Diocese da Pensilvânia confronta antigos casos de abuso sexual

Laurie Goodstein

Em Loretto, Pensilvânia (EUA)

  • Nicole Bengiveno/The New York Times

    Maureen Powers, que diz ter sido abusada sexualmente por um padre quando era criança, em Loretto, na Pensilvânia (EUA)

    Maureen Powers, que diz ter sido abusada sexualmente por um padre quando era criança, em Loretto, na Pensilvânia (EUA)

Aos 12 anos, Maureen Powers, filha de um professor da universidade católica local, tocava órgão na magnífica basílica no alto de um monte e era voluntária no escritório da paróquia. Mas ela escondia um segredo. Segundo contou agora, um padre abusou sexualmente dela durante dois anos, dizendo-lhe que era com o objetivo de "pesquisa".

Em seus anos de colégio, Powers ficou tão confusa com sentimentos de traição e vergonha que confiou em uma série de padres. Ela contou que o primeiro tentou se aproveitar dela, o segundo sugeriu que se reconfortasse comendo uma barra de chocolate por dia e o terceiro lhe disse para procurar um psicólogo. Nenhum deles relatou o abuso às autoridades ou mencionou que ela poderia dar esse passo.

Assim, quando um júri revelou em um relatório em março que a diocese de Altoona-Johnstown, que inclui Loretto, participou de uma extensa ocultação de abusos praticados por até 50 autoridades da igreja, Powers, hoje com 67 anos, finalmente decidiu relatar seu caso. Ela procurou a Secretaria de Justiça do Estado e contou sua história, incluindo o nome de seu agressor, um importante sacerdote que não estava listado no relatório do júri.

"Eu senti que agora alguém acreditaria em mim", disse Powers, que se aposentou após 30 anos em cargos de liderança na Associação Cristã de Moças em Lancaster, Pensilvânia.

Ela não foi a única. Powers estava entre mais de 250 sobreviventes de abusos e informantes que ligaram para uma linha direta oferecida pela secretária de Justiça da Pensilvânia, Kathleen G. Kane.

Vinte agentes foram necessários para atender aos telefones, e foi criado um serviço de mensagens de voz para receber o fluxo excedente.

Quase 15 anos depois que Boston enfrentou um escândalo de abuso clerical, dramatizado recentemente no filme "Spotlight", a Pensilvânia passa por seu doloroso acerto de contas.

Do Capitólio estadual em Harrisburg a cozinhas em cidades à beira da ferrovia, as pessoas dizem ter-se surpreendido ao saber das evidências de que padres que conheceram como pastores, professores e confessores abusavam secretamente de crianças --conclusões que o júri chamou no relatório de "chocantes e assustadoras".

As vítimas se apresentam pela primeira vez a suas famílias e amigos, e ex-alunos de escolas paroquiais estão revendo seus anuários escolares, surpresos de que aqueles rostos sorridentes escondessem tanta dor.

Para multiplicar a indignação, o relatório do júri ofereceu evidências de que a polícia, promotores distritais e juízes na área de Altoona e Johnstown foram coniventes com os bispos na ocultação dos fatos, arquivando queixas de pais que tentaram dar o alarme sobre padres que abusavam sexualmente de crianças. Algumas dessas autoridades são citadas no relatório e umas poucas ainda ocupam cargos públicos.

"Realmente eu entendi tudo quando percebi que essas vítimas são meus amigos, meus colegas de classe", disse o deputado estadual Frank Burns (democrata), cujo distrito inclui parte de Johnstown e que frequentou o Colégio Bispo McCort, onde o júri descobriu que o abuso era generalizado.

"Nossa região é devastada por drogas, suicídio, alcoolismo, e então você se pergunta: esse abuso está ligado a tudo isso?"

Nicole Bengiveno/The New York Times
A igreja católica São Miguel Arcanjo, em Loreto, Pensilvânia (EUA)

No entanto, na capital do Estado, pedidos pela divulgação completa e responsabilização dos culpados de repente ganharam novo ímpeto.

O deputado Mike Vereb (republicano), ex-policial na área de Filadélfia, escreveu uma carta recentemente ao secretário da Justiça dos EUA para o Distrito Ocidental da Pensilvânia, pedindo uma investigação sob a Lei de Organizações Corruptas e Influenciadas por Contraventores, conhecida pela sigla em inglês, Rico.

