Líder húngaro planeja "dança das cadeiras" de museus para atrair turistas

Rick Lyman

Em Budapeste (Hungria)

  • Akos Stiller/The New York Times

    Turistas visitam o Castelo Buda, em Budapeste, convertido pelos comunistas, após a destruição ocorrida na Segunda Guerra Mundial, no atual lar da Galeria Nacional de Arte

    Turistas visitam o Castelo Buda, em Budapeste, convertido pelos comunistas, após a destruição ocorrida na Segunda Guerra Mundial, no atual lar da Galeria Nacional de Arte

Augusto se gabava de ter encontrado uma Roma de tijolos e tê-la deixado uma cidade de mármore. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, parece estar tentando algo semelhante.

Com dois projetos imensos de construção, Orban pretende mudar a face de Budapeste, em parte por razões econômicas, para atrair mais turistas, e em parte por razões políticas, para restaurar prédios nacionais cruciais à sua glória pré-Segunda Guerra Mundial.

A ideia, fora remover o máximo possível de vestígios do governo comunista, é criar uma expressão concreta do nacionalismo pregado por seu partido do governo.

No lado Buda do rio Danúbio, o antigo palácio real ocupa grandiosamente o topo da Colina do Castelo, convertido pelos comunistas, após a destruição ocorrida na Segunda Guerra Mundial, no atual lar da Galeria Nacional de Arte e do museu de história da cidade.

Orban pretende remover a Galeria Nacional, restaurar a antiga grandeza do palácio e se instalar em novos gabinetes nas proximidades.

No lado Peste, no final da grande, porém em dificuldades financeiras, Avenida Andrassy de Budapeste, o governo pretende gastar mais de US$ 780 milhões para transformar o principal parque da cidade, de 100 hectares, em uma espécie de Ilha dos Museus ao estilo de Berlim.

Ela incluirá meia dúzia de novas instituições, algumas projetadas por grandes arquitetos internacionais, e outros projetos para turistas espalhados por um dos últimos grandes espaços verdes da cidade.

"Esses projetos, quando reunidos, provavelmente constituirão o maior projeto arquitetônico concentrado em Budapeste em 100 anos", disse Samu Szemerey, um arquiteto e fundador do Centro KEK de Arquitetura Contemporânea Húngara.

Laszlo Baan, o diretor geral do Museu de Belas Artes de Budapeste, disse que é o maior projeto arquitetônico na Europa e um evento transformador na história da cidade.

Os críticos falam em "complexo de edifício" de Orban e em sua ânsia em deixar uma marca de concreto na capital.

"Isso só pode ser entendido por um ponto de vista político", disse Gergely Karacsony, o prefeito do 14º Distrito de Budapeste, que inclui o parque, conhecido simplesmente como Liget, a palavra em húngaro para parque.

"Orban está tentando pegar a cidade existente e devolvê-la a como era antes de 1944", ele disse. "O parque é uma vítima de toda essa máquina política."

Outros grupos ambientais também são contrários à intervenção no parque, argumentando que a cidade deveria desenvolver seus espaços vazios existentes antes de remover espaço verde precioso.

E os críticos também veem a restauração do castelo como cara e não prática, talvez até mesmo impossível.

"Ninguém pode fazer isso", disse Peter Gyorgy, um historiador da Universidade Eotvos Lorand, em Budapeste. "O castelo está totalmente diferente de como era antes da guerra. É uma estrutura moderna com uma fachada e uma configuração interior diferente."

Os projetos se desdobraram como um jogo de dominós.

Se Orban quisesse transferir seu gabinete para a Colina do Castelo, o antigo lar da realeza húngara, e transformar o castelo em um palácio-museu ao estilo de Versailles, cujos espaços ornamentados ele poderia usar para ocasiões de Estado, ele precisaria remover o museu existente.

E se também quisesse devolver a Suprema Corte da Hungria à sua antiga sede deslumbrante em frente ao Parlamento (e ele queria), Orban precisaria mudar o Museu Etnográfico, agora situado de uma forma um tanto improvável lá.

Ao mesmo tempo, Baan propôs fundir a despejada Galeria Nacional com seu Museu de Belas Artes, em prédios separados no parque, mas administrados de forma conjunta. O Museu Etnográfico também seria transferido para lá, em novas instalações que Zaha Hadid e Rem Koolhaus, entre outros arquitetos célebres, estão projetando para a disputa pela construção.

