Na fronteira entre Coreia do Norte e China, comércio ilegal dribla sanções e floresce

Jane Perlez e Yufan Huang

Em Dandong (China)

  • AFP

    Guarda de fronteira patrulha ponte do rio Yalu, fronteiriço da China com a Coreia do Norte, na cidade chinesa de Dandong

    Guarda de fronteira patrulha ponte do rio Yalu, fronteiriço da China com a Coreia do Norte, na cidade chinesa de Dandong

Antes de dirigir seu velho táxi até a Coreia do Norte, Qin faz duas coisas: prepara uma propina, às vezes tão simples quanto algumas maçãs ou bananas, outras de até US$ 200 (R$ 717), e corta os fios do rádio do carro.

"Eles sempre nos mandam cortar os fios para que os norte-coreanos não possam ouvir programas chineses", explicou.

Então, como faz em muitas manhãs, ele dirige o veículo por uma ponte de ferro de pista única que cruza a fronteira, onde há uma demanda constante por táxis de segunda mão.

Quando a ONU aprovou sanções mais duras contra a Coreia do Norte neste mês, para puni-la por seu programa de armas nucleares, ficou entendido que elas teriam pouco efeito sem uma forte cooperação da China, o maior parceiro comercial da Coreia do Norte.

Se o comércio recente aqui servir de indício, essa cooperação tem sido no máximo irregular.

O comércio entre as fronteiras, legal e ilegal, flui como sempre e não parece ser afetado pelas novas regras, segundo comerciantes e autoridades locais.

Um dos componentes mais duros, a exigência de que os países inspecionem toda a carga que entra ou sai da Coreia do Norte em busca de bens proibidos, não é aplicada aqui.

Em muitos dias, os táxis de segunda mão de Qin cruzam a ponte em um comboio de mais de cem veículos, incluindo caminhões carregados de caixas embrulhadas em velhas lonas e miniônibus de segunda mão para o precário sistema de transporte da Coreia do Norte. Poucos são inspecionados pelas autoridades chinesas.

A China responde por cerca de 90% do comércio da Coreia do Norte. A metade desse volume, segundo estimativas, passaria por Dandong, uma cidade pujante, cujas fortunas estão ligadas ao comércio com a Coreia do Norte.

Virtualmente tudo o que mantém a economia norte-coreana passa por aqui: carvão e minério de ferro entram, violando as sanções, e o petróleo cru flui para fora, isento delas.

O contrabando é generalizado. A exportação de minérios de terras-raras e ouro pela Coreia do Norte, proibida pelo novo regulamento, é uma das fontes de renda mais lucrativas para o governo coreano, segundo negociantes. Esse negócio continua em navios de propriedade particular de mais de 200 toneladas pertencentes a contrabandistas chineses baseados aqui, disseram eles.

As regras da ONU colocam sobre os inspetores de alfândega daqui o ônus de julgar quais bens podem ajudar o programa nuclear ou os militares, quais são proibidos e quais se destinam a civis, que são permitidos.

Wang Zhao/AFP
Grupo de militares norte-coreanos cruzam o rio Yalu na cidade de Sinuiju, na Coreia do Norte, em frente à cidade chinesa de Dandong

Alguns dias atrás, o posto de verificação da alfândega, um grande estacionamento ao ar livre vizinho à ponte, exibia uma coleção de refugos da China: veículos de passageiros baratos Haval, remédios com desconto para hepatite e tuberculose, antigos painéis solares para iluminar casas escuras.

Mas a alfândega daqui não tem pessoal para abrir todos os contêineres, segundo uma autoridade local. Como a maioria das pessoas entrevistadas para esta reportagem, ele falou sob a condição do anonimato, já que é arriscado falar com a mídia estrangeira sobre o comércio com a Coreia do Norte.

Nos momentos de pico, até 200 caminhões por dia cruzam o rio Yalu até Sinuiju, na Coreia do Norte. Antes de partir, somente cerca de 5% dos volumes que carregam são inspecionados, disseram as autoridades.

A China e os EUA trabalharam estreitamente sobre as novas sanções, e os dois países disseram que livrar a Coreia do Norte de armas nucleares é uma preocupação comum. 

Mas se a China está desesperada com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, preocupa-se ainda mais com a instabilidade política e a possibilidade de que a privação econômica leve milhões de norte-coreanos a fugir para a China.

Por isso Pequim insistiu em uma isenção que estipula que a "subsistência" dos norte-coreanos não deve sofrer, uma brecha que, segundo especialistas em sanções, é grande o suficiente para se passar uma carreta com 18 rodas.

Essa isenção deixou aberto o oleoduto de Dandong à Coreia do Norte, mas parece ter sido aplicada a uma ampla variedade de mercadorias.

Há, entretanto, evidências de policiamento em uma área importante: a venda pela Coreia do Norte de carvão e minério de ferro, duas de suas exportações mais importantes.

As autoridades portuárias daqui têm sido muito vigilantes ao aplicar a nova proibição à precária frota da Coreia do Norte, de mais de duas dúzias de cargueiros, segundo duas autoridades locais. O carvão que eles transportam rende à Coreia do Norte até US$ 1 bilhão por ano, segundo o Tesouro dos EUA.

Mas essa proibição foi contornada por navios contrabandistas e pela transferência da propriedade de 12 navios norte-coreanos a chineses, permitindo que eles atraquem em portos chineses e outros, segundo um antigo negociante, Yu.

Alguns dos negociantes entrevistados aqui disseram que as novas regras prejudicaram seus negócios.

Zhang, um corretor que ganha dezenas de milhões de dólares por ano em negócios com a Coreia do Norte, disse que as autoridades alfandegárias acabam de apreender uma grande escavadeira de segunda mão que ele trouxe de uma mina de carvão na província de Shanxi e vendeu a uma mina norte-coreana por mais de US$ 60 mil (cerca de R$ 215 mil).

Inspetores da alfândega perguntaram como ele sabia que o equipamento não seria transferido para os militares norte-coreanos. "Não soubemos responder", disse ele.

Mas negociantes e autoridades esperam que depois de um certo arrocho inicial o policiamento será relaxado. A província de Liaoning, da qual Dandong é uma cidade importante, ficou no final da lista de 31 províncias chinesas em crescimento econômico no ano passado, e houve pressão política para não enfraquecer ainda mais a economia.

"Sempre que há provocações, os negociantes dizem que as autoridades exigem a aplicação da lei, e alguns meses depois não há uma implementação sistemática", disse Andrea Berger, um especialista em proliferação no Instituto Real de Serviços Unidos, em Londres.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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