Análise: Antes de visita de Obama, opiniões divergentes persistem sobre Hiroshima

David E. Sanger

Em Washington (EUA)

  • Ko Sasaki/The New York Times

    Centro de exposição em Hiroshima, no Japão, um dos poucos locais que sobreviveram à bomba atômica despejada ali pelos EUA no fim da Segunda Guerra Mundial

    Centro de exposição em Hiroshima, no Japão, um dos poucos locais que sobreviveram à bomba atômica despejada ali pelos EUA no fim da Segunda Guerra Mundial

Durante décadas, os visitantes da fantasmagórica cúpula de Hiroshima, que se ergue como único sobrevivente da queda da bomba atômica lá há mais de 70 anos, entraram em um mundo que mistura tragédia inenarrável com amnésia histórica.

O local, que o presidente Barack Obama visitará neste mês, refletia uma visão quase universal no Japão de que a cidade foi vítima de uma brutalidade desnecessária --pais e filhos incinerados, milhares de mortos e uma geração envenenada pela radiação.

Mas exposições no museu próximo quase não trataram do que levou àquele horror, a máquina de guerra japonesa que dilacerou a Ásia durante uma década antes da manhã que mudou a história do século 20.

Para os americanos da geração da Segunda Guerra Mundial, e muitos de seus filhos, Hiroshima está no centro de uma narrativa muito diferente. Eles acreditam que a decisão do presidente Harry Truman de despejar a bomba salvou dezenas de milhares de vidas de americanos que teriam sido perdidas em uma invasão a Honshu, a principal ilha do Japão.

Pergunte aos poucos veteranos sobreviventes daquela geração --os que lutaram para avançar de Iwo Jima a Okinawa e sabiam o que viria depois--, e não há como contestar a decisão de Truman, nem equivalente moral entre uma campanha japonesa que matou mais de 20 milhões de pessoas na Ásia e o horror da bomba que pôs fim a tudo isso.

Com sua decisão de falar embaixo daquela famosa cúpula, Obama está dando um passo que 11 de seus antecessores evitaram. Simplesmente por se apresentar em Hiroshima ele não terá opção além de navegar por um campo minado de memória histórica conflituosa, no Japão e nos EUA.

As duas interpretações drasticamente diferentes do que aconteceu sempre se basearam, às vezes de maneiras não declaradas, na forte aliança entre os EUA e o Japão que brotou das cinzas.

Mas hoje, com algumas notáveis dissidências nos dois países, essas interpretações continuam tão congeladas na história quanto a sombra marcada nos degraus de pedra do prédio de um banco perto do marco zero --criada pelo corpo de uma pobre alma que estava sentada ali no momento da detonação.

Obama não pedirá desculpas em Hiroshima, insistiu a Casa Branca na última terça-feira (10). Ele não criticará Truman pela decisão de despejar a bomba em Hiroshima, ou pela decisão muito mais questionável de jogar uma segunda três dias depois, em Nagasaki, porque o imperador ainda não havia se rendido.

"Esta visita oferecerá a oportunidade de honrar a memória de todos os inocentes que se perderam durante a guerra", escreveu o vice-assessor de Segurança Nacional de Obama, Benjamin J. Rhodes.

Para um presidente que chegou ao cargo falando sobre um mundo sem armas nucleares --uma visão que ele teve mais dificuldade para realizar do que teria imaginado--, também é uma oportunidade de dizer, nos últimos meses de sua Presidência, que o risco de novas Hiroshimas absolutamente não desapareceu.

Também pode ser o momento certo para saltar naquela brecha histórica. Hiroshima deu origem a ótima literatura --a começar pelo relato sem paralelos de John Hersey na revista "The New Yorker", publicado em 1946 enquanto a cidade continuava em ruínas-- e alguns dos mais profundos debates morais do século 20.

Hoje, sobreviventes daquela manhã quando o Enola Gay passou alto sobre a cidade e despejou sua carga são ainda mais difíceis de encontrar do que veteranos americanos, agora na casa dos 90 anos, que acreditam que sua vida foi poupada pelo mesmo ato.

Exposições mais recentes em Hiroshima lembraram aos visitantes que a cidade não foi um alvo aleatório, mas um movimentado centro industrial da máquina de guerra japonesa.

"Algumas pessoas acreditam que quando pensamos na bomba também devemos pensar na guerra", disse-me o prefeito de Hiroshima em 1994, enquanto visitávamos a exposição, à qual a direita japonesa se opusera.

Mas ainda hoje, 22 anos depois, os relatos atenuados da guerra que são ensinados a uma nova geração de escolares japoneses geralmente evitam abordar a tomada de decisão que levou à guerra no Pacífico, ao estupro de Nanquim ou questões sobre se as "mulheres de conforto" foram organizadas pelos militares japoneses.

A vividez de Hiroshima foi reduzida por relatos anódinos do que a antecedeu, reforçando a sensação entre os americanos de que, ao contrário da Alemanha, o Japão nunca enfrentou realmente seu passado.

Muitos japoneses dizem o mesmo sobre os EUA. Eles lembram que quando o Smithsonian organizou a primeira exposição do Enola Gay em 1995, também para o 50º aniversário, veteranos objetaram com tal veemência ao esforço de realizar um exame desapaixonado da decisão de lançar a bomba --e suas consequências--, que o Congresso realizou audiências e o diretor do museu foi obrigado a se demitir.

A exposição foi diluída, e ainda hoje --quando o famoso B-29 pode ser visto no Centro Steven F. Udvar-Hazy, junto ao Aeroporto Internacional Dulles-- qualquer discussão sobre os horrores em curto e longo prazo do lançamento da bomba são superficiais e a história por trás dele, controversa.

"Os principais líderes americanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial, para surpresa de muitos que não têm consciência do registro, tinham certeza de que a bomba atômica era desnecessária, que o Japão estava à beira da rendição e --para muitos-- que a destruição de um grande número de civis era imoral", escreveu no ano passado em "The Nation" Gar Alperovitz, um líder do movimento pela revisão do relato histórico dos EUA.

Entre hoje e 27 de maio --quando Obama deverá visitar o local--, a grande pergunta será como as opiniões evoluíram nos dois países desde 1995.

"No Japão, não acho que tenha havido grande evolução real, pelo menos entre a direita e os amnésicos que negam a guerra destrutiva do Japão na Ásia e insistem que foram vítimas", disse Richard Samuels, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts que escreveu algumas das obras mais instigantes sobre os militares japoneses e as culturas pré e pós-guerra que os cercaram.

"Para eles, a visita de Obama será uma oportunidade de reiterar que tinham razão."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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