Há algo para ser celebrado no Dia da Europa?

Sewell Chan

Em Londres

  • Toby Melville/Reuters

    Reino Unido votará a possibilidade de deixar a União Europeia em junho

    Reino Unido votará a possibilidade de deixar a União Europeia em junho

Nove de maio foi o Dia da Europa, a celebração anual da União Europeia de paz e unidade no continente. Por ser a UE, não foram esperadas queima de fogos ou festejos nas ruas de Bruxelas, apesar dos funcionários do bloco terem dia de folga e vários eventos públicos estarem planejados.

O feriado celebra um discurso de 1950 de Robert Schuman, o então ministro das Relações Exteriores francês, que argumentava a favor da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Ela se tornou a base do que posteriormente evoluiria na UE.

A segunda-feira também marcou o Dia da Vitória na Rússia, a comemoração do triunfo da União Soviética sobre a Alemanha nazista em 1945; um desfile militar gigante em Moscou celebra a ocasião. A derrota do Terceiro Reich costuma ser observada com mais frequência em 8 de maio.

Apesar de grande parte do continente estar felizmente livre de guerras, um feito pelo qual a UE ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2012, de muitas formas ele está enfrentando mais desafios do que nunca. Aqui estão seis deles:

A possível saída do Reino Unido

Os eleitores britânicos decidirão em 23 de junho pela saída ou não do país do bloco de 28 países da UE, uma decisão conhecida como "Brexit". Movida pelos temores em torno da imigração, insatisfação com a burocracia em Bruxelas e ansiedade com o papel do Reino Unido no mundo, a campanha a favor da saída diz que o Reino Unido será mais forte fora da UE, apesar das evidências econômicas sugerirem o contrário. O primeiro-ministro David Cameron, que está ajudando a liderar a campanha pela permanência, fez um forte discurso alertando que a saída da UE aumentaria o risco de conflito. Seu gabinete até mesmo divulgou um vídeo mostrando quatro veteranos da Segunda Guerra Mundial fazendo a defesa da permanência. O presidente Barack Obama, em visita a Londres no mês passado, pediu ao Reino Unido para que permanecesse no bloco.

A imigração provocou caos político

Mais de 1 milhão de pessoas desesperadas e fugindo de guerra e perseguição entraram no continente no ano passado, testando os laços da UE. A maioria acabou na Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel, desafiando os críticos domésticos e estrangeiros, insistiu em manter as portas abertas aos requerentes de asilo. Segundo um acordo fechado em março com a Turquia, os requerentes de asilo usando rotas clandestinas para chegar à Grécia pela Turquia seriam enviados de volta, enquanto a UE reassentaria diretamente os refugiados, a maioria sírios, que forem processados e registrados na Turquia. Muitos observadores dizem que a crise não diminuirá sem uma solução política ou outra que coloque fim à guerra civil na Síria, que já dura mais de cinco anos.

Ascensão dos partidos de extrema-direita

A insatisfação com a UE não é novidade, mas uma combinação de fatores (ansiedades com o extremismo islâmico, temores de terrorismo e estagnação econômica) tem alimentado os partidos de extrema-direita por toda a Europa. A Frente Nacional de Marine Le Pen obteve grandes ganhos no primeiro turno das eleições regionais na França em dezembro, várias semanas depois dos ataques terroristas que mataram 130 pessoas em Paris e arredores (apesar de o partido dela ter sido derrotado no segundo turno eleitoral). Na Alemanha, a crise da imigração alimentou a ascensão do Alternativa para a Alemanha de extrema-direita. Na semana passada, o antes marginal Partido da Independência do Reino Unido, que apoia a saída dos britânicos da UE, conquistou cadeiras na Assembleia de Gales e na Assembleia de Londres.

Crescimento permanece lento

Anos após a crise financeira de 2008 e 2009, a economia da Europa está apenas se recuperando de forma intermitente. O Fundo Monetário Internacional projeta que a região do euro crescerá um letárgico 1,7% neste ano, em comparação a 4,3% nas economias emergentes e em desenvolvimento, 2,6% nos Estados Unidos e 2,2% no Reino Unido (que não usa o euro). O envelhecimento das populações, estagnação da produtividade e aumento da desigualdade na Europa (os lares gregos perderam 24% de seu poder aquisitivo, enquanto os lares alemães ganharam mais de 15%, de 2008 a 2014) estão alimentando descontentamento. O desemprego entre os jovens na Itália, Alemanha e Espanha é alto. Na França, até mesmo uma tentativa modesta de relaxar as rígidas proteções ao emprego no país foi recebida com fortes protestos.

Uma guinada antiliberal na Polônia e Hungria

O Partido Fidesz de Victor Orban, eleito primeiro-ministro da Hungria em 2010, e o Partido Lei e Justiça, que chegou ao poder na Polônia em outubro, alarmaram grupos de direitos humanos e liberdades civis ao limitarem as liberdades de imprensa, interferirem no Judiciário e atacarem dissidentes. Orban foi um duro crítico da posição de Merkel a respeito da imigração, enquanto a Polônia enfrenta investigação da UE sobre se as políticas de seu novo governo, que incluem maior controle sobre o sistema público de radiodifusão e um esforço de acrescentar novos ministros do Tribunal Constitucional do país, violam as normas democráticas da UE.

Uma Rússia ressurgente

A ansiedade em torno de uma Rússia recém-assertiva é um motivo para a UE estar relutante em confrontar mais vigorosamente a Polônia e a Hungria.

O colapso nos preços do petróleo colocaram a Rússia em crise, mas a política externa assertiva e imprevisível do presidente Vladimir Putin (sua tomada da Crimeia em 2014 e sua intervenção militar na guerra civil da Síria no ano passado) o transforma em uma força a ser enfrentada. Apesar de a Guerra Fria ter acabado oficialmente com o colapso da União Soviética em 1991, os atuais líderes da UE temem que ex-países comunistas da Europa Central e Oriental (não apenas a República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia, que ingressaram na União em 2004, mas também potencialmente Bulgária e Romênia, que ingressaram em 2007) possam voltar a ser atraídos para a órbita de influência da Rússia.

E há novamente a Eurovision

A competição de canções, conhecida tanto por ser camp e kitsch quanto pelo talento de seus participantes, está em seu 61º ano. A competição deste ano será concluída em Estocolmo nesta semana, com finais no sábado. Ela é patrocinada pela UE, mas, assim como o futebol, se transformou em uma influência unificadora em um continente ainda assombrado pelos fantasmas da história e, possivelmente, algo digno de celebrar neste Dia da Europa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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