Nos comícios de Trump, é notável a atmosfera inflamável de raiva e ameaça

Ashley Parker

A primeira vez em que me senti insegura em um evento de Trump foi há uma semana, em Nova Orleans.

Eu não estava acompanhando Trump há muito tempo, mas o comício na noite quente, em um hangar de aeroporto nos arredores de Nova Orleans, vibrava com uma energia sinistra. Donald Trump subiu ao palco no instante em que céu passava de um crepúsculo arroxeado para preto azulado, assim como o clima também mudou, tornando-se tenso e elétrico.

A primeira interrupção ocorreu cedo, seguida por outra e mais outra, à medida que um fluxo constante de manifestantes interrompia o evento. Alguns partiam de forma pacífica e quieta ao serem escoltados para fora pelos seguranças, mas outros não, gritando obscenidades e se jogando ao chão para resistir.

O público se enfurecia, acotovelando, empurrando e vaiando os perturbadores. Uma mulher jovem, simpatizante de Trump, foi empurrada contra as barricadas de metal e começou a chorar. Um grupo de senhoras idosas partiu mais cedo, logo depois de um homem segurando um cartaz de apoio da Ku Klux Klan a Trump ter sido retirado perto dali.

Para Trump, o comício foi apenas "uma forma espetacular de passar uma noite de sexta-feira", enquanto exultava no palco.

Mas também foi um prenúncio de futura violência e um vislumbre de como Trump, que prometeu unir o país, parece ter unido os americanos apenas na incitação de suas paixões e raivas.

O que estamos testemunhando agora é complicado, com poucos heróis óbvios. Às vezes, ambos os lados se comportam mal.

Os apoiadores de Trump são rápidos em se voltar contra aqueles que protestam, especialmente aqueles que não se parecem com eles. Eles apontam e gritam. Às vezes cospem, chutam e empurram. Uma mulher negra jovem em Kentucky foi empurrada e xingada, com seu cartaz arrancado de suas mãos e rasgado. Um homem negro na Carolina do Norte foi agredido por um homem branco de 78 anos, que depois olhou para umA câmera e alertou que, da próxima vez, "Poderemos matá-lo".

Testemunhar a multidão se voltar contra aqueles que protestam em seu meio parece observar um corpo febril, curvando-se e contorcendo enquanto tenta expulsar um vírus invasor.

Eu conversei com os manifestantes que ainda não têm palavras para descrever o que sentiram quando foram visados ou atacados, com frequência por suas próprias comunidades. Trump diz que condena a violência. Mas ele também grita para as multidões "Botem eles para fora!" E mesmo quando pede para não machucarem os manifestantes, suas palavras são envoltas em ameaça.

Mas aqueles que protestam às vezes instigam a confronto. Eles se atiram ao chão, forçando os agentes da lei locais, com frequência em número insuficiente e sobrecarregados, a arrastá-los. Eles também gritam e xingam, fazendo gestos obscenos enquanto são retirados dos eventos. E na noite de sexta-feira em Chicago, e talvez no esforço mais bem organizado até o momento, eles vieram não apenas para protestar em silêncio, mas para tentar impedir Trump de fazer seu discurso.

Ambos os lados dizem se sentir injustiçados e marginalizados, mas de formas diferentes.

Os apoiadores de Trump que entrevistei são quase impecavelmente corteses. Nas grandes filas de trânsito que antecedem seus eventos, eles sorriem, acenam e me permitiram passar à frente deles. E respondem educadamente as perguntas, explicando como a visão deles para o país, de um lugar onde se você trabalhar com afinco e seguir as regras, poderá prover para sua família e ter uma vida decente, está sendo roubada deles.

Eles já sentem que seus direitos fundamentais, a capacidade de ganhar um salário decente, o direito de portar uma arma, estão sendo tomados. E agora acreditam que o Partido Republicano está tentando impedir a indicação de Trump, fora as pessoas que tentam interromper seus eventos.

E ficam furiosos.

A mulher de 71 anos com quem conversei antes do comício em Nova Orleans, que me disse que "nada, fora Trump atirar na minha filha e nos meus netos na rua", a dissuadiria de votar nele, disse ter sido "aposentada à força", parte de uma recente rodada de demissões. Para mim, os comentários refletiam não apenas sua paixão genuína por Trump, mas também a profundidade de seu desespero.

Os manifestantes contrários se sentem igualmente injustiçados. Muitos deles fazem parte de minorias (negros, latinos, muçulmanos) que ouvem seus pronunciamentos e se sentem insultados, até mesmo apavorados. Eles também têm uma visão para este país e o sonho americano, acreditando que se trabalharem com afinco e seguirem as regras, eles poderão ser assimilados pelo país que já acolheu tantos.

Eles dizem que não podem ficar parados sem fazer nada enquanto Trump chama os mexicanos de "estupradores" e "criminosos", ou ameaça impedir a entrada de todos os muçulmanos no país.

Griselda Cardena Segovia, uma universitária de 20 anos, fazia parte de um pequeno grupo de pessoas que foi removido de um evento de Trump na segunda-feira, em Concord, Carolina do Norte, antes de começar, após darem seus braços em um protesto silencioso.

Ela disse que ela e sua irmã mais nova vieram assistir pacificamente o comício e apoiar seus pais, imigrantes mexicanos que elas sentiram terem sido insultados por Trump. Mas assim que chegaram, o público "nos olhou torto e era possível sentir que éramos indesejados", ela disse, acrescenta que eles consideraram chocante a cena, que incluía alguns de seus professores colegiais.

"Nunca em toda nossa vida, vivendo aqui em Concord, nunca tínhamos experimentado o racismo como agora", disse Segovia. "Nunca pensei que minha cidade, para a qual contribuímos, nos trataria dessa forma."

Depois do comício, o grupo de Segovia permaneceu em um gramado à margem, segurando cartazes. Estava anormalmente quente para março, o tipo de dia em que você dá uma escapulida do trabalho para fazer um longo almoço ao ar livre, e enquanto os carros partiam, dezenas baixavam seus vidros para gritar obscenidades contra os homens e mulheres jovens. "Voltem para o México", alguém gritou de um utilitário esportivo enquanto partia.

O grupo, vestindo camisetas pretas e brancas lisas, respondia como "Deus o abençoe", mas alguns também perderam a calma, correndo atrás dos carros e também gritando seus próprios xingamentos.

A energia enervante começou a se infiltrar nos comícios de Trump nas últimas semanas, assim que comecei a cobri-los após vários meses de cobertura à campanha de Jeb Bush, onde o que constituía um drama em um comício noturno era o candidato implorar educadamente para que a plateia aplaudisse.

Como repórter, sempre tento antecipar em que direção a história segue, para que possa chegar lá antes, ao pelo menos junto com a notícia. E rapidamente comecei a tomar notas das cenas de violência e quase violência, e a registrar as vozes dos simpatizantes furiosos e frustrados de Trump. Em breve, eu alertei meus editores, alguém ficará seriamente ferido, ou pior, em um comício de Trump e vamos querer ter uma história pronta.

As imagens de Chicago exibidas ao mundo na noite de sexta-feira, de pessoas gritando e se lançando umas contra as outras, de pessoas deitadas ensanguentadas nas ruas, pareciam ser de uma nação que muitos de nós não reconhecem ou não querem reconhecer.

Os sons e imagens também me pareciam estrangeiros e distantes. Mas também estavam bem ali, todos registrados no meu bloco de notas, acumulando, crescendo e prontos para explodir.

Porque, de muitas formas, o que aconteceu na noite de sexta-feira em Chicago pareceu menos surpreendente do que deveria, e totalmente inevitável.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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