Documentário ganha novas cenas a cada massacre registrado nos EUA

Mekado Murphy

  • San Bernardino County Sheriffs Department/Reuters

    Armas usadas no ataque de San Bernardino foram confiscadas pela polícia

    Armas usadas no ataque de San Bernardino foram confiscadas pela polícia

Um novo filme sobre a violência armada tem um conceito simples e um tempo de projeção reduzido, mas seus realizadores pretendem que não seja nada menos que um documento vivo sobre o ciclo de violência.

Chamado "Speaking Is Difficult" (Falar é difícil, em tradução livre), o filme combina filmagens recentes de locais onde ocorreram chacinas --alguns parecem banais, outros refletem claramente os terríveis acontecimentos-- com áudio dos telefonemas feitos na época ao número de emergência (911 nos EUA).

O filme começa com os tiroteios em San Bernardino, Califórnia, em dezembro de 2015, e segue recuando no tempo por 24 outros incidentes nos EUA até o ataque de janeiro de 2011 em Tucson, Arizona, no qual a ex-deputada Gabrielle Giffords estava entre os 13 feridos. Outras seis pessoas morreram. Tecnicamente, o filme termina com um pleito feito por Giffords --do qual tira seu título-- à Comissão Judicial do Senado, em uma audiência sobre a violência das armas depois que seus ferimentos dificultaram muito sua capacidade de falar.

Mas o filme é na verdade uma contínua obra em progresso, com pouco menos de 15 minutos hoje. Seu diretor, o veterano documentarista A. J. Schnack ( de "Kurt Cobain About a Son", "Convention"), pretende acrescentar cenas e áudio do 911 depois de futuros assassinatos em massa. Segundo um exame feito por "The New York Times" em dezembro, houve uma chacina --definida como um ataque que deixa quatro ou mais pessoas feridas ou mortas-- por dia em média nos EUA em 2015.

O objetivo é "pelo menos lembrar às pessoas que isso não é normal", disse Schnack em uma entrevista por telefone. "E não é suficiente só ficar horrorizado ou preocupado com isso. Você tem de realmente se envolver."

Ele acrescentou: "O título 'Falar É Difícil' tem um certo duplo sentido. Refere-se ao discurso no final do filme, mas também ao fato de que nossa capacidade de ter um diálogo nacional tem sido não apenas difícil, mas quase impossível".

A proposta ganhou forma primeiramente depois do tiroteio no Colégio Comunitário Umpqua, no Oregon, em outubro.

"Uma coisa que eu percebi foi a reação nas redes sociais, e como era um eco da reação a todos os outros casos recentes de assassinatos em massa", disse Schnack. "Parecia que entrávamos em um padrão de horror, depois indignação, depois acusação e afinal nos resignávamos a 'É assim que as coisas são'. E ficamos adormecidos, sem pensar nessas coisas, até que acontecem de novo. Esse ciclo de reação me fez pensar em fazer um filme em que os próprios acontecimentos se tornam esse eco incessante uns dos outros."

O curta foi lançado online na terça-feira (12) como parte de Field of Vision, uma série de documentários de curta metragem que abordam histórias do noticiário de pontos de vista inusitados. (Schnack ajudou a criar a série juntamente com Laura Poitras e Charlotte Cook.)

O filme estreou no Festival de Cinema Sundance este ano, com vários outros filmes que enfocam a violência armada. Eles incluem um drama inspirado pelas mortes no cinema em Aurora, Colorado, um documentário sobre o efeito das mortes no tiroteio na Escola Elementar Sandy Hook e outro que examina a incapacidade dos legisladores de deter o ciclo de violência.

O diretor e acadêmico Robert Greene, que em sua função de cineasta-chefe da Universidade de Missouri ensina caminhos alternativos de narrativa, disse que a abordagem de Schnack "pega um assunto do noticiário sobre o qual nos tornamos estranhamente ambivalentes e o torna urgente de uma nova maneira". (Greene supervisionou os estudantes que fizeram outro filme da "Field of Vision", "Concerned Student 1950", sobre os protestos na Universidade do Missouri.)

"Às vezes eu digo a meus alunos: vejam as melhores ideias de que outras pessoas fizeram alguma versão e vocês encontrarão o jeito perfeito de executá-la", disse ele. "Eu acho que isto foi assim. A ideia do som dissociado da paisagem é antiga, mas este é um uso incrivelmente eficaz dela."

"Speaking Is Difficult" tem uma natureza intencionalmente repetitiva que foi em parte inspirada, por estranho que pareça, no site satírico de notícias The Onion, que republica uma reportagem com o mesmo título para cada assassinato em massa: "'Não há como evitar isto', diz o único país onde isto acontece regularmente".

O filme também tem um estilo visual distinto. Cada segmento inclui fotos estáticas do local, juntamente com uma "ficha" que relaciona a cidade, a data, o número de pessoas mortas e o de feridas, depois corta para uma tela preta entre cada evento.

O tom foi definido quando Schnack enviou pela primeira vez o diretor de fotografia Nathan Truesdell a Seal Beach, Califórnia, para filmar o local de um tiroteio em um salão de manicure em 2011.

"Quando vimos a filmagem, era chocante que não apenas o salão de cabeleireiro continuava aberto, como funcionava no mesmo esquema, com as pessoas entrando e saindo", disse Schnack. "Torna-se um lugar onde não há memória do que aconteceu lá."

Eles descobriram que o mesmo ocorria em diversos locais aonde foram. Mas as gravações de tiroteios mais recentes, como o ataque em novembro a um centro de planejamento familiar em Colorado Springs, no Colorado, ainda mostram fitas da polícia cercando a cena.

Schnack filmou um dos locais pessoalmente e montou uma equipe de 17 videógrafos para fazer gravações de outros lugares.

Sua decisão de combinar cenas de paisagem com áudio de uma época diferente é reminiscente de seu filme "Kurt Cobain About a Son", que juntou visuais de lugares em Seattle com áudio de uma entrevista do músico ao jornalista Michael Azerrad. A justaposição dá um novo significado à imagem e ao áudio.

Embora seja potencialmente uma tarefa desafiadora, Schnack está decidido a acrescentar novas cenas a seu filme.
"Fizemos 25, e eu gostaria de não fazer mais", disse ele. "Mas também é uma maneira de não facilitar as coisas para nós mesmos, porque saberemos que sempre que acontecer alguma coisa desse tipo teremos um trabalho a fazer." 

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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