pelo programa Build it Back, que enfrentou vários problemas e só iniciou para valer o trabalho de elevação no último outono [no hemisfério norte].

Até agora, 17 famílias em New Dorp Beach venderam suas casas para o Estado. Elas se mudaram para a mesma rua, mais ao interior ou ao sul, em terrenos mais elevados, mas ainda sentindo a força das marés. Suas antigas casas continuam lá, porém, e serão vendidas por um programa de leilões para ajudar a restaurar o litoral.

"Vemos um futuro que poderá ser ainda melhor que o passado, já que muitas casas que compramos eram inundadas até com uma chuva forte", disse Rachel Wieder, diretora de programas de desapropriações e aquisições do Departamento de Recuperação de Tempestades do governo estadual, durante um giro pelo local na semana passada.

Em 10 de maio, o primeiro grupo de casas será leiloado. Moradores e empreiteiros poderão dar lances por 55 residências danificadas em Staten Island, juntamente com seis casas em Queens e uma no Brooklyn, com a exigência de reconstruí-las ou substituí-las seguindo os padrões modernos. Muitas casas nessa área são bangalôs de praia reformados, algumas mal adequadas para o inverno.

As casas serão leiloadas por lances mínimos. A da Seafoam Street nº 14, em New Dorp Beach, cujas paredes foram substituídas e repintadas e os armários logo acima da linha de enchente continuam na cozinha, tem um preço mínimo de US$ 70.625 (cerca de R$ 265 mil), mas seu valor estimado antes da tempestade seria US$ 175 mil (cerca de R$ 660 mil).

Quatro quadras adiante, no nº 40 da Topping Street, os pilares continuam nus, o piso é um labirinto de madeira compensada e uma antiga cadeira está coberta de latas de tinta e com um Rei Mago solitário de um presépio. O lance mínimo pelo imóvel é de US$ 121.611 (cerca de R$ 455 mil), já que é uma casa maior, no estilo Cape Cod.

"Eu não aguentava mais me preocupar com as tempestades", disse Denise Kelly, que vendeu ao Estado a residência onde viveu por 33 anos. "Além disso, eu estava ficando velha para erguê-la e subir as escadas."

O Estado lhe pagou US$ 340 mil (cerca de R$ 1,28 milhão) pela casa e vai leiloá-la pelo mínimo de US$ 127.278 (cerca de R$ 480 mil). Kelly não foi muito longe: aplicou o dinheiro em uma propriedade em New Dorp Beach a oeste do Hylan Boulevard, onde a maré parou na época do furacão Sandy.

A casa mais cara colocada em leilão no bairro, na área de Great Kills, começa em US$ 228.511 (cerca de R$ 860 mil). A mais barata é um bangalô por US$ 14.961 (cerca de R$ 56 mil) em Midland Beach.

Alguns moradores expressaram temores de que propriedades multifamiliares ou moradias para pessoas de baixa renda substituam as casas antigas, mas o zoneamento e as forças do mercado provavelmente conterão qualquer construção fora de contexto. O Estado espera que as propriedades continuem acessíveis neste bairro habitado por funcionários públicos e trabalhadores da construção. Os novos compradores terão até três anos para terminar suas obras.

"Tantas pessoas foram embora e há tantos lugares vazios", disse Marylou Barcia. "Queremos nosso bairro de volta." Barcia voltou à sua antiga casa em janeiro, uma das primeiras de New Dorp Beach que foram levantadas pelo programa Build it Back.

Dominick Camerada, que espera que a cidade levante sua casa de 24 anos na Garibaldi Avenue, disse: "Para muitos de nós, a recuperação foi pior que a tempestade."

Autoridades do programa afirmam que, desde que a administração De Blasio assumiu, um tempo considerável foi gasto para consertar os erros anteriores. Das cerca de 6.000 propriedades que precisam de reformas ou reconstrução em toda a cidade, 1.548 estão terminadas e 1.011 iniciaram as obras. Enquanto isso, 150 residências estão em processo de ser elevadas, de um total de 1.900.

"Acho que as pessoas precisam dar um passo atrás e ver o que estamos fazendo", disse Amy Peterson, diretora do programa. "As pessoas tiveram suas casas danificadas pelo Sandy e, algumas, pelo Irene. Elas tiveram problemas com seguros e hipoteca, e a cidade está atuando onde outros teriam apenas enviado um cheque."

Quando se trata de quem ficou e quem partiu, as circunstâncias tiveram maior influência que o sentimento ou o planejamento estratégico. A casa estava paga ou a hipoteca teria consumido qualquer indenização. O seguro chegou, mas a burocracia esgotou os moradores.

Virginia Kemler tinha um porão bem acabado, com sala de estar, escritório e lavanderia, que ela teria de perder se elevasse a casa na Garibaldi Avenue, cortando seu valor pela metade. "O que era legal na época não é mais hoje", disse ela, por isso vendeu o imóvel. Seu bangalô, em um valioso terreno duplo, será leiloado por pelo menos US$ 129.644 (cerca de R$ 485 mil), o mais caro de New Dorp.

John Clacher, cuja casa na Neutral Avenue foi arrancada das fundações pela tempestade, sentiu a sorte e o infortúnio ao mesmo tempo. "Minha mãe salvou minha casa, porque quando ela morreu, recebi uma certa quantia e paguei toda a dívida", disse Clacher.

Ele gastou seu próprio dinheiro para elevar a casa em 2013, com a ajuda de uma empresa da religião amish, e vem lutando com a prefeitura desde então para ser reembolsado.

"Eu não moro mais em um bairro", disse ele. "Moro na 'zona', e não sei por quanto tempo ainda poderei chamá-la de lar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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