Opinião: A nova desordem mundial de Donald Trump

Roger Cohen

  • Jim Bourg/Reuters

    21.mar.2016 - Donald Trump discursa em frente ao Trump International Hotel, da sua rede de empreendimentos, em obras, durante campanha como pré-candidato presidencial

    21.mar.2016 - Donald Trump discursa em frente ao Trump International Hotel, da sua rede de empreendimentos, em obras, durante campanha como pré-candidato presidencial

Adeus a tudo isso. Agora sabemos que Donald Trump rasgaria a ordem mundial pós-1945, jogaria no lixo uma Otan "obsoleta", preferiria um Japão nuclear a um "acordo unilateral" que deixa os Estados Unidos responsáveis pela defesa japonesa, diz à Arábia Saudita que "não vai durar muito" sem a proteção norte-americana e de modo geral deixa claro que "não podemos ser o policial do mundo".

Esqueça a "Pax Americana", foi um mau negócio, você sabe, e no universo de Trump o negócio é tudo. O poderio norte-americano e suas longínquas guarnições militares podem ter garantido a segurança global e evitado a guerra nuclear por mais de sete décadas, mas não podem ser sustentados pelo "país pobre" que os EUA se tornaram. Por quê? Porque, insiste ele, todo o esquema do pós-guerra é um trambique.

Que Trump poderá ser o próximo presidente dos EUA não é mais uma ideia fantasiosa. Os norte-americanos não querem que as coisas continuem como estão; Trump não é uma continuação. Ele está xingando e batendo boca a caminho da Casa Branca como o homem que, por meio de alguma alquimia, fará uma América ansiosa sentir-se novamente orgulhosa. O mundo, já mais combustível do que em qualquer momento das últimas décadas, pode estar prestes a se tornar um lugar muito mais perigoso.

Em entrevistas a meus colegas Maggie Haberman e David Sanger, Trump disse: "Fomos desrespeitados, caçoados e roubados durante muitos, muitos anos por pessoas que eram mais inteligentes, mais espertas, mais duras. Nós éramos o grande prepotente, mas não éramos liderados com inteligência". Os EUA foram "sistematicamente roubados por todo mundo. Da China ao Japão à Coreia do Sul e ao Oriente Médio, muitos Estados do Oriente Médio, por exemplo, protegendo a Arábia Saudita e não sendo adequadamente reembolsados por cada centavo que gastamos".

Resumo da política externa de Trump: "Não seremos mais roubados" porque "não temos dinheiro nenhum". Ele gostaria de ver os EUA "realmente começando a ficarem robustos", como ocorreu por volta de 1900.

Muito do que Trump disse estava simplesmente errado. Ele declarou ser "totalmente a favor da Ucrânia, tenho amigos que vivem na Ucrânia", mas esses amigos não parecem ter explicado o que está acontecendo. Ele está irritado porque países como a Alemanha "não pareciam muito envolvidos" quando a Rússia ficou "muito confrontadora" (aliás, anexou a Crimeia e começou uma guerra no leste da Ucrânia), e por isso o fardo coube aos EUA.

Na verdade, a Alemanha assumiu um papel central ao orquestrar as sanções contra a Rússia e, ao contrário dos EUA, está na mesa no processo de paz de Minsk para a Ucrânia. Talvez não seja surpreendente que Trump despreze o papel da Alemanha por acreditar que o país mais poderoso da Europa está "sendo destruído" pelo "crime tremendo" (supostamente por parte dos não mencionados refugiados muçulmanos) e pela "ingenuidade ou pior" da chanceler Angela Merkel (supostamente por deixar os refugiados sírios entrarem). Ele também acredita que os EUA são "obsoletos em ciber", visão que o Irã não compartilharia, e que "nosso país não tem dinheiro" (ele tem um pouco).

Mas que Trump e os fatos são parceiros intranquilos já é bem conhecido. O que não estava tão visível antes dessas entrevistas é como um presidente Trump seria radical ao desmontar a arquitetura da estabilidade do pós-guerra. A menos, é claro, que mudasse de ideia para demonstrar a imprevisibilidade que ele aprecia.

É perigosamente louco dizer que a Otan é obsoleta, opinião que Moscou vem forçando desde o fim da Guerra Fria como meio de tirar os EUA da Europa, em uma época em que o presidente Vladimir Putin está determinado a afirmar o poderio russo. Pergunte aos países bálticos que foram poupados da agressão de Putin só porque agora são membros da Otan. A Otan ainda é o pilar da cooperação transatlântica que forjou uma Europa unida e livre das ruínas e divisões de 1945.

Apoiar um Japão nuclear em um momento em que a rápida ascensão e os desígnios da China no mar da China Oriental aguçaram as tensões entre os dois países também é um jogo de alto risco. A presença dos EUA como uma potência asiática que contrabalança a ascensão da China e tranquiliza os países menores do hemisfério é um dos principais motivos pelos quais essa ascensão foi pacífica.

Quanto à desintegração da Arábia Saudita, que Trump parece disposto a aceitar se os sauditas não colaborarem financeira e militarmente, isso poderá fazer a Síria parecer um recreio.

Trump está certo sobre uma coisa. O mundo em 2016 não é o de 1945 ou o de 1990. Os EUA estão relativamente mais fracos, o poder está mudando de lugar, há prioridades internas prementes. Mas sua versão da "América primeiro", que, interessantemente, converge com as opiniões de muitos na esquerda que estão convencidos de que os EUA deveriam parar de policiar o mundo, parece uma receita para um cataclismo.

A guerra na Estônia ou no mar da China Oriental poderia acabar sendo um negócio muito ruim, na verdade, uma verdadeira roubada para toda a humanidade.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos