Doenças ligadas à poluição em escola chinesa põem em xeque supervisão oficial

Javier C. Hernández

Em Pequim (China)

  • Facebook/Reprodução

    Área inteira da Escola de Línguas Estrangeiras de Changzhou, no leste da China

    Área inteira da Escola de Línguas Estrangeiras de Changzhou, no leste da China

Famílias chinesas estavam em polvorosa na segunda-feira (18), depois que uma reportagem na mídia estatal revelou que quase 500 alunos de uma escola no leste da China tinham apresentado doenças, algumas tão graves quanto leucemia, possivelmente causadas pela poluição em um campo próximo.

Estudantes e pais da Escola de Línguas Estrangeiras de Changzhou se queixavam da poluição na área desde dezembro, depois que dezenas de crianças apareceram com irritação na pele e sangramento nasal e que um odor repulsivo cercou a escola. Mas as autoridades locais minimizaram suas preocupações, dizendo que o ar, o solo e a água do solo cumpriam os critérios nacionais.

No domingo (17), a poderosa emissora do governo nacional, a Televisão Central da China (CCTV), divulgou uma reportagem assustadora documentando as doenças e revelando que as toxinas no solo e na água superavam em muito os limites nacionais.

A transmissão da reportagem sugeriu que os líderes chineses estão adotando uma posição mais agressiva em relação às companhias químicas, em um momento em que a ira pública contra a poluição ambiental cresce, especialmente depois de um desastre químico de alta visibilidade no ano passado que matou 165 pessoas na cidade portuária de Tianjin.

Mas o episódio também salientou as grandes falhas existentes na supervisão de materiais perigosos na China. Enquanto o país avançou na divulgação de dados sobre a poluição do ar e da água nos últimos anos, ainda não oferece informações sobre a poluição do solo ou exige que as empresas divulguem quais substâncias são descartadas, o que se afasta dos padrões internacionais.

O ambientalista Ma Jun disse que os esforços do governo para investigar casos notórios de poluição são um passo promissor. Mas, segundo ele, a China ainda tem muito a fazer para controlar a indústria química.

"É muito importante que o governo central tome medidas neste caso", disse Ma. "Espero que ele não pare nesses casos individuais. Precisamos de uma revisão abrangente."

Em um comunicado, o Greenpeace disse que o episódio mostrou que a gestão de substâncias químicas perigosas pela China é "perigosamente negligente".

A escola refutou a reportagem da CCTV, dizendo em uma carta aberta que as denúncias de doenças em massa na escola eram exageradas, segundo notícias publicadas pela mídia chinesa na terça-feira (19).

"Mesmo nossos professores estrangeiros, que sempre foram sensíveis aos problemas ambientais, estão tendo dificuldade para compreender por que a mídia está tratando essa questão como um problema sério", disse a carta.

Nas redes sociais e nos cafés, os chineses manifestaram profunda preocupação pelo caso na segunda-feira. No Weibo, o equivalente chinês do Twitter, uma página relacionada ao caso atraiu mais de 30 milhões de visitas até a noite de segunda-feira.

Algumas pessoas traçaram comparações com os erros de gestão que levaram às explosões em Tianjin no ano passado; outras disseram que pretendiam pressionar as escolas de seus filhos a realizar testes do solo e da água, só para se tranquilizarem.

Em Pequim, o governo central prometeu um inquérito e o Ministério de Proteção Ambiental disse que "confere grande importância à questão". O governo da cidade de Changzhou disse em um comunicado que tem "tolerância zero" à poluição e vai tomar medidas imediatas.

O caso da escola de línguas de Changzhou recebeu uma atenção incomum da mídia chinesa, dados os rígidos controles do governo sobre o que pode ser relatado. As empresas químicas, que são grandes locomotivas do crescimento econômico e contribuem muito para as receitas dos governos locais, muitas vezes são protegidas de críticas.

Em uma série de reportagens investigativas publicada nos últimos meses, a revista "Caixin" e o site de notícias The Paper visaram a direção da escola de idiomas de Changzhou, uma das mais prestigiosas da região, e as companhias que pareciam ter causado a poluição.

A escola, que tem cerca de 2.400 alunos, abriu um campus de 619 mil m2 no último outono, próximo ao local de várias antigas fábricas de pesticidas, incluindo a Jiangsu Changlong Química, subsidiária de um dos maiores fabricantes de pesticidas da China, Shenzhen Noposion Agroquímica.

No domingo (17), o caso ganhou destaque nacional quando a televisão central da China divulgou uma reportagem sobre a poluição na escola. Dos 641 alunos examinados por médicos, 493 foram diagnosticados com doenças, segundo a CCTV. Elas incluem dermatite, bronquite e deficiência de células brancas no sangue, além de alguns casos de linfoma e leucemia.

A reportagem citou pais e estudantes que descreveram a água contaminada e um odor no ar que parecia de ovos de pata podres.
"A água é estranha e tem sabor meio amargo", disse a mãe de um estudante na reportagem.

"Eu tenho cãibra nas pernas, espinhas, e a pele da minha mão está rachando", disse um estudante de 12 anos.

Ma disse que a firme reação do público é um sinal da crescente conscientização da população chinesa sobre os riscos da poluição ambiental, principalmente devido à crescente popularidade das redes sociais. Segundo ele, será cada vez mais difícil os poluidores escaparem ao escrutínio do público.

"Os velhos tempos de ser protegido do ódio público passaram", disse Ma. "Está na hora de a indústria, especialmente a indústria química, realmente reconhecer a mudança fundamental que está acontecendo."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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