Opinião: Prefeito muçulmano de Londres vence fomentadores de ódio como Trump

Roger Cohen

  • Leon Neal/AFP

O evento político mais importante das últimas semanas não foi o despontar de Donald Trump como virtual candidato presidencial pelo Partido Republicano, mas sim a eleição de Sadiq Khan, o filho muçulmano de um motorista de ônibus de Londres, como prefeito desta cidade.

Trump ainda não conquistou nenhum cargo eletivo, mas Khan, o candidato do Partido Trabalhista, derrotou Zac Goldsmith, um conservador, para assumir uma das grandes cidades do mundo, uma metrópole vibrante onde todas as línguas são ouvidas. Em sua vitória, um triunfo sobre as difamações que tentavam associá-lo ao extremismo islâmico, Khan se destacou pela abertura contra o isolacionismo, a integração em vez do confronto, oportunidade para todos contra o racismo e misoginia. Ele foi o anti-Trump.

Antes da eleição, Khan disse ao meu colega Stephen Castle: "Sou londrino, sou europeu, sou britânico, sou inglês, sou de fé islâmica, de origem asiática, descendente de paquistaneses, pai e marido".

O mundo do século 21 será moldado por essas identidades multifacetadas e por cidades prósperas que celebrem a diversidade, não por um sujeito branco, "bully" (valentão), impertinente, preconceituoso, "a América Primeiro", que deseja construir muros.

Vale a pena notar que sob a proibição de entrada no país de não cidadãos muçulmanos proposta por Trump, Khan não poderia visitar os Estados Unidos. Para usar uma das frases favoritas de Trump, isso seria um "desastre completo e total". Isso transformaria os Estados Unidos em motivo de ridículo aos olhos de um mundo já horrorizado com a ascensão do candidato republicano.

A eleição de Khan é importante porque dá à mentira o tropo fácil de que a Europa está sendo tomada por jihadistas islâmicos. Ela ressalta o fato de que os atos terroristas escondem um milhão de histórias discretas de sucesso entre as comunidades muçulmanas europeias. Um de sete filhos de uma família imigrante paquistanesa, Khan cresceu em um conjunto habitacional e se tornou um advogado de direitos humanos e um ministro do governo. Ele obteve mais de 1,3 milhão de votos na eleição de Londres, um resultado pessoal sem igual por qualquer político na história britânica.

Sua eleição é importante porque as vozes mais eficazes contra o terrorismo islâmico são as dos muçulmanos, e Khan está preparado para falar. Depois dos ataques em Paris no ano passado, ele disse em um discurso que os muçulmanos tinham um "papel especial" a exercer no combate ao terrorismo, "não por sermos mais responsáveis que os outros, como alguns alegam equivocadamente, mas porque podemos ser mais eficazes no combate ao extremismo do que qualquer outro".

Khan também estendeu a mão à comunidade judaica britânica, condenando vigorosamente o antissemitismo nas fileiras trabalhistas, que no mês passado viram Ken Livingstone, um ex-prefeito de Londres, ser suspenso do partido.

Como George Eaton observou na revista "The New Statesman": "Khan será uma figura de importância global. Sua eleição é uma reprimenda a extremistas de todos os tipos, de Donald Trump a Abu Bakr al-Baghdadi, que afirmam que as religiões não podem coexistir pacificamente".

Trump, como político, é um produto da raiva e do medo americano acima de tudo. Nas últimas várias semanas, um estudante da Universidade da Califórnia, em Berkeley, foi retirado de um voo da Southwest Airlines porque foi ouvido falando árabe, e um economista italiano das universidades do Nordeste, de cabelo encaracolado e pele morena, foi retirado de um voo da American Airlines após ter sido visto rabiscando cálculos matemáticos que seu vizinho de assento considerou suspeitos.

Trump, descrito para mim pelo cientista político Norm Ornstein como sendo "a pessoa mais insegura e movida pelo ego do país", é o porta-voz dessa América assustada que vê ameaças em toda parte (até mesmo em um matemático italiano).

Quando Trump declara: "A América Primeiro será o tema maior e acima de todos do meu governo", o restante do mundo ouve uma nação furiosa fazendo uso de seus músculos.

A ascensão de Khan, por sua vez, é uma história de vitória sobre os temores provocados pelo 11 de Setembro. Sua vitória é uma rejeição a Osama Bin Laden, ao Estado Islâmico, a todo tipo de ideologia jihadista, assim como de políticos fomentadores de ódio como Trump, que optam por jogar o jogo "muçulmano é igual a perigo". Khan defende que uma maior integração é essencial e que "muçulmanos britânicos demais crescem realmente sem conhecer alguém de formação diferente".

Sigmund Freud escreveu: "É impossível ignorar a extensão com que a civilização é construída por meio da renúncia do instinto". Donald Trump escreveu: "Aprendi a ouvi e confiar no meu instinto. É um dos meus conselheiros mais valiosos". Ele disse recentemente: "Devemos, como nação, ser mais imprevisíveis".

Certo.

Reúna um egotista, um valentão, poder imenso e gosto por imprevisibilidade movida pelo instinto e o resultado seria uma mistura perigosa que poderia colocar a civilização em risco. Aqueles dedos pequenos teriam acesso a códigos nucleares caso Trump seja eleito.

Nesse contexto, a vitória de Sadiq Khan é tranquilizadora, porque representa correntes no mundo (de integração e identidade global) que com o passar do tempo provarão ser mais fortes do que o tribalismo e nativismo de Trump.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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