Britânicos mostram ansiedade e ressentimento com crescimento de imigrantes

Kimiko De Freytas Tamura

Em Boston (Inglaterra)

  • Andrew Testa/The New York Times

    Trabalhadores em colheita de verdura em Boston, na Inglaterra

    Trabalhadores em colheita de verdura em Boston, na Inglaterra

Trabalhadores com roupas laranja fluorescentes abriam caminho entre as fileiras de couve verde-escura, parecendo presos em uma penitenciária agrícola.

Após um longo dia de trabalho, recebendo o salário mínimo por hora, eles voltavam a um acampamento improvisado, rodeado por cercas de arame farpado e de segurança instaladas pelo empregador, a produtora de legumes Staples Vegetables, que abastece os supermercados britânicos e a Europa. Os colhedores, cerca de mil, têm de escanear suas impressões digitais na entrada do terreno.

Muitos desses homens e mulheres são da Europa Oriental. Eles estão no Reino Unido legalmente, sob o princípio de liberdade de movimento e trabalho da União Europeia, que permite que qualquer cidadão de um país da UE trabalhe em outro país membro.

Mas sua presença causou ansiedade e ressentimento em Boston, cidade na costa leste da Inglaterra que passou a simbolizar o crescente antagonismo deste país contra a imigração. O número cada vez maior de estrangeiros no Reino Unido tornou-se uma questão central para os eleitores no referendo em 23 de junho, que determinará se o país permanecerá na UE.

"Há um grande excesso deles", disse Peter Chamberlain, 61. Sentado em um banco há alguns dias, ele assistia a dois poloneses discutirem acirradamente em sua língua nativa. "Eu aceitaria ter menos benefícios para recuperar a cidade."

Boston, com 67 mil habitantes, teve um aumento de seis vezes no número de moradores estrangeiros de 2001 a 2011, e parece que a população não britânica continuou crescendo nos últimos cinco anos, segundo estatísticas oficiais. O rápido influxo pressionou a habitação, o emprego, o policiamento, os hospitais e as escolas, que lutam para encontrar mais professores de inglês.

Diante da ansiedade que aumenta em cidades como Boston, o primeiro-ministro David Cameron fez da imigração uma questão central em sua iniciativa para renegociar a relação entre o Reino Unido e a UE, no mês passado.

Incapaz de modificar o princípio da liberdade de movimento, Cameron conseguiu restringir os benefícios que os trabalhadores de outros países da UE podem obter no Reino Unido durante quatro anos. Ele espera que a medida temporária torne o país um destino menos atraente para os europeus que buscam trabalho --ou pelo menos mostre aos eleitores britânicos que ele está reagindo às suas preocupações.

Os esforços de Cameron para limitar os benefícios, entretanto, estão sendo minados por um plano apresentado por George Osborne, o chanceler do Tesouro, de adotar um salário nacional ligeiramente maior que o mínimo atual, medida que provavelmente incentivaria mais pessoas a se mudarem para o Reino Unido. A partir de abril, trabalhadores com 25 anos ou mais receberão pelo menos 7,20 libras (cerca de R$ 38) por hora, quase o dobro do salário mínimo médio nos 22 países da UE que têm um.

Os que defendem a saída do Reino Unido do bloco, os "brexit", dizem que os empregos britânicos vão para imigrantes que desejam trabalhar por salários baixos e são atraídos pela oportunidade de reivindicar benefícios sociais relativamente generosos. Números do Departamento de Trabalho e Pensões, porém, mostram que apenas 7,2% dos 5,1 milhões de beneficiados no país não são cidadãos britânicos.

Em Boston, tanto imigrantes europeus como residentes britânicos dizem que estão seguindo de perto o debate sobre o Reino Unido deixar a UE.

A comunidade sente "incerteza, um pouco de medo sobre a situação", disse o reverendo Stanislaw Kowalski, um padre da igreja católica de St. Mary e capelão da comunidade polonesa, que também é imigrante. Alguns imigrantes estão adiando decisões de vida pelo temor de terem de voltar a seu país natal, acrescentou Kowalski.

Vários imigrantes disseram concordar com Cameron, que a imigração tem de ser controlada. O problema, segundo eles, é o generoso sistema de assistência social do Reino Unido.

"O país precisa reorganizar o sistema", disse Gregory Pacho, um imigrante ítalo-polonês que tem uma empresa de táxis. "É agradável quando alguém lhe dá a mão, e o sistema incentiva as pessoas a não trabalhar."

Os moradores de Boston que querem ver o Reino Unido fora da UE disseram estar preparados para ceder qualquer benefício econômico que o bloco ofereça para recuperar o controle da imigração.

Se o Reino Unido deixar a UE, poderá perder o acesso pleno aos mercados europeus do qual dependem empresas agrícolas como as de Boston.

"Eu fico terrivelmente frustrado por termos as mãos atadas" pela UE, disse Yvonne Stevens, um vereadora local e membro do Partido da Independência do Reino Unido, que lidera uma das duas coalizões que fazem campanha pela saída do bloco europeu.

Stevens disse que gostaria de ver a liberdade de movimento substituída por algo semelhante ao sistema da Austrália, baseado em pontos, que exige que os imigrantes tenham certas capacidades e qualificações para terem direito ao visto.

Se Boston atrairia trabalhadores qualificados sob tal sistema não está claro. A cidade contou historicamente com mão de obra barata, necessária para que os consumidores britânicos tenham produtos agrícolas por baixo preço.

Como o trabalho manual como a colheita de frutas enfrenta pouca concorrência, aumenta o ressentimento sobre empregos e salários. A oferta excedente de mão de obra barata limita o poder de negociação dos trabalhadores, diz o argumento. Na agricultura, por exemplo, o salário mínimo para colhedores, de 6,20 libras (cerca de R$ 33) por hora, tornou-se na verdade um teto.

John Ebton, 75, que trabalhou em uma fábrica de conservas durante 24 anos, lembra com saudade dos dias de 1975, quando os colhedores de legumes recebiam 3 libras por hora, ou cerca de 23 libras por dia (R$ 121), ajustados pela inflação. "Eu me sentia seguro de que teria um trabalho no dia seguinte", disse ele.

Muitos moradores de Boston partilham o raciocínio de Ebton. No entanto, julgar os efeitos negativos da imigração por tais comparações é ingênuo, disse Christian Dustmann, diretor do Centro de Pesquisa e Análise da Migração no University College de Londres.

Sem imigração, disse ele, os trabalhadores britânicos de Boston poderiam ter perdido de maneiras diferentes: as fazendas locais poderiam ter mecanizado partes de seu trabalho ou simplesmente fechado, e os supermercados britânicos poderiam ter importado produtos agrícolas mais baratos.

"Há muitos empregos que não existiriam sem a imigração", afirmou Dustmann. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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