Candidatura de muçulmano pelo Partido Trabalhista molda a disputa pela prefeitura de Londres

Stephen Castle

Em Londres (Inglaterra)

  • NIKLAS HALLE'N/AFP

Filho de um motorista de ônibus de Londres, Sadiq Khan realizou uma ascensão notável até os altos escalões da política britânica. Cresceu com sete irmãos em imóvel de três quartos em um projeto habitacional e frequentou escolas públicas até se tornar um advogado de direitos humanos e então um alto ministro do governo.

Agora, Khan, 45 anos, um parlamentar e ex-ministro dos Transportes pelo Partido Trabalhista de oposição, é o favorito na disputa para se tornar o próximo prefeito de Londres. Ele sucederia Boris Johnson, o extrovertido conservador que ocupa o cargo desde 2008 e é uma figura importante na campanha para saída do Reino Unido da União Europeia.

Uma vitória nesta quinta-feira tornaria Khan o primeiro muçulmano a dirigir a cidade, onde um entre oito habitantes é seguidor dessa religião, e em um momento em que o Reino Unido está lutando para integrar as minorias e combater a radicalização.

Os londrinos elegem de forma direta seu prefeito apenas desde 2000 e apenas dois políticos ocuparam o cargo: Johnson e Ken Livingstone, que concorreu como independente em 2000 e depois pelo Partido Trabalhista em 2004.

A eleição de Khan representaria um grande impulso para o Partido Trabalhista em um momento em que o Partido Conservador do primeiro-ministro David Cameron está profundamente dividido em relação à Europa. Provavelmente também fortaleceria a posição do líder de esquerda dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, que está em atrito com muitos de seus próprios parlamentares e cuja liderança está emaranhada em uma disputa em torno de antissemitismo nas fileiras do partido.

Mas as principais batalhas travadas nas ruas de Londres em torno de políticas envolvem os problemas da cidade, como a escassez aguda de moradias a preço acessível e a rede velha e superlotada de transportes coletivos. O adversário mais próximo de Khan é Zac Goldsmith, o candidato conservador, que diz desejar tornar Londres a "cidade mais verde do mundo".

Os dois já se enfrentaram em questões como os transportes e como construir mais imóveis residenciais para aliviar os elevadíssimos preços para compra e locação na cidade. Khan aponta para o fato de que o aluguel médio em Londres equivale a 55 libras, ou cerca de R$ 285, por noite, ou o preço de um hotel decente em muitas capitais europeias. E Goldsmith disse que as condições de superlotação enfrentadas pelos passageiros nos transportes coletivos de Londres "seriam ilegais para frangos, porcos e gado".

Talvez de forma apropriada para uma cidade globalizada que acomoda os extremos da riqueza, Khan e Goldsmith são exemplos vivos da diversidade de Londres.

Goldsmith, 41 anos, filho do magnata sir James Goldsmith, herdou uma fortuna e foi educado no Eton College, a escola mais exclusiva do Reino Unido. Ele editou a revista "The Ecologist", fundada por seu tio, e foi eleito ao Parlamento em 2010.

A briga entre os dois principais candidatos não é bonita, trazendo à tona questões delicadas de etnia e religião para uma eleição à prefeitura de uma forma nunca vista antes.

Goldsmith descreveu Khan como perigoso e sem princípios, além de dizer que seu trabalho é fazer tudo o que puder para "impedir Londres de cair nas mãos erradas".

Khan sugere que Goldsmith tem feito uma campanha desesperada e divisora, visando os eleitores com argumentos religiosos ou étnicos, além de não possuir nenhum retrospecto sugerindo que poderá atuar bem como prefeito de Londres.

Goldsmith acusou Khan de dar apoio tácito aos extremistas, ao falar na mesma plataforma no passado que aqueles que defendem posições radicais ou que foram acusados de apoiar terroristas, seja em seu trabalho como advogado de direitos humanos e como candidato em campanha.

Quando Cameron repetiu essas alegações no Parlamento, ele foi recebido com gritos de "racista" e acusado por um oponente de promover "política de apito de cão" (aquela em que apesar de aparentemente neutra, a mensagem negativa pode ser ouvida pelo público alvo).

Parte da proposta de Khan aos londrinos é que, como muçulmano praticante (ele não bebe), ele tem um plano para enfrentar o extremismo e que, assim como muitas pessoas em Londres, ele tem "múltiplas identidades".

"Sou londrino, sou europeu, sou britânico, sou inglês, sou muçulmano, de origem asiática, descendente de paquistaneses, pai, marido", disse Khan em uma entrevista recente em um café, antes de acusar seu principal adversário de tentar "dividir as comunidades".

Khan acentua de forma rotineira sua origem humilde, mas é cuidadoso em não atacar Goldsmith por sua riqueza.

"Não tenho nada contra a formação dele", disse Khan. "Nenhum de nós é responsável por quem são nossos pais, nossas famílias, de modo que não é justo. O que interessa é: que experiência ele tem para ser prefeito de Londres? Qual é a visão dele? Quais são seus valores?"

Goldsmith diz que sua criação privilegiada é irrelevante.

"Não preciso estar em uma cadeira de rodas para saber que não são apenas as pessoas em cadeiras de rodas que não conseguem usar nosso sistema de transporte público", ele disse em uma entrevista, descrevendo os esforços que fez para melhorar o acesso ao metrô. "Ou você se importa com essas questões ou não, e caso se importe, você as resolve, que foi o que fiz."

A personalização da campanha ressalta a falta de diferenças profundas nas políticas diante dos londrinos, disseram analistas.

Nenhum candidato contesta o modelo existente em Londres de abertura à imigração e investimento, aliado a rápido crescimento econômico, disse Tony Travers, diretor de um grupo de pesquisa da Escola de Economia e Ciência Política de Londres.

Em termos de políticas, "é difícil argumentar que são radicalmente diferentes um do outro", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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