Autoridades mexicanas se mexem para combater a 'emergência Trump'

Kirk Semple

Na Cidade do México (México)

  • Lucy Nicholson/Reuters

Vicente Fox, o ex-presidente do México, estava recentemente preso no trânsito da Cidade do México, altamente frustrado, não com o congestionamento, mas com algo que o estava irritando ainda mais: Donald J. Trump. Ele pegou seu telefone, voltou a câmera para si mesmo e começou a gravar. 

"Ha! Donald", disse Fox, talvez segurando o telefone perto demais do seu rosto. "E quanto aos pedidos de desculpas ao México, aos mexicanos nos Estados Unidos, aos mexicanos no México?" 

Logo, o vídeo de 15 segundos foi postado na conta de Fox no Twitter, outro disparo em uma campanha pessoal contra o candidato presidencial americano, que incluiu aparições na televisão, entrevistas para rádio e uma fuzilaria de postagens duras no Twitter. 

A voz de Fox faz parte de um coro crescente, apesar de não coordenado, de mexicanos influentes preocupados com o que uma vitória de Trump poderia significar para o relacionamento complexo entre os Estados Unidos e o México, sem contar o efeito já causado pela candidatura presidencial de Trump. 

As vozes já incluem pelo menos dois ex-presidentes mexicanos, importantes autoridades do governo, analistas políticos, acadêmicos, autores de editoriais e figuras culturais. 

O presidente Enrique Peña Nieto comparou a linguagem do candidato à de Hitler e Mussolini em uma entrevista para o jornal "Excelsior" do México. E recentemente alterou seu corpo diplomático nos Estados Unidos, substituindo o embaixador do país em Washington e nomeando novos cônsules por todo o país, em parte para reforçar a resposta de seu governo à ascensão de Trump e como isso reflete o sentimento americano em relação ao México. 

Apesar de muitos líderes de todo o mundo estarem preocupados em como a campanha de Trump, independente dele vencer ou não, moldará a política externa americana, as preocupações são particularmente acentuadas no México e por toda a diáspora mexicana, por causa dos estreitos laços geográficos, econômicos, demográficos e culturais entre os dois países. 

Os dois países desfrutam no momento de um dos períodos mais harmoniosos em uma história turbulenta. Mas muitos no México temem um rompimento da amizade caso Trump vença a eleição e cumpra sua ameaça de desfazer o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, forçar o México a pagar pela construção de um muro entre os dois países ao suspender as remessas de dinheiro e deportar os estimados 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, aproximadamente metade deles mexicanos. 

"A ameaça dele é cataclísmica para o México, eu acho", disse Enrique Krauze, um historiador mexicano e editor de uma revista literária, em uma entrevista. "O que significaria para o acordo bilateral, em termos sociais, na separação de famílias, no trauma, o pânico coletivo, a abertura de velhas feridas." 

Ele acrescentou: "Eu posso usar uma das palavras favoritas de Trump. Sim, isto é imenso. É um risco imenso". 

Os críticos mexicanos de Trump dizem que ele difamou o país deles e o povo mexicano ao expor pontos de vista que muitos consideram xenofóbicos. Em um comício para lançar sua campanha em junho, o candidato republicano sugeriu que muitos imigrantes mexicanos eram traficantes de drogas e estupradores. 

As autoridades mexicanas, preocupadas com as impressões negativas do México nos Estados Unidos, estão implantando uma estratégia para melhorar a imagem de seu país e mostrar como o relacionamento entre os dois países tem sido de "benefício mútuo", disse Paulo Carreño, o recém-nomeado subsecretário para a América do Norte do Ministério das Relações Exteriores do México. 

A estratégia inclui a "diplomacia cultural", ativismo de base e o uso da comunidade mexicana e dos líderes empresariais que vivem nos Estados Unidos, ele disse. 

Como parte da estratégia, o governo Peña Nieto mudou no mês passado seu corpo diplomático nos Estados Unidos: o embaixador mexicano em Washington, Miguel Basáñez Ebergenyi, que ocupava o cargo há menos de um ano, foi substituído abruptamente por Carlos Sada Solano, um diplomata veterano. Além disso, 26 consulados tiveram mudança de comando. 

Uma declaração do Ministério das Relações Exteriores anunciando a nomeação de Sada enfatizou sua experiência em "proteger os direitos dos mexicanos na América do Norte, assim como defender os interesses mexicanos no exterior". 

Além disso, algumas importantes autoridades mexicanas reagiram publicamente a Trump, incluindo Humberto Roque Villanueva, o subsecretario para população, migração e assuntos migratórios do Ministério do Interior. Ele disse ao jornal "El Universal" neste mês que o governo mexicano está estudando "como enfrentar o que chamaríamos de emergência Trump".

"Acredito que o sr. Trump fala sem pensar e não tem uma ideia clara de assuntos financeiros ou acordos internacionais", ele acrescentou. "Nós vivemos em um mundo globalizado. Os Estados Unidos teriam que voltar a uma espécie de Idade Média para proibir remessas de dinheiro ou cobrar tarifas não cobradas em outras partes do mundo." 

Em geral, o governo tem evitado comentar sobre o candidato. Isso frustra muitos mexicanos, que pedem que o governo saia em defesa do México e reaja a Trump de forma mais vigorosa. 

"Eles podem tratar disso da forma absurda tradicional mexicana: nós não interferimos em eleições", disse Jorge Castañeda, um ex-ministro das Relações Exteriores. "O verdadeiro motivo é que eles não sabem o que fazer, então a opção padrão é não fazer nada." 

Em vez do governo, grande parte da agitação mexicana contra Trump vem da população em geral. No início de sua campanha, muitos mexicanos viam Trump com uma mistura de alarme e divertimento. Mas o divertimento já passou. 

"Por que deveríamos nos preocupar?" perguntou Krauze, de forma retórica. "Não consigo pensar em um motivo para não nos preocuparmos." 

Em novembro, Krauze e Carmelo Mesa-Lago, um professor emérito de economia e estudos latino-americanos da Universidade de Pittsburgh, escreveram uma carta condenando a campanha de Trump, que foi assinada por 67 latinos proeminentes, acadêmicos, cientistas, escritores e cineastas nos Estados Unidos, Espanha e América Latina. 

"Seu discurso de ódio apela às paixões mais baixas como xenofobia, machismo, intolerância política e dogmatismo religioso", dizia