"Essa falha foi colossal. Não era nada menos que crime organizado", disse Vereb em uma entrevista em seu escritório, onde ele mantém seu antigo cassetete sobre a mesa. "Se você fosse uma vítima, não haveria chance de obter justiça."

Uma série de negociações começou sobre projetos de lei que estavam parados há anos para ampliar o estatuto de limitações --que impõe prazos para que as vítimas movam processos ou os promotores façam denúncias-- para casos cíveis e criminais de abuso sexual infantil.

As vítimas e seus advogados há muito afirmam que, assim como não há estatuto de limitações sobre assassinato, não deveria haver sobre abuso sexual de crianças.

O legislador que lidera o movimento para ampliar o estatuto de limitações é o deputado estadual democrata Mark Rozzi, de Berks County. Ainda jovial aos 44 anos, ele é acossado por memórias de ser estuprado por um padre na escola secundária --padre que, como ele soube mais tarde, também abusou de alguns de seus amigos.

Ele disse que decidiu disputar a eleição em 2013 depois que o segundo desses amigos cometeu suicídio. Na Sexta-feira Santa do ano passado, um terceiro amigo também tirou a própria vida.

"Se eu tivesse me manifestado quando tinha 13 ou 14 anos, provavelmente poderia ter salvo muitos de meus amigos. Senti-me muito culpado", disse Rozzi. "Vim aqui para fazer isso."

Nicole Bengiveno/The New York Times
O representante estadual Mark Rozzi (esq), democrata do condado de Berks e ele próprio vítima de abuso quando criança, se encontra com o governador Tom Wolf, em Harrisburg, Pensilvânia

Ele só falou sobre seu abuso quando tinha 39 anos, e desde então não parou. Disputou o cargo com uma campanha para modificar o estatuto de limitações. As vítimas de abuso sexual na Pensilvânia podem mover processos cíveis até completarem 30 anos, e criminais até os 50.

Mas Rozzi disse que pode demorar ainda mais para que as vítimas de abuso se pronunciem. Vergonha, indecisão, medo e negação são fatores que podem inibi-las de se manifestar, por isso Rozzi e seus aliados estão pressionando pela aprovação de várias leis que abordam esse problema.

Uma delas, que deveria ser votada na Comissão de Justiça da Câmara na terça-feira (5), removeria todos os limites de tempo para mover processos cíveis ou criminais relacionados a abuso sexual infantil --mas isso se aplicaria somente às pessoas vitimadas depois a aprovação da lei.

Rozzi também quer aprovar uma "janela" temporária, em que os adultos vitimados anos atrás possam mover ações independentemente de quanto tempo tenha se passado desde o abuso. Outros Estados aprovaram leis de janela semelhantes, incluindo Califórnia, Delaware, Geórgia, Havaí e Minnesota.

Essas leis de janela podem deixar a igreja e outras instituições abertas a legiões de processos. Lobistas da Conferência Católica da Pensilvânia e da indústria de seguros pressionaram os deputados a manter a situação atual, e estavam trabalhando nos corredores do Capitólio na semana passada.

Amy B. Hill, porta-voz da Conferência Católica da Pensilvânia, argumentou contra qualquer mudança no estatuto de limitações, dizendo: "Com o tempo, a memória das testemunhas se torna inconfiável, evidências se perdem ou não são encontradas, e em muitos casos os perpetradores ou as testemunhas podem estar mortos."

A secretária de Justiça da Pensilvânia, Kane, disse que seu trabalho está longe de terminado e que ela examina denúncias em outra diocese. Em Harrisburg, o vice-secretário de Justiça que chefiou a investigação da diocese de Altoona-Johnstown, Daniel J. Dye, enfrentou recentemente uma pilha de 10 cm de papéis. Eram as anotações feitas por agentes de todos os telefonemas de denúncias.

A entrevista de Powers estava entre elas.

"Não estamos aqui só para anotar informações e depois jogá-las em um arquivo", disse Dye. "Se algo nesta pilha trouxer informações para produzir denúncias, faremos isso."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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