Análise: "Trumpismo" prevalece onde identidade branca se soma a disfunções econômicas

Neil Irwin e Josh Katz

  • Matt Rourke/AP

Quando o Departamento do Censo dos EUA pergunta aos americanos sobre seus ancestrais, alguns respondentes não dão uma resposta padrão, como "ingleses" ou "alemães". Eles respondem simplesmente "americanos".

Os lugares que têm altas concentrações desses autodenominados americanos vêm a ser os mesmos onde a campanha presidencial de Donald Trump teve o melhor desempenho.

Essa conexão e outras surgiram em uma análise da geografia do trumpismo. Para ver que condições preparam um lugar para votar em Trump para presidente, comparamos centenas de variáveis demográficas e econômicas de dados do Censo, juntamente com resultados das últimas eleições, com os resultados deste ano nos 23 Estados que realizaram primárias e assembleias partidárias.

Examinamos quais fatores predeterminam um alto nível de apoio a Trump em relação ao número total de eleitores registrados.

A análise mostra que os condados de Trump são lugares onde a identidade branca se mistura com disfunções econômicas que fervilham há muito tempo.

Os locais onde Trump se saiu bem fazem um corte transversal das habituais linhas de falha da política americana --norte e sul, liberal e conservadora, rural e suburbana. Um elemento comum a uma parcela significativa de seus apoiadores é que eles de modo geral perderam a longa transição dos EUA de um país fabril a uma economia diversificada, conduzida pela informação, profundamente entrelaçada com o resto do mundo.

"É uma população não urbana, operária e hoje aparentemente muito zangada", disse William Frey, demógrafo do Instituto Brookings. "Não são pessoas que se movimentaram muito, e as coisas mudaram, afastando-se delas, mas vivem em áreas que parecem estagnadas de muitas maneiras."

Trump também tem parcelas saudáveis de apoio dos afluentes e instruídos --não devemos esquecer isso. Mas, nos lugares onde o apoio a ele é mais forte, a porcentagem de população branca que não terminou o colegial é relativamente alta. Assim como a porcentagem de adultos em idade ativa que não têm emprego nem estão procurando um.

A terceira correlação mais forte entre centenas de variáveis testadas: a preponderância de casas móveis (trailers).

Os condados que votam em Trump incluem lugares que já votaram em republicanos ou democratas, e os mais fortes indícios de apoio a Trump incluem como um condado reagiu a dois candidatos muito diferentes de outros partidos: o território de Trump mostrou maior apoio que o resto do país ao segregacionista George Wallace na eleição de 1968 e um apoio substancialmente menor ao ex-republicano de tendência liberal John B. Anderson em 1980.

Trump saiu-se bem até agora nos condados do carvão nos montes Apalaches e em áreas rurais de Alabama e Mississipi, que estão enfrentando problemas econômicos e sociais como altos índices de desemprego e dependência de heroína.

Mas a análise da Upshot também mostra a linha comum entre esses lugares e locais mais urbanos onde Trump teve ou deverá ter bons resultados.

Em Revere, no Estado de Massachusetts, um subúrbio da classe trabalhadora de Boston, Trump ganhou 73% dos votos primários republicanos. O modelo de "The New York Times" sugere que ele se sairá muito bem em Long Island quando ocorrerem as primárias de Nova York em 19 de abril e em Ocean County, Nova Jersey, na votação em 7 de junho.

Havia correlações frágeis entre o apoio a Trump e várias medidas de desempenho econômico de 2007 a 2014, incluindo os danos ainda presentes da crise financeira global de 2008. Os problemas econômicos que se alinham a um forte apoio a Trump estão se formando há muito tempo e desafiam soluções simples.

A alta porcentagem de brancos sem diploma colegial nesses lugares --o mais forte fator isolado de previsão de apoio a Trump que testamos-- tem consequências duradouras para a renda, por exemplo.

A diferença de remuneração conforme o nível de educação começa pequena quando as pessoas estão no início de suas carreiras, mas se amplia ao longo das décadas da vida ativa. Formados em faculdades têm menor probabilidade de ficar desempregados e maior probabilidade de encontrar um emprego rapidamente se ficarem, e há comparativamente menos deles na Trumplândia.

Em lugares onde Trump tem bons resultados, porcentagens relativamente altas de trabalhadores estão em campos que envolvem trabalho manual, especialmente em fábricas.

O declínio do emprego na manufatura não é uma história de apenas alguns anos ruins para a economia; o emprego fabril em nível nacional atingiu o pico em 1979 e, como porcentagem dos empregos totais, vem decaindo quase continuamente desde 1943. Forças que incluem a mecanização e o comércio colocaram as perspectivas de emprego no setor em uma posição cada vez pior.

Do mesmo modo, um fator de previsão de forte apoio a Trump melhor que um indicador econômico padrão como o desemprego é a alta porcentagem de adultos em idade ativa que não estão trabalhando (a correlação era forte para homens e para mulheres).

Para ser contada como desempregada, uma pessoa deve ter procurado trabalho ativamente no último mês. Mas "não trabalhar" é uma definição mais ampla, que incluiria, por exemplo, as pessoas que estão desanimadas pelo que consideram más perspectivas de emprego; que vivem em casa, só cuidando dela; ou que são deficientes e ficam em casa enquanto recebem ajuda do governo.

Em plano nacional, 23% da população entre 25 e 54 anos não estavam trabalhando em março, contra 18% em 2000. As áreas onde Trump é mais popular parecem estar na linha de frente dessa tendência.

Apesar de evidências de que alguns leitores de Trump são movidos pela hostilidade racial, esta análise não mostrou uma relação especialmente poderosa entre a composição racial de um condado e sua probabilidade de votar em Trump. Há condados que apoiam o pré-candidato e que têm porcentagens muito altas e muito baixas de afro-americanos, por exemplo.

Um dos mais fortes fatores de previsão de apoio a Trump é a porcentagem da população nativa. Relativamente poucas pessoas nos lugares onde Trump é forte são imigrantes --e, como revelam suas respostas sobre a ascendência, usam esse fato como um distintivo.

Eleições presidenciais americanas: entenda as primárias e votação

  •  

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos