O estranho limbo sem fim de Hosni Mubarak

Declan Walsh e Nour Youssef

No Cairo (Egito)

  • Reuters

De muitas formas, a vida não é muito ruim para o líder deposto do Egito, Hosni Mubarak. No hospital do Cairo que chama de lar, ele desfruta de entregas regulares de flores, jornais e refeições de restaurantes; visitas de sua mulher, dois filhos e netos, além de contar com uma ampla vista do Nilo.

Para celebrar recentemente seu 88º aniversário, uma multidão de simpatizantes se reuniu nos portões do hospital e cantou, dançou e acenou com retratos dele. Mubarak abriu uma janela e acenou em resposta.

Entretanto, o único luxo que Mubarak não dispõe é o direito de simplesmente sair do hospital, o que é uma espécie de enigma. Em maio do ano passado, um juiz decretou que Mubarak completou sua pena de três anos de prisão por corrupção, o único processo bem-sucedido contra o antigo homem forte desde sua derrubada turbulenta em 2011. Tecnicamente, ele era um homem livre.

Mas Mubarak permanece confinado no quarto de hospital que também serviu como sua cela nos últimos três anos, com um guarda posicionado à sua porta. Seu limbo legal prossegue ao mesmo tempo em que muitos de seus antigos aliados, homens que enriqueceram fabulosamente durante suas três décadas de governo, estão discretamente fechando acordos com o governo para anular suas condenações.

O antigo advogado de Mubarak, Farid el-Deeb, recusou os pedidos de entrevista. Mas vários dos amigos de Mubarak, incluindo aqueles que o visitam no hospital, explicam a situação como um acordo delicado entre ele e os poderosos militares do Egito.

Eles dizem que, em geral, os militares têm sido lenientes com as figuras da era Mubarak desde que o presidente Abdel-Fattah el-Sissi chegou ao poder em 2013, mas desejam evitar os prováveis protestos que ocorreriam em caso de uma soltura de Mubarak. Assim, os dois lados chegaram a um acordo: Mubarak concorda em permanecer no hospital por ora e o governo concorda que seus dois filhos, Alaa, um empresário, e Gamal, antes visto como seu herdeiro político, permaneçam livres. Ambos foram soltos da prisão no ano passado.

"O ponto fraco dele é seus dois filhos", disse Yousri Abdelraziq, um advogado voluntário de Mubarak. "E sempre que ele fala em público, as autoridades ficam irritadas."

O limbo legal de Mubarak é um reflexo da posição curiosa que ele ocupa na vida pública egípcia, cinco anos após os protestos que colocaram fim ao seu longo governo. Muitos egípcios ainda o desprezam como símbolo da repressão e do clientelismo desenfreado que atormentaram o Egito por décadas. Sua prisão é uma das últimas vitórias remanescentes para os líderes dos protestos de 2011, muitos dos quais agora se encontram nas prisões de El-Sissi.

Mas outros passaram a olhar para o governo de Mubarak com uma pontada de nostalgia amarga, como um tempo de relativa liberdade em comparação ao duro autoritarismo do governo de El-Sissi.

"É claro que Mubarak era corrupto, mas ele sabia ouvir bons conselhos", disse Osama Biab, um pesquisador anticorrupção da Iniciativa Egípcia para Direitos Pessoais, um proeminente grupo de direitos no Cairo. "Agora é um desastre. Mubarak era um ditador competente; Sissi não é."

À medida que o ressentimento em relação a Mubarak parece estar diminuindo, o mesmo ocorre com seus problemas legais.

As humilhações de 2012 e 2013, quando foi forçado a se sentar em uma jaula no tribunal, praticamente ficaram para trás. Ele evitou processo pelas acusações mais graves, como as mortes de manifestantes em 2011, e agora será julgado novamente em um caso final. Há pouca perspectiva de ele voltar ao tribunal tão cedo, dizem os advogados.

Em vez disso, Mubarak está deixando os dias passarem no Hospital Militar Maadi, um complexo elevado com vista para o Nilo. Os funcionários de lá dizem que ele vive sob um regime firme, mas permissivo. A segurança é rígida e todos os visitantes precisam ser autorizados pelo Ministério da Defesa, disse um guarda. Ele conversa pelo celular (ele tem um velho modelo Nokia sem acesso à internet) e ocasionalmente recebe um barbeiro, que tinge seu cabelo. Os enfermeiros às vezes o veem andando com dificuldade pelos corredores, como parte da terapia para a fratura na bacia que sofreu em uma queda no banheiro em 2013.

Mubarak recebe com frequência recebe flores de admiradores e visitas de sua mulher, Suzanne, seus filhos e netos, além de um círculo restrito de admiradores ardorosos. Eles dizem que o humor dele alterna entre bom e amargurado, descrevendo um homem que despreza os aliados que o abandonaram, desdenha os manifestantes jovens que o derrubaram e em grande parte não se arrepende de seus 29 anos no poder.

"Ele se sente traído", disse Hassan Ghandour, um ex-membro da Guarda Republicana que é amigo de Mubarak. "Quando ele vê críticos na TV que antes o bajulavam, isso o deixa muito irritado."

O Hospital Militar Maadi já foi palco de outros dramas políticos. Em 1980, o xá do Irã morreu lá, no andar abaixo de onde se encontra Mubarak, após ter fugido para o Egito por causa da revolução no Irã. No ano seguinte, o próprio governante do Egito, Anwar Sadat, foi levado às pressas ao hospital após ser baleado por oficiais islamitas em uma parada militar. Ele morreu horas depois, abrindo o caminho para que Mubarak assumisse o poder.

Mubarak é consciente de seu próprio legado, disse Abdelraziq, o advogado, e ficou "incomodado" por ter sido condenado por corrupção. Ele conseguiu voltar aos holofotes no ano passado, após dar uma rara entrevista de 15 minutos, mesmo que nada reveladora, por telefone para um talk show de televisão. Logo depois, a segurança em seu quarto foi reforçada.

Desde que El-Sissi assumiu o poder em 2013, o governo e os tribunais passaram a demonstrar mais leniência com as figuras poderosas da era Mubarak, os magnatas empresariais, ministros e seus comparsas, agora exonerados ou soltos da prisão, ressaltando os limites das mudanças no Egito desde 2011.

No caso mais recente, em 4 de maio, um tribunal de apelações suspendeu uma sentença de cinco anos por corrupção contra Ahmed Nazif, que serviu como primeiro-ministro sob Mubarak de 2004 a 2011. Outros estão buscando comprar sua liberdade com pagamentos em dinheiro.

Um advogado de Hussein Salem, um empresário bilionário e confidente de Mubarak que fugiu para a Espanha em 2011, concordou em transferir 75% de sua riqueza (5,5 bilhões de libras egípcias, cerca de R$ 2,2 bilhões), em troca da anulação de duas condenações, com sentenças de sete a 15 anos.

"De nossa parte, o acordo está fechado", disse o advogado, Mahmoud Kebaish. "Agora estamos aguardando pelo governo."

Adel el-Saeed da Autoridade de Ganhos Ilícitos, que cuida desses casos, disse que recebeu mais de 30 pedidos de acordo por parte de empresários e ex-autoridades ligadas a Mubarak.

Outro funcionário da Autoridade de Ganhos Ilícitos disse que Mubarak também espera fechar um acordo, oferecendo cerca de US$ 10 milhões em troca da anulação de sua condenação por corrupção. O pedido dificilmente terá sucesso e poucos acreditam que Mubarak irá tão cedo para sua mansão em Sharm el-Sheikh. Mas fora uma soltura plena, ele pode estar buscando moldar seu legado e anular a condenação, para que o Estado restaure suas honras militares e lhe assegure um funeral de chefe de Estado.

"O que importa agora sobre Mubarak é como ele entrará para a história", disse Diab, o pesquisador. "Quando ele morrer, a luta será sobre ser será um ladrão ou um herói militar, se foi o responsável pelo caos atual no Egito ou se salvou país até ser derrubado."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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