Em Washington, Trump oscila entre imagem de "campanha séria" e teatralidade

Ashley Parker e Maggie Haberman

Em Washington (EUA)

  • Jim Bourg/Reuters

    O republicano diante do Trump International Hotel, em Washington

    O republicano diante do Trump International Hotel, em Washington

Donald Trump veio à Pennsylvania Avenue na segunda-feira (21) e ofereceu um vislumbre circense, irrestrito, de como a capital do país poderá parecer caso ele seja bem-sucedido em sua campanha para ocupar aquela grande casa branca no Nº 1600 da rua. 

A passagem relâmpago por Washington, parte de seu esforço para demonstrar que está realizando uma campanha presidencial séria, o levou de um imponente escritório de advocacia até uma coletiva de imprensa em um hotel que está construindo aqui, antes de fazer um muito esperado discurso sobre políticas perante um grupo pró-Israel, tudo com a mistura característica do empresário de Manhattan de impetuosidade, diplomacia e teatralidade. 

Sua primeira parada foi no jornal "The Washington Post", para uma reunião do conselho editorial, onde apresentou cinco membros de sua equipe de política externa: Keith Kellogg, Carter Page, George Papadopoulos, Walid Phares e Joseph E. Schmitz. Com sua divulgação  prometida há meses por Trump, os nomes apresentados na segunda-feira já foram criticados no passado. Mas a equipe será liderada por Jeff Sessions, um membro do Comitê de Serviços Armados do Senado. 

Um inspetor-geral do Departamento de Defesa durante o governo George W. Bush, Schmitz disse após o anúncio que ainda não falou com Trump, mas que ele forneceu três memorandos de políticas para sua campanha.

Ele acrescentou que apesar de não concordar com tudo o que Trump diz sobre política externa, ele considera a moratória na entrada de muçulmanos no país uma boa ideia. Ele também disse acreditar que a tentativa de Trump de permanecer "neutro" quando lidar com israelenses e palestinos está sendo mal interpretada, já que disse isso simplesmente como uma estratégia de negociação. 

Schmitz renunciou ao seu posto no Departamento de Defesa em 2005, em meio a acusações de que tinha ajudado a bloquear as investigações de funcionários do governo. 

Page, um sócio-gerente da Global Energy Capital, e Phares, um professor da Academia Daniel Morgan cuja especialidade é defesa e segurança nacional, confirmaram que estavam orientando Trump, mas disseram que ainda não conversaram em detalhes com ele. Phares, que causou controvérsia quando foi apresentado como conselheiro de Mitt Romney na campanha presidencial de 2012, é criticado por grupos muçulmanos e prega abertamente o que considera a ameaça da lei shariah, interpretação radical do islamismo. 

O encontro no "The Washington Post" não foi totalmente um sucesso: a vice-diretora geral de opinião do jornal, Karen Attiah, disse pelo Twitter que Trump a assediou lá. Ela explicou posteriormente, em uma coluna, que ele respondeu a suas perguntas sobre políticas dizendo: "Espero ter respondido sua pergunta", e acrescentou, "linda". 

A parada seguinte de Trump foi um almoço privado com cerca de duas dúzias de legisladores e lobistas em um escritório de advocacia à sombra do Capitólio, um grupo que incluiu os senadores Sessions e Tom Cotton, de Arkansas; Jim DeMint, o ex-senador pela Carolina do Sul que agora é presidente da conservadora Fundação Heritage; Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara, e sua esposa, Callista; e um punhado de republicanos da Câmara que apoiam Trump. 

O deputado Chris Collins de Nova York, um apoiador de Trump que esteve presente no almoço, disse que o grupo discutiu a política de defesa nacional de Trump, e como unir o Partido Republicano em torno de sua candidatura. "Está óbvio que Trump será nosso indicado", disse Collins. "Agora precisamos voltar a luta para Hillary Clinton." 

Mas Trump parecia mais à vontade na coletiva de imprensa da tarde, no antigo prédio dos Correios na Pennsylvania Avenue, local que será em breve um hotel Trump cinco estrelas. 

Posicionado sobre uma grande claraboia e atrás de um atril que não mencionava a campanha de Trump, mas sim "Trump Hotels", ele dedicou os primeiros cinco minutos para enaltecer seu "prédio magnífico", completo com seu exterior "todo de granito", com 1 a 1,5 metro de espessura em alguns lugares. 

De fato, Trump até pareceu surpreso pela primeira pergunta de um repórter não ter sido sobre sua nova propriedade, mas a respeito do encontro com os legisladores. 

Mas durante sua coletiva de imprensa de cerca de 40 minutos, que pareceu tanto uma promoção de sua marca pessoal quanto uma tentativa de reafirmar seu domínio antes do discurso no início da noite perante o Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos, o grupo de lobby pró-Israel conhecido como Aipac (na sigla em inglês), Trump tratou de tudo, desde por que o Partido Republicano deve se unir em apoio a ele a até que tipo de ministros ele nomearia à Suprema Corte. 

"Uma terceira candidatura praticamente asseguraria a vitória dos democratas", disse Trump, que acrescentou que espera reunir o número necessário de delegados para obter de forma direta a indicação de seu partido. "Uma terceira candidatura destruiria o país." 

A certa altura Trump pareceu se enrolar ao responder à pergunta sobre como alocar dinheiro de ajuda aos países que ele sugeriu que podem se defender sozinhos, e se esse padrão se aplicaria a Israel. Ele posteriormente esclareceu que Israel é o aliado mais importante dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Ele também se esquivou da pergunta sobre se o Reino Unido deveria sair da União Europeia. Ele previu que provavelmente sairia, mas quando pressionado, disse que não queria dar sua opinião. 

Ao ser perguntado sobre os comentários feitos pelo Twitter pela senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, o criticando e o chamado de "perdedor", Trump contra-atacou: "A indígena? Está falando da indígena?" ele disse, referindo-se à controvérsia enfrentada por Warren durante sua campanha ao Senado em 2012, sobre se tinha ascendência nativo-americana, como já tinha alegado.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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