"Grande Governo" dos EUA parece ótimo quando não há nenhum, como no Sudão do Sul

Nicholas Kristof

Em Unidade (Sudão do Sul)

  • Nicholas Kristof/The New York Times

    Crianças brincam com armas feitas de argila no Sudão do Sul

    Crianças brincam com armas feitas de argila no Sudão do Sul

Após ouvir os pré-candidatos presidenciais republicanos condenando o Grande Governo e o fardo da regulamentação, eu gostaria de convidá-los a passar a noite aqui, no meio da guerra civil no Sudão do Sul.

Você ouve disparos, competindo com os uivos das hienas, e não ouve ninguém reclamar de impostos. Em vez disso, você anseia por um governo capaz de instalar telefones, contratar uma central telefônica de emergência e capaz de enviar a polícia.

De longe, é possível ver os Estados Unidos de forma diferente. Donald Trump e Ted Cruz parecem pensar que os calcanhares de Aquiles dos Estados Unidos são a imigração e um governo ativista. Mas do ponto de vista de uma zona de guerra, eles mais parecem pontos fortes nacionais.

De fato, veja o que Trump está pregando: por um governo mais fraco, menos regulamentação, uma sociedade mais homogênea. De certa forma, você encontra uma versão de tudo isso bem aqui.

Nenhuma regulamentação! Não há longas filas no DMV (o equivalente americano ao Detran), porque não há DMV em áreas de conflito. Na prática, não há impostos e nem restrições a armas. Não há Obamacare (a lei de atendimento de saúde do governo Obama, que expande a cobertura para mais pessoas). Não há salário mínimo. Não há Estado de bem-estar social para gerar dependência. Não há regras pegajosas de desapropriação. E certamente não há problema de imigração.

Mas o engraçado, em um lugar que pode parecer uma fantasia antigoverno levada ao extremo, é que as pessoas anseiam desesperadamente por todos os fardos do governo e pela tolerância à diversidade social dos quais os americanos reclamam.

Em um país no qual pertencer à tribo errada pode ser letal, os sul-sudaneses assistem com assombro a chegada do pessoal americano de ajuda humanitária, uma salada mista de negros e brancos, ásio-americanos e latinos, homens e mulheres. Esses americanos chegam com crenças de todo tipo: cristãos, judeus, muçulmanos, ateístas e outros. E apesar de às vezes entrarem em atrito, não saem decapitando uns aos outros.

Uma lição do Sudão do Sul é que governo e regulamentações são como oxigênio: você não os aprecia até não estarem lá.

Dois cientistas políticos, Jacob Hacker e Paul Pierson, argumentam que as realizações dos Estados Unidos se apoiam em uma fundação de serviços do governo, mas que os americanos sofrem da "amnésia americana" (que também será o título do livro, "American Amnesia", que lançarão neste mês) e não apreciamos isso.

"Dizem para nós que os Estados Unidos enriqueceram apesar do governo, quando a verdade está mais próxima do oposto", eles escrevem. Todo país que fez a jornada do analfabetismo em massa e pobreza para a modernidade e riqueza o conseguiu da mesma forma, eles notam, graças aos instrumentos do governo que agora são com frequência desprezados.

Esses instrumentos também criam um senso de identidade nacional que supera as identidades tribais, mesmo que esse processo ainda esteja incompleto nos Estados Unidos.

Eu me deparo com um grupo de mulheres e meninas sem-teto nos pântanos do Sudão do Sul, escondidas dos soldados que as matariam ou estuprariam. Uma adolescente estava vestindo uma camiseta velha jogada fora que dizia "Garota Obama", de modo que perguntei a ela se sabia quem era Barack Obama.

Ela ficou confusa; não há escolas funcionando na área, de modo que não sabia ler e nem sabia o que sua camisa dizia. Mas eu expliquei. Isso não ajudou, porque ele nunca ouviu falar de Obama. Eu perguntei às amigas dela se sabiam, e finalmente encontrei uma mulher que sim. Ela disse timidamente que Obama é o presidente dos Estados Unidos.

Essas mulheres e meninas são todas da tribo Nuer, visada com frequência pelo Exército do Sudão do Sul e que permanece em certo grau marginalizada no governo central. E a Nuer está relacionada à tribo Luo, que é a tribo do pai de Obama. Assim, na prática, um nuer não pode se tornar presidente do Sudão do Sul, mas alguém de ancestralidade semelhante pode se tornar presidente dos Estados Unidos.

Trata-se de uma inclusão que enriquece os Estados Unidos e que deveria ser fonte de orgulho. Mas Trump quebra essa unidade e nos divide por herança: ele nos transforma de americanos em um povo de muitas tribos.

Algo em que os americanos demonstram excelência é em nossas instituições. Temos escolas, leis, tribunais, polícia, reguladores, burocracias, redes de segurança, braços de um governo que com frequência é frustrante, mas sempre indispensável. Essas instituições são os pilares de nosso padrão de vida.

Do ponto de vista da zona de guerra sul-sudenesa, nosso maior desafio não é o Grande Governo ou a imigração, mas a ameaça a esses pilares por aqueles que calculam mal nossos pontos fortes e fracos nacionais.

É estranho que alguns candidatos conservadores sejam tão antigoverno quando um de seus precursores intelectuais foi Thomas Hobbes, o filósofo do século 17 que alertou de modo acertado que a vida no estado natural é "imunda, bruta e curta". Trump e Cruz fariam bem em recordar seu argumento:

Governo, leis e impostos são um fardo, de fato, mas também são a base para a civilização.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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