Quem se torna um terrorista? Há poucas respostas

Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

Os irmãos que praticaram atentados suicidas com bombas em Bruxelas na semana passada tinham longas fichas criminais de violência e eram considerados potenciais terroristas internacionalmente. Mas um dos responsáveis pelo ataque em San Bernardino, na Califórnia, no ano passado, era um inspetor de saúde municipal que levava uma vida aparentemente normal em um subúrbio.

Também há dezenas de outros jovens americanos, homens e mulheres, que foram presos no último ano por tentarem ajudar o EI (Estado Islâmico). Suas origens são tão diversas que desafiam a tentativa de traçar um perfil único.

O que leva as pessoas para a violência --e se elas podem ser afastadas dela-- são questões que confundem governos em todo o mundo há gerações. Essas questões assumiram uma nova urgência com a ascensão do EI e a série de ataques na Europa e nos Estados Unidos. Apesar dos milhões de dólares aplicados em pesquisas patrocinadas pelo governo e de uma promessa muito divulgada pela Casa Branca de encontrar respostas, ainda não há nada próximo de um consenso sobre por que alguém se torna um terrorista.

"Depois de tanto financiamento e de uma enxurrada de publicações, a cada novo incidente terrorista percebemos que não estamos mais perto de responder a nossa pergunta original sobre o que leva as pessoas a recorrer à violência política", escreveu Marc Sageman, um psicólogo e antigo consultor do governo, na revista "Terrorism and Political Violence" (Terrorismo e Violência Política) em 2014. "As mesmas perguntas desgastadas são feitas repetidamente, e ainda não temos respostas convincentes".

Quando os pesquisadores encontram possíveis respostas, o governo muitas vezes as desconsidera. Pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo, o economista de Princeton Alan B. Krueger testou a teoria generalizada de que a pobreza é um fator chave na feitura de um terrorista. A análise feita por Krueger de números econômicos, pesquisas e dados sobre homens-bombas e grupos de ódio não encontrou ligação entre dificuldade econômica e terrorismo.

Mais de uma década depois, autoridades judiciais e grupos comunitários financiados pelo governo ainda consideram problemas financeiros um indicador de radicalização.

Quando o presidente Barack Obama anunciou planos para evitar o terrorismo doméstico, em 2011, os detalhes eram imprecisos, mas a promessa era clara. A Casa Branca forneceria sinais de advertência para ajudar pais e líderes comunitários.

"Serão as comunidades que reconhecerão o comportamento anormal", disse o então vice-assessor de Segurança Nacional, Denis McDonough. Como exemplo, ele citou a falta às aulas, que seria um indício de possível atividade de gangues. "A abstenção escolar também será um sinal de advertência precoce de extremismo violento", disse ele.

Mas os anos que se seguiram pouco fizeram para estreitar a lista de possíveis indicadores. Em vez disso, a ciência obscura parece implicar que quase qualquer pessoa é um potencial terrorista. Alguns estudos sugerem que os terroristas têm probabilidade de ser instruídos ou extrovertidos; outros dizem que os reclusos sem instrução correm risco. Muitos estudos parecem advertir sobre a condição dos adolescentes, destacando rapazes impacientes, com gosto pela aventura, que "lutam para alcançar um sentido de autorreconhecimento".

Tais generalizações são o motivo pelo qual os defensores das liberdades civis só veem perigo nas iniciativas do governo para identificar pessoas que apresentam risco de cometer crimes. Os pesquisadores também se dizem frustrados pelos governos Bush e Obama, porque houve uma preocupação com pesquisas que podem ser destiladas em simples listas de múltipla escolha, mesmo sob o risco de projetar suspeitas desnecessárias sobre pessoas inocentes.

"Eles querem ser capazes de fazer as coisas já", disse Clark R. McCauley Jr., professor de psicologia no Bryn Mawr College que realizou pesquisa sobre terrorismo financiada pelo governo durante anos. "Qualquer um que lhes ofereça alguma coisa já, como uma lista de características, receberá sua atenção", declarou.

