Grupo que compartilha despesas médicas vira opção a planos de saúde nos EUA

Abby Goodnough

Em San Antonio (EUA)

  • Ilana Panich-Linsman/The New York Times

    Chris Doyle, que abandonou os planos de saúde, e sua família

    Chris Doyle, que abandonou os planos de saúde, e sua família

Quando Chris Doyle soube que seu plano de saúde dedutível aumentaria para US$ 10 mil (cerca de R$ 36 mil) no ano passado, ele e sua esposa, ambos cristãos evangélicos, "passaram duas semanas apenas rezando", ele disse. 

Então optaram por abandonar o plano de saúde, aderindo a algo chamado de ministério de compartilhamento do atendimento de saúde, que exige que os membros ajudem a cobrir as principais despesas médicas uns dos outros à medida que surgem. 

Apesar desses ministérios sem fins lucrativos existirem há décadas, o interesse por eles cresceu desde que a Lei de Atendimento de Saúde a Preços Acessíveis foi aprovada em 2010, em grande parte porque a lei isenta seus membros da exigência de ter um plano de saúde ou pagar uma multa anual. 

A Samaritan Ministries International, à qual Doyle e sua esposa, Sarah, se juntaram no início do ano, seleciona famílias integrantes para ajudarem a pagar as despesas médicas de outros membros.

O dinheiro é enviado diretamente pelo correio para as famílias que precisam, com frequência acompanhado de orações escritas à mão e outros bilhetes de apoio, ou no caso de uma família daqui, adesivos de morango e o desenho de um elefante para sua filha de 5 anos, enquanto se recuperava de uma cirurgia no canal auditivo. 

Por não serem seguradoras, os ministérios de compartilhamento não oferecem garantia de que as dívidas médicas dos membros serão pagas; os membros são orientados a confiar na providência divina. Os ministérios dizem que o sistema de pagamento ajuda os cristãos a cumprirem a ordem bíblica de arcar com os fardos uns dos outros. 

"Nossos únicos ativos são a boa vontade e a participação contínua de nossos membros", disse James Lansberry, vice-presidente executivo da Samaritan, cuja sede fica em Peoria, Illinois. 

Alguns ministérios operam de modo diferente, exigindo que seus membros depositem mensalmente em contas das quais os valores são sacados para aqueles com despesas médicas do tipo coberto. Condições médicas pré-existentes costumam não ser cobertas, nem atendimento preventivo, problemas de saúde mental e ferimentos resultantes de comportamento que o ministério considera imoral ou imprudente.

Os membros que contraem uma doença sexualmente transmissível em uma relação extraconjugal estão sem sorte, por exemplo, assim como aqueles que se ferem ao dirigirem embriagados ou durante uma briga. 

Mesmo assim, o número de pessoas a aderirem aos ministérios de compartilhamento mais que dobrou ao longo dos últimos seis anos, de cerca de 200 mil para 535 mil, segundo a Aliança dos Ministérios de Compartilhamento de Atendimento de Saúde. 

Mais participantes vivem no Texas do que em qualquer outro Estado, segundo a Samaritan e dois outros dos maiores ministérios, o Medi-Share, com sede na Flórida, e a Christian Healthcare Ministries, com sede em Ohio. Segundo a lei de saúde federal, apenas os membros dos ministérios que atuam continuamente desde dezembro de 1999 estão isentos da exigência de ter um plano de saúde. 

O crescimento parece ter ocorrido em grande parte por meio de boca a boca, nas igrejas, escolas e locais de trabalho. Doyle, um maquinista, soube do Samaritan Ministries na Igreja  Grace Point, em San Antonio, cujos pastores e funcionários são membros e cujos fiéis postam a respeito no Facebook. 

Ele e Sarah, uma dona de casa que cuida dos dois filhos pequenos do casal, enviam por correio US$ 405 (cerca de R$ 1.466) todo mês para outro membro, o valor padrão para famílias de três ou mais pessoas. Se tivessem permanecido com o plano de saúde oferecido pelo trabalho, disseram os Doyles, eles pagariam por mês cerca de US$ 600 (cerca de R$ 2.170,00), além de terem que arcar com os primeiros US$ 5 mil (cerca de R$ 18.100) em despesas médicas individuais, US$ 10 mil (cerca de R$ 36.200) para a família, fora atendimento preventivo. 

Sob o ministério, eles também têm que pagar pelos primeiros US$ 300 (cerca de R$ 1.080) de qualquer despesa médica que tiverem. Eles ainda não tiveram nenhuma despesa médica que ultrapassou esse valor, apesar de aguardarem um tanto nervosamente pelo dia em que isso ocorrerá. O Samaritan limita os gastos a cada ferimento ou doença a US$ 250 mil (cerca de R$ 905 mil), com exceção de pessoas que concordam em pagar um extra a cada ano em despesas dos outros além daquele valor. 

"Há um certo medo", disse Sarah Doyle, 33 anos, acrescentando que suspeita ter uma hérnia que precisará de tratamento em breve. "O que acontece se as pessoas não pagarem sua parte e o que acontecerá se o dinheiro não vier? Mas é aí onde entra a parte da fé, eu vou realmente contar com Deus." 

Lansberry disse que a média de despesas médicas cobertas dos membros chega, cumulativamente, a mais de US$ 16 milhões por mês. O número de membros aumentou em cerca de 50 mil ao longo do ano passado, atingindo 200 mil pessoas em 58 mil lares pagantes. 

Reconhecendo que muitas famílias podem se qualificar para planos de saúde subsidiados com atendimento preventivo gratuito por meio da Lei de Atendimento de Saúde a Preços Acessíveis, Lansberry disse que a maioria dos novos membros não adere "devido ao preço, mas principalmente por princípio". 

Antes dos membros serem reembolsados, eles às vezes devem pagar por seu atendimento médico –um valor potencialmente considerável, já que os hospitais cada vez mais exigem um pré-pagamento ao menos parcial. Então pode levar pelo menos dois meses para que o Samaritan processe seus pedidos de ajuda e para que os cheques de outros membros cheguem pelo correio. 

Após aderirem, os membros abrem mão do direito de processar, e no caso do Samaritan, painéis de apelação compostos por membros escolhidos aleatoriamente às vezes resolvem disputas. Lansberry disse que esses painéis foram formados apenas quatro vezes desde a fundação do Samaritan, em 1994, e que o grupo nunca foi alvo de queixas aos comissários de seguros e procuradores do Estado. 

O comissário de seguros do Estado de Washington tentou impedir o Samaritan de operar em 2011, dizendo que ela estava vendendo "seguros não autorizados", mas o Legislativo estadual aprovou uma lei isentando explicitamente das regulamentações os ministérios de compartilhamento de atendimento de saúde. 

Os comissários de seguros do Kentucky e Oklahoma tentaram bloquear o Medi-Share, o ministério baseado na Flórida, mas foram impedidos quando seus Legislativos também aprovaram leis protetoras. 

Em 2001, o procurador-geral de Ohio tentou processar um ministério, na época conhecido como Christian Brotherhood Newsletter, e agora como Christian Healthcare Ministries, no final forçando seus líderes a devolverem US$ 15 milhões que gastaram em suas casas, veículos e salários excessivos a partir do fundo para o qual seus membros contribuíam. 

Os membros impetraram um punhado de processos contra a Medi-Share depois que contas que esperavam que seriam cobertas não foram. Os casos foram encerrados por acordos fora do tribunal. Apesar da lei de saúde exigir que os ministérios se submetam a auditorias anuais independentes, os críticos questionam se essa salvaguarda é suficiente. 

"Nossa mensagem é consistentemente de que não se trata de um produto de seguro-saúde que regulamos, de modo que o comprador precisa ter cuidado", disse Nick Gerhart, o comissário de seguros de Iowa. "Um bebê prematuro pode custar facilmente US$ 1 milhão, de modo que não precisaria de muitos desses para causar um problema significativo a qualquer grupo, ainda mais um grupo não regulamentado como esse." 

Lee e Amy Jebson de Chesapeake, Virgínia, não esperavam grandes despesas médicas quando aderiram ao Medi-Share em 2014, após desistirem dos planos disponíveis pelo site HealthCare.gov, o mercado de planos de saúde administrado pelo governo, devido aos preços. Mas então o filho deles de 8 anos foi diagnosticado com leucemia linfóide aguda, levando a várias centenas de milhares de dólares em despesas médicas apenas nos primeiros poucos meses de seu tratamento. 

"Uma única febre representa uma conta hospitalar de US$ 10 mil por noite", disse Amy Jebson, acrescentando que sua família paga US$ 500 (cerca de R$ 1.800 ) como parcela mensal das despesas médicas de outros membros, mais US$ 2.500 (cerca de R$ 9 mil) com suas próprias. Mas até o momento, ela acrescentou, as contas deles estão sendo cobertas, com exceção de alguns poucos milhares de dólares. 

Eles, como outros entrevistados, disseram que aderir aos ministérios lhes permite viver segundo suas crenças religiosas, em vez de seguir uma ordem do governo de comprar um plano de saúde que pode cobrir coisas pelas quais não querem pagar, como aborto (apesar de metade dos Estados não permitir que os planos vendidos pelos mercados da Lei de Atendimento de Saúde a Preços Acessíveis, ao menos, paguem por abortos) ou controle da natalidade. 

"É realmente um modelo de cuidar do próximo, não ser ordenado 'você tem que' ou 'estou forçando você a fazer isso'", disse Lee Jebson.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos