O país onde os soldados assustam mais que os crocodilos

Nicholas Kristof

Estado da Unidade (Sudão do Sul)

  • Jason Patinkin/AP

    Soldados do governo do Sudão do Sul na cidade de Koch, no Estado da Unidade

    Soldados do governo do Sudão do Sul na cidade de Koch, no Estado da Unidade

Aqui há cobras e víboras, crocodilos famintos e hipopótamos agressivos. Mas milhares de sudaneses do sul estão escondidos nestes pântanos porque têm ainda mais medo de seu próprio governo, que os EUA ajudaram a instalar.

"Quando os soldados vêm, entramos na água até o pescoço para nos esconder, só com os narizes para fora", disse-me uma aldeã desalojada, Nyakier Gatluak, depois que entrei pelos pântanos e rios para alcançar a ilha onde ela se abriga. Nyakier e outros pais reúnem as crianças e as mandam ficar caladas, na esperança de que se tornem invisíveis na água entre os juncos

Perguntei sobre os crocodilos, e Nyakier foi fatalista: "Mesmo que você morra na água, é melhor ser morto por cobras ou crocodilos do que pelos soldados".

Uma brutal guerra civil aqui no país mais novo do mundo levou as forças do governo a queimar aldeias, matar agricultores desarmados, castrar meninos, estuprar mulheres e meninas e saquear hospitais. Os rebeldes praticam comportamento semelhante. Trabalhadores de ajuda e jornalistas sofrem ataques. Homens armados invadiram um centro católico e estupraram uma freira americana de 67 anos.

Mais de 2 milhões de sudaneses do sul foram obrigados a fugir de suas casas, muitos deles para os pântanos perigosos, e as autoridades da ONU estimam que pelo menos 50 mil podem ter morrido nos últimos dois anos.

Todos os números são duvidosos, mas pode ser que haja o mesmo número de civis mortos na guerra do Sudão do Sul que na Síria (eu discuto os números em meu blog), e o aumento da fome poderá agravar a situação.

Mas o Sudão do Sul não recebeu a atenção diplomática ou da mídia que a crise merece. Houve zero de cobertura da guerra civil no Sudão do Sul nos noticiários noturnos na televisão americana nos dias de semana em 2015, segundo o Relatório Tyndall, que monitora a mídia.

Quando cheguei à ilha, Nyakier foi a primeira pessoa que vi. Ela me disse que fugiu de sua aldeia em maio passado, depois que soldados uniformizados do governo a atacaram, mataram a tiros algumas mulheres e crianças e estupraram sua irmã. Nyakier encontrou um lugar para se esconder nesta ilha, cujo nome e local não revelo por motivos óbvios.

Seu filho de 3 anos, Banyieny, adoeceu por esconder-se na água e morreu. Agora seu filho de 8 meses sofre de desnutrição aguda e também corre perigo. Ela o amamenta, mas não tem muito leite porque também está faminta; era o meio da tarde quando nos encontramos, e ela não tinha comido nada naquele dia.

Multiplique a tragédia desta família por milhões e você terá uma visão da catástrofe que abala o Sudão do Sul, que já é um dos países mais pobres do mundo. Mesmo antes que a guerra civil começasse, há dois anos, uma menina tinha maior probabilidade de crescer e morrer dando à luz do que de terminar o colégio.

Os EUA ajudaram o Sudão do Sul a conquistar a independência do Sudão em 2011 e foram seu principal apoiador. Espero que o presidente Barack Obama, que no passado demonstrou grande interesse pelo Sudão e o Sudão do Sul, aplique todas as alavancas diplomáticas e financeiras possíveis para conseguir que o acordo de paz assinado seja respeitado.

Jason Patinkin/AP
Criança deslocada mostra brinquedo de argila de soldado da ONU e arma em campo das Nações Unidas em Juba, no Sudão do Sul

Todos os lados nesta guerra civil se envolveram em atrocidades, e infelizmente ela assumiu uma dimensão étnica. Em uma pequena cidade- mercado, encontrei um menino de 6 anos da tribo nuer, Gaiy, brincando com armas incrivelmente realistas que ele tinha feito de barro, inclusive uma metralhadora em um tripé, com cinturão de munição.

Sua criatividade e habilidade me fizeram pensar que ele daria um ótimo engenheiro, mas Gaiy tinha outras ambições. "Quero ser soldado", explicou. "Quero matar dinkas", acrescentou, referindo-se aos membros de uma tribo rival que domina o governo.

Eu perguntei por que, e ele foi direto: "Porque eles vêm nos matar".

O que acontece é uma limpeza étnica que às vezes parece caminhar lentamente para o genocídio, e os que correm maior risco não são os combatentes, mas mulheres e crianças que já sofrem fome e doenças.

Em uma região remota, encontrei uma mãe chamada Yapuot Ninrew, que antes da guerra possuía 60 cabeças de gado e tinha uma vida decente. Alguns meses atrás os soldados do governo atacaram. Capturaram Yapuot e, embora ela estivesse grávida de cinco mese,s amarraram suas mãos atrás das costas e a penduraram pelo pescoço de uma viga na cabana.

Depois de um minuto, os soldados, rindo, a soltaram, mas queimaram sua casa e roubaram suas roupas, seu gado e tudo o que ela possuía. Também raptaram duas de suas irmãs como escravas sexuais; elas escaparam mais tarde.

Yapuot fugiu para os pântanos com seus cinco filhos. Passam o dia todo dentro da água até o pescoço e à noite se arrastam para as ilhas, para dormir. Dois de seus filhos, de 4 e 8 anos, se afogaram no pântano ao fugir de soldados, disse ela (outros aldeões confirmaram seu relato).

Tudo isto se desenrola em áreas remotas, sem testemunhas externas, sem uma reação global. As vítimas estão entre as que têm menos voz no planeta, um dos motivos pelos quais a matança continua.

Um novo relatório da ONU sugere que soldados afiliados ao governo puderam estuprar mulheres em vez de receber salários, e acrescenta que os abusos podem constituir crimes contra a humanidade.

"Esta é uma das mais horrendas situações de direitos humanos no mundo, com o uso maciço do estupro como instrumento de terror e arma de guerra, mas tem estado quase fora do radar internacional", disse Zeid Ra'ad al-Hussein, alto comissário para Direitos Humanos da ONU.

Grupos de ajuda estão trabalhando com heroísmo para ajudar, mas em um ambiente extremamente difícil e por um enorme preço: um trabalhador humanitário é morto aqui a cada duas semanas. A ONU disse que seu apelo humanitário para o Sudão do Sul só tem 3% das verbas necessárias, e alguns grupos de ajuda deverão sair do país este ano, conforme as necessidades aumentam.

Não há políticas ideais, mas seria bom ter um embargo de armas e sanções contra os ativos dos indivíduos dos dois lados da guerra civil: fazer os líderes pagarem pela intransigência, em vez de beneficiar-se dela.

"Tomem seus bens", aconselha John Pendergast, do Projeto Enough, um grupo antigenocídio. "A pressão financeira dolorosa contra os principais líderes dos dois lados terá impacto nos cálculos, mais que qualquer outra coisa."

A pressão internacional de alto nível contra o governo e os rebeldes para implementar seu acordo de paz seria útil. E também ajudaria se o público americano pedisse que as autoridades eleitas fizessem mais: o falecido senador Paul Simon disse certa vez que se cada membro do Congresso recebesse cartas de cem pessoas protestando contra o genocídio em Ruanda seria bastante para fazer Washington agir.

Obama foi franco sobre o genocídio de Darfur quando senador, pedindo que o presidente George W. Bush fizesse muito mais, e ele tem uma clara preocupação sobre as atrocidades em massa (fez um bom trabalho para tentar reduzir o risco de uma chacina em Burundi, e fez o mesmo na escalada para a independência do Sudão do Sul). Mas hoje seu governo pode e deve fazer mais.

Não podemos deter todas as atrocidades, e não tenho certeza sequer se poderemos conter esta, mas quando as pessoas são discriminadas por sua etnia e mortas, estupradas, mutiladas e mortas de fome, quando um governo que ajudamos a implantar é considerado pelos cidadãos como mais perigoso que crocodilos famintos, certamente podemos nos esforçar mais.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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