"É algo impelido pela demanda", continuou. "As pessoas que usam armas e distintivos estão muito ansiosas para ter algo concreto. O fato de que possam na verdade causar mal não as desanima".

A Europa também está enfrentando essas questões, mas não há uma resposta clara. Hans Bonte, prefeito da cidade belga de Vilvoorde, participou de uma cúpula na Casa Branca sobre radicalização no ano passado e descreveu esforços para conter a maré constante de jovens revoltados que partem para se unir ao Estado Islâmico.

No Reino Unido, o governo incentiva ou exige que as pessoas alertem as autoridades sobre pessoas que podem apresentar risco. Isto provocou um debate no exterior e levantou questões nos Estados Unidos sobre se a Constituição permitiria que o governo observasse a legalidade do discurso político ou religioso.

"Eu compreendo, do ponto de vista americano, que isso pode ser perturbador", disse Lorenzo Vidino, diretor do programa sobre extremismo no Centro para Segurança Cibernética e Interna na Universidade George Washington. "Mas o modelo europeu, para a maioria dos países, é intervir cedo, assim que se vê o primeiro sinal de extremismo."

Pesquisar o terrorismo é reconhecidamente difícil. Envolve perguntas duras sobre quem se classifica como terrorista, ou como rebelde ou como soldado. Nelson Mandela? Os homens-bombas palestinos? Os talibãs de hoje? Os mujahidin afegãos quando a CIA os apoiou?

Os pesquisadores raramente têm acesso aos terroristas, e métodos científicos, como grupos de controle, são raros. Em 2005, Jeff Victoroff, um psicólogo da Universidade do Sul da Califórnia, concluiu que as principais pesquisas sobre terrorismo eram basicamente apenas teoria política e fatos isolados. "Uma falta de investigação acadêmica sistemática deixou aos políticos a criação de estratégias de contraterrorismo sem o benefício dos fatos", escreveu ele em "The Journal of Conflict Resolution".

Quando o governo dá conselhos sobre o que se deve procurar, muitas vezes a origem dessa informação é impossível de localizar. Um relatório do Centro Nacional de Contraterrorismo de 2012, por exemplo, declarou que a ansiedade, as necessidades pessoais insatisfeitas, a frustração e o trauma ajudaram a aumentar a radicalização. "Nem todos os indivíduos que se tornam radicais têm necessidades não realizadas, mas os que as têm são mais vulneráveis à radicalização", disse o documento, sem citar fontes.

Em Montgomery, no Estado de Maryland, subúrbio de Washington, uma organização ecumênica liderada por muçulmanos chamada Worde pensa ter encontrado a solução. Os organizadores deram às famílias e aos líderes religiosos listas de sinais de advertência: depressão, trauma, dificuldades econômicas e queixas políticas. Qualquer pessoa que identificar esses sinais pode ligar para a Worde, que fornecerá aconselhamento de saúde mental ou religioso.

A polícia só se envolve quando há uma ameaça de perigo iminente, contou Hedieh Mirahmadi, a presidente do grupo. Idealmente, segundo ela, as pessoas recebem ajuda sem ser estigmatizadas ou colocadas em listas de suspeitos do governo.

O programa não foi testado; um estudo quase concluído sobre sua eficácia lhe dá notas altas pela formação de relações comunitárias, mas não avalia se o grupo reduz a violência extremista. E embora Mirahmadi diga que "ninguém discordaria" de seus sinais de advertência os pesquisadores estão muito menos certos de que sejam indicadores de potencial radicalização. Mas o governo Obama acredita que a Worde pode ser um modelo e lhe concedeu verbas de US$ 500 mil (cerca de R$ 1,8 milhão).

Faiza Patel, uma advogada do Centro Brennan para Justiça, continua cética. A Worde não publicou seus protocolos de intervenção, nem seu método para avaliar coisas como discórdias políticas. Mirahmadi disse que tais instrumentos seriam facilmente mal interpretados.

Mas é um início, disse Patel. Segundo ela, seu grupo já teria aconselhado cerca de 20 pessoas, oferecendo uma ajuda que não há em outro lugar. Se alguma dessas pessoas teria se tornado violenta é impossível saber, afirmou.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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