A última esperança de um condenado a prisão perpétua nos EUA (que se concretizou)

Dan Berry

  • The New York Times

Aquela quarta-feira era mais uma das mais indistintas no presídio federal de Greenville, no sul de Illinois. Um preso chamado Jesse Webster, cumprindo pena de prisão perpétua sem liberdade condicional por um primeiro crime não-violento, realizaria um teste de digitação, com seus dedos pairando sobre o teclado, quando de repente foi chamado pelo sistema de comunicação.

Apresente-se imediatamente à sala do diretor assistente.

Há muito tempo um preso modelo, Webster sabia que não estava em apuros, de modo que o chamado talvez fosse aquele pelo qual estava sonhando há anos. Entretanto, da última vez que foi chamado à sala, a autoridade carcerária apenas o parabenizou por ele ter tido o privilégio de selecionar os produtos natalinos que seriam vendidos no refeitório. Ele escolheu queijo defumado e batata chip sabor churrasco, e manteve sua enorme decepção para si mesmo.

Mas desta vez as coisas foram diferentes. Logo sua advogada, Jessica Ring Amunson, estava no viva-voz. Ela até pensou em fazer uma piada sobre o refeitório, mas achou melhor não.

"Tenho notícias maravilhosas, Jesse", disse Amunson. "Sua pena foi comutada."

Webster disse posteriormente que não sabia como responder. Ele esperou por tanto tempo por aquele momento, mas naquele instante, só conseguiu dizer "Uau".

Seus planos agora, ele disse, são distribuir seus pertences aos outros presos, doar sua coleção de livros de direito para a biblioteca da prisão e pensar em seu futuro.

"Conseguir um emprego", ele disse. "Ter uma vida."

Webster, que apareceu em um artigo do "The New York Times" em dezembro de 2013, foi um dos 61 presos federais, cumprindo penas por crimes ligados a drogas, cujas sentenças foram comutadas pelo presidente Barack Obama na quarta-feira. Foi a mais recente tentativa do presidente de usar o poder de seu cargo para reduzir as penas particularmente duras dadas a milhares de homens jovens, a maioria deles negra ou latina, em consequência de leis austeras aprovadas durante a guerra às drogas de uma geração atrás.

E Webster, atualmente com 48 anos, era de muitas formas um caso típico.

Ele cresceu no sul de Chicago, um de sete filhos que dependiam do salário do padrasto como atendente de um estacionamento. Um sujeito despachado por natureza, Webster ascendeu no mundo das drogas ilícitas, fazendo nome e ganhando muito dinheiro como vendedor freelancer de cocaína. Mas quando soube em 1995 que as autoridades estavam à sua procura, ele se entregou.

Recusando uma oferta de leniência caso se tornasse um informante confidencial contra uma gangue impiedosa do narcotráfico, que já tinha matado um informante, ele foi condenado por participar de uma conspiração de drogas e por fraudar declarações de imposto de renda. Ele foi condenado a prisão perpétua sem direito a liberdade condicional, uma punição que até mesmo o juiz que proferiu a sentença considerou "pesada demais".

Mas os juízes federais tinham pouca liberdade em meados dos anos 90, quando a ênfase na justiça criminal era em penas compulsórias. O senso de proporção, de uma punição à altura do crime, foi perdido.

Webster passou 16 anos em presídios de segurança máxima, incluindo Leavenworth, antes de conseguir uma transferência para Greenville, um presídio de segurança média, em 2011. Ele dedicava seus dias a exercícios físicos, fazer cursos, dar aulas e ler a Bíblia. Ele manteve contato com sua família, incluindo sua mãe, cuja foto ele colou acima de sua cama, no estrado superior do seu beliche.

Webster também continuou lutando pela redução de sua pena. No início de 2013, sua advogada, Amunson, enviou os documentos relacionados ao caso dele ao Gabinete do Advogado de Indulto do Departamento de Justiça. O pacote incluía as várias cartas de apelo por clemência, assim como uma carta de Webster endereçada ao próprio Obama, que dizia em parte que o presidente era sua "última esperança".

Mais de dois anos se passaram. Então veio o chamado para o comparecimento de Webster na sala do diretor assistente, onde Amunson contou ao seu cliente que sua pena foi comutada e expiraria no final de setembro, apesar de que a expectativa é de que ele seja transferido para uma casa de recuperação em Chicago antes disso, e que a multa de US$ 25 mil foi perdoada.

"Uau."

De fato, disse Amunson, Webster ligou para ela mais tarde naquele dia para se certificar de que o que ouviu estava certo. Ele também ligou para a casa de sua mãe em Chicago e pediu para ser colocado no viva-voz.

"Ei", ele recordou de ter dito. "Adivinhem?"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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