Um museu da agricultura em um velho castelo no centro do parque será reformado, assim como vários outros prédios ao redor do parque. Os espaços verdes restantes serão melhorados. Um antigo teatro art nouveau, em grande parte destinado a peças infantis, será reconstruído. Há um novo Centro para a Música Húngara, um beer garden e um imenso "biodomo" cobrindo uma parte do Zoológico de Budapeste adjacente.

Muitos dos novos prédios reproduzirão estruturas da Exposição do Milênio de 1896, considerada um ponto alto da Hungria. O museu dos transportes reformado, por exemplo, será dominado por um domo de 67 metros simplesmente porque esse domo já foi erguido ali.

A nova Galeria Nacional, projetada pela Sanaa, uma firma de Tóquio comandada por Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, ficará em um edifício de vidro e aço no centro do parque. Ele dará a Baan uma chance de reconfigurar as coleções do museu de uma forma mais lógica.

De acordo com o novo plano, disse Baan, todas as obras até o século 18 irão para a Praça dos Heróis do Museu de Belas Artes. A praça passará por sua própria grande reforma, incluindo a restauração de seu imponente Salão Romanesco, que foi bombardeado na guerra. Todas as obras de períodos posteriores irão para a nova Galeria Nacional.

Gyorgy, que é cético em relação ao projeto do castelo, tem sentimentos diferentes a respeito dos museus.

"Liget é diferente", ele disse, acrescentando: "Budapeste não é conhecida como uma cidade de museus, mas isso pode mudar, e turistas de museu tendem a ser mais ricos e permanecer por mais tempo".

Trabalhando em um escritório ensolarado em um prédio visivelmente moderno com vista para uma das praças centrais de Peste, Laszlo L. Simon está supervisionando o projeto do castelo como secretário de Estado do primeiro-ministro para o patrimônio cultural e projetos culturais proeminentes.

"O castelo sempre esteve em uma posição especial", disse Simon. "Ele foi de fato a sede dos governantes até os anos Habsburgo. Logo, trata-se de uma tentativa de trazer o castelo para esta era de renovação nacional."

E a única forma de fazer isso, ele disse, é removendo todas as reformas da era comunista e devolvendo o palácio à sua glória pré-guerra. Mas poderá levar até 20 anos para concluir cada faceta do projeto, ele disse.

"Nós temos tudo o que precisamos para restaurar o castelo", disse Simon. "É apenas uma questão de dinheiro."

No final da Avenida Andrassy, em escritórios modernos com vista para o parque, os diretores do Liget Budapeste, como é conhecido o projeto dos museus, dizem que o plano não apenas atrairá centenas de milhares de novos turistas, mas também melhorará o parque para os moradores.

Estimativas oficiais indicam que o número de noites que os turistas estrangeiros permanecem na cidade aumentaria em 20% após a conclusão do projeto, em 2019.

Na disputa por turistas, Budapeste recebe cerca de 3 milhões de turistas estrangeiros por ano, disse Baan. Praga recebe 4,5 milhões. Viena, Barcelona e Milão recebem mais de 6 milhões.

"Temos um potencial não realizado", ele disse.

Mas Karacsony não é persuadido.

"O que importa para o governo é que a Galeria Nacional deve sair da Colina do Castelo", ele disse. "Esse é o verdadeiro motivo para isso estar acontecendo. Tudo mais é apenas ideologia e desculpas."

O governo também declarou que ambos os projetos são um "investimento proeminente" segundo a lei húngara. Isso significa que grupos contrários aos projetos não podem questioná-los na Justiça, disse Andras Lukacs, presidente do Grupo de Ação Ar Limpo, que também é contrário ao plano para o parque.

Ele também se pergunta se as multidões prometidas de fato virão para o que alguns defensores chamam de Nova Budapeste.

"Não temos nenhuma Mona Lisa para colocar em exposição", disse Lukacs.

Baan olhou para o Danúbio salpicado de branco de seu escritório de canto dentro do palácio real.

"É verdade, não temos uma Mona Lisa", ele disse, acrescentando que é por isso que os projetos são necessários. "A meta é nos tornarmos a cidade destino Nº1 para as famílias na Europa."

*Helene Bienvenu contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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