Universidade nos EUA acha descendentes dos escravos que vendeu no século 19

Rachel L. Swarns

Em Washington (EUA)

  • William Widmer/The New York Times

    Lápide de Cornelius Hawkins, conhecido como Neely, encontrada por projeto da universidade

    Lápide de Cornelius Hawkins, conhecido como Neely, encontrada por projeto da universidade

A carga humana foi carregada em navios no cais movimentado da capital da nação, com destino às plantações no Sul. Alguns escravos imploravam por meio de terços enquanto eram reunidos, rezando por libertação.

Mas naquele dia, no outono de 1838, ninguém foi poupado: nem o bebê de dois meses e sua mãe, nem os trabalhadores rurais, nem o sapateiro e nem Cornelius Hawkins, que tinha cerca de 13 anos quando foi forçado a embarcar.

O pânico e desespero deles foram praticamente esquecidos por mais de um século. Mas aquela não era uma venda normal de escravos. Os afro-americanos escravizados pertenciam aos padres jesuítas mais proeminentes do país. E foram vendidos, juntamente com muitos outros, para ajudar a garantir o futuro da principal instituição católica de ensino superior da época, conhecida hoje como Universidade de Georgetown.

Agora, com protestos raciais ocorrendo nos campi universitários, um conjunto incomum de professores, alunos, ex-alunos da Georgetown, assim como genealogistas, estão tentando descobrir o que aconteceu com esses 272 homens, mulheres e crianças. E estão lidando com uma pergunta particularmente dolorosa: o que é devido, se for o caso, aos descendentes dos escravos que foram vendidos para ajudar a assegurar a sobrevivência da universidade?

Mais de uma dúzia de universidades, incluindo a Brown, Colúmbia, Harvard e a Universidade da Virgínia, reconheceram publicamente suas ligações com a escravidão e o comércio de escravos. Mas a venda de escravos de 1838 organizada pelos jesuítas, que fundaram e administravam Georgetown, se destaca pelo simples tamanho, dizem os historiadores.

A universidade dependia das plantações dos jesuítas em Maryland para ajudar a financiar suas operações, disseram representantes da universidade. (Os escravos com frequência eram doados por paroquianos prósperos.) E a venda de 1838, no valor atual de cerca de US$ 3,3 milhões, foi organizada por dois dos primeiros presidentes de Georgetown, ambos padres jesuítas.

Parte do dinheiro ajudou a quitar as dívidas da faculdade em dificuldades.

"A universidade deve sua existência a essa história", disse Adam Rothman, um historiador da Georgetown e um membro do grupo de trabalho da universidade que está estudando formas de a instituição reconhecer e tentar compensar por suas raízes na escravidão.

Manifestações de estudantes em Georgetown no ano passado ajudaram a mobilizar ex-alunos e deram nova urgência aos esforços da administração. Em novembro, a universidade concordou em remover os nomes do reverendo Thomas F. Mulledy e do reverendo William McSherry, os presidentes da universidade envolvidos na venda, de dois prédios do campus.

Um ex-aluno, Richard J. Cellini, que é um católico praticante e presidente-executivo de uma empresa de tecnologia, se perguntou se mais precisava ser feito. Ele ficou incomodado por nem os jesuítas e nem a direção da universidade terem tentado rastrear as vidas dos afro-americanos escravizados ou indenizar seus descendentes.

Um homem branco, Cellini disse que nunca dedicou muito tempo para pensar na história afro-americana, mas não conseguia parar de pensar nos escravos, cujos nomes estiveram nos arquivos de Georgetown por décadas.

"Não se trata de um grupo vago de pessoas, sem nome e sem rosto", disse Cellini, 52 anos, cuja empresa, a Briefcase Analytics, tem sede em Cambridge, Massachusetts. "São pessoas reais, com nomes reais e descendentes reais."

Em duas semanas, Cellini montou uma organização sem fins lucrativos, o Projeto Memória de Georgetown, contratou oito genealogistas e levantou mais de US$ 10 mil junto a outros ex-alunos para financiar a pesquisa.

Rothman soube dos esforços de Cellini e o informou que ele e vários de seus alunos também estavam rastreando os escravos. Logo, os dois homens e suas equipes estavam trabalhando em rotas paralelas.

O que surgiu da pesquisa deles, e das de outros estudiosos, é um vislumbre do mundo insular dominado pelos padres, que exigiam que seus escravos frequentassem a missa para a salvação de suas almas, mas também os açoitavam e vendiam alguns deles. Os pesquisadores usaram registros dos arquivos para seguir os passos dos escravos, das plantações dos jesuítas em Maryland, passando pelas docas de Nova Orleans, até três fazendas a oeste e sul de Baton Rouge, Louisiana.

A esperança era de identificar os descendentes dos escravos. Até o final de dezembro, uma genealogista contratada por Cellini estava confiante de que tinha encontrado algo: a família de Cornelius Hawkins.

Promessas não cumpridas

Os jesuítas já tinham vendido escravos individuais antes. Já nos anos 1780, Rothman encontrou, eles discutiam abertamente a necessidade de reduzir seu estoque de seres humanos.

Mas a decisão de vender virtualmente todos seus afro-americanos escravizados nos anos 1830 deixou alguns padres profundamente perturbados.

"Seria melhor sofrermos o desastre financeiro do que sofrer a perda de nossas almas com a venda dos escravos", escreveu o reverendo Jan Roothaan, que comandava a organização internacional dos jesuítas em Roma e inicialmente relutou em autorizar a venda.

Mas ele foi persuadido a reconsiderar por vários jesuítas proeminentes, incluindo Mulledy, o então influente presidente da Georgetown que supervisionava sua expansão, e McSherry, que estava encarregado da missão dos jesuítas em Maryland. (Os dois homens trocariam de posição de 1838.)

Assim, em junho de 1838, Mulledy fechou negócio com Henry Johnson, membro da Câmara dos Deputados, e Jesse Batey, um proprietário de terras da Louisiana, para a venda de Cornelius e dos outros.

Mulledy pegou grande parte da entrada que recebeu pela venda, o equivalente a cerca de US$ 500 mil atuais, e usou para quitar as dívidas que Georgetown contraiu sob sua direção.

Um nome familiar

Após a venda, Cornelius desaparece dos registros públicos até 1851, quando seu rastro pôde ser finalmente reencontrado em uma plantação de algodão perto de Maringouin, Louisiana.

Seu proprietário, Batey, morreu e Cornelius aparece no inventário da fazenda, que incluía 27 mulas e cavalos, 32 porcos, dois carros de boi e dezenas de escravos. Ele foi avaliado em US$ 900. ("Fazenda Valiosa e Negros à Venda", dizia um anúncio no jornal em 1852.)

A fazenda seria vendida repetidas vezes, como mostram os registros, mas a família de Cornelius permaneceu intacta. Em 1870, ele apareceu no recenseamento pela primeira vez. Ele tinha cerca de 48 anos na época, um pai, marido, trabalhador rural e, finalmente, um homem livre.

Ele poderia ter desaparecido de vista de novo por algum tempo, exceto por algo com que poucos poderiam contar: sua profunda fé inabalável. Foi seu catolicismo, nascido nas plantações dos jesuítas de sua infância, que forneceria aos pesquisadores um mapa até seus descendentes.

Os filhos e netos de Cornelius também abraçaram a Igreja Católica. Assim, Judy Riffel, uma genealogista do grupo contratado por Cellini, começou a seguir uma cadeia de casamentos e nascimentos, batismos e enterros. Os registros da igreja ajudaram a chegar a uma mulher de 69 anos em Baton Rouge, chamada Maxine Crump.

Crump, uma âncora de telejornalismo aposentada, estava dirigindo para Maringouin, sua cidade natal, em fevereiro quando seu celular tocou. Cellini estava na linha.

Ela escutou, surpresa, enquanto ele lhe contava sobre seu trisavô, Cornelius Hawkins, que trabalhou em uma plantação há poucos quilômetros de onde ela cresceu.

Tudo isso era novidade para Crump, exceto pelo nome Cornelius, ou Neely, como era conhecido.

O nome passou de geração a geração em sua família. Seu tio-avô tinha o nome, assim como um de seus primos. Agora, pela primeira vez, Crump descobria suas origens.

"Oh, meu Deus", ela disse. "Oh, meu Deus."

Cellini, cujos genealogistas já rastrearam mais de 200 dos escravos de Maryland até a Louisiana, acredita que possam existir milhares de descendentes vivos.

O grupo de trabalho de Georgetown está considerando se a universidade deve pedir desculpas por ter lucrado com o trabalho escravo, criar um memorial aos escravos e fornecer bolsas de estudos para seus descendentes, entre outras possibilidades, disse Rothman, o historiador.

"É difícil saber o que poderia promover a reconciliação em uma história como essa", ele disse. "Que reparações alguém pode fazer?"

Quando Riffel perguntou a Crump onde ela achava que Cornelius estava enterrado, Crump sabia exatamente para onde ir.

As duas mulheres dirigiram pelas estradas estreitas que margeiam as grandes plantações de cana-de-açúcar da Paróquia de Iberville, a caminho do único cemitério católico de Maringouin.

Elas encontraram o último marcador físico da jornada de Cornelius no cemitério Imaculado Coração de Maria, onde o pai, avó e bisavô de Crump também estão enterrados.

A lápide gravada estava tombada, mas as palavras eram claras: "Neely Hawkins Morreu em 16 de Abril de 1902".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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