Acordo parece conter fluxo de migrantes, mas Grécia ainda enfrenta "esforço ladeira acima"

Jim Yardley e Liz Alderman

Em Mitilene (Grécia)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    Resgatistas recepcionam barcos cheios de refugiados que chegam à ilha de Lesbos, na Grécia

    Resgatistas recepcionam barcos cheios de refugiados que chegam à ilha de Lesbos, na Grécia

De pé no litoral sul da ilha de Lesbos, Molhim Zreiki espreitava com binóculos a outra margem do estreito no mar Egeu que separa a Grécia da Turquia. Nos últimos nove meses, centenas de milhares de refugiados cruzaram estas águas em botes e balsas de contrabandistas para alcançar a Europa.

Mas quantos botes chegaram a Lesbos na manhã de segunda-feira?

"Nenhum", disse Zreiki, um dos voluntários que patrulham as praias há meses para ajudar os refugiados a alcançar a terra.

A Guarda Costeira grega recolheu duas balsas perto de Lesbos no início da segunda-feira (21) e levou as 56 pessoas que estavam a bordo para a ilha, segundo a polícia local. Em comparação, em outubro 4.400 refugiados em média chegaram à ilha todos os dias.

Para a UE, o objetivo máximo do muito criticado acordo da semana passada com a Turquia é impedir o enorme fluxo de pessoas que chegam ao continente e romper os círculos de contrabando que visam a Grécia. Ao insistir que as pessoas que chegarem à Grécia serão deportadas de volta à Turquia, dizem as autoridades europeias, elas tentam dissuadir os sírios e outros migrantes de embarcar nos barcos dos contrabandistas, para começar. Esperam que, em vez disso, os sírios decidam ficar na Turquia e de lá pedir asilo na Europa.

Mas muitas autoridades e especialistas em migração advertem que a maioria dos migrantes está fugindo da guerra em países como Síria, Iraque e Afeganistão e simplesmente encontrarão outras rotas para a Europa, com a ajuda de contrabandistas em qualquer caso. A Itália já está se preparando para a probabilidade de um maior influxo de migrantes que cruzam o Mediterrâneo a partir da Líbia. Outros especialistas dizem que os refugiados poderão tentar entrar na Europa pelo leste ou outros lugares.

Mas pelo menos aqui em Lesbos, 48 horas depois que o acordo entrou em vigor, o número de refugiados que chegam parece ter diminuído, embora os números ainda estejam sendo tabulados. No domingo, mais de 1.500 novos migrantes chegaram às ilhas gregas, mas as primeiras contagens sugerem que o número pode ter caído algumas centenas na segunda-feira.

"Os números mostram uma redução significativa, mas ainda é cedo para tirar conclusões claras", disse Giorgos Kyritsis, porta-voz do governo para política migratória.

De fato, enquanto a situação no mar continuava incerta, na segunda-feira as autoridades gregas ainda eram confrontadas com a confusão generalizada sobre como o novo acordo para refugiados será administrado em terra.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Mulher é carregada por resgatista após barco com refugiados chegar à ilha de Lesbos

Pelo acordo, a Grécia deverá deter os refugiados que chegarem de barco e devolver muitos deles à Turquia. A UE então aceitará um certo número de refugiados sírios que estão em acampamentos na Turquia.

As autoridades gregas também devem abordar a situação de mais de 50 mil refugiados que estão isentos do novo acordo porque já se encontravam no país. Mas peneirar e ajudar essas pessoas criou desafios sem paralelo para o Estado grego, combalido após anos de crise econômica.

Os migrantes que já estão no país devem ser abrigados e alimentados por um período considerável, talvez anos, até que seu futuro seja definido. Muitos vivem hoje em cidades de barracas miseráveis --as mais infames em Idomeni, um cruzamento na fronteira da Macedônia-- e deverão ser levados para campos do governo. Na noite de segunda-feira, Yiannis Mouzalas, o vice-ministro da Migração do país, disse que Idomeni será esvaziado em um mês.

Ao mesmo tempo, o governo deve se preparar rapidamente para a chegada de novos refugiados às ilhas, já que a maioria dos especialistas prevê que o fluxo voltará a aumentar quando o clima se aquecer, apesar do acordo da última semana.

Mesmo com a ajuda de outros países europeus, o governo grego terá dificuldade para processar e deter os recém-chegados enquanto também monta um amplo sistema de deportações à Turquia que atenda ao escrutínio jurídico. As deportações estão marcadas para começar por volta de 4 de abril.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Refugiados do Paquistão jogam vôlei em campo perto de Moria, na Grécia

Em meio à incerteza, migrantes em todo o país buscavam respostas na segunda-feira. No porto de Pireu, próximo de Atenas, milhares de refugiados vagavam em confusão sobre seu futuro. Pireu hoje tem refugiados dormindo nas salas de espera de passageiros ou em tendas do lado de fora.

Sem centros de processamento ou de informação no local, havia muitos rumores, assim como ansiedade, entre os refugiados que esperam chegar à Alemanha.

"As pessoas me pedem informação sobre o que devem fazer", disse Yousif Karoija, 30, um farmacêutico de Alepo, na Síria, que está na Grécia há quase um mês. "Eu lhes digo que esperem uma ou duas semanas para ver o que acontece."

A mulher e a filha de Karoija morreram quando bombas atingiram sua casa em Alepo. Ele esperava chegar à Alemanha, mas agora pensa em pedir asilo na Grécia e buscar trabalho como farmacêutico ou tradutor para ajudar a assentar os migrantes. Fluente em inglês, e tendo aprendido um pouco de grego, Karoija disse que ainda não entendeu o que deve fazer para iniciar o processo de asilo.

"É incrível", disse. "Viemos de uma guerra e agora parece que estamos em outra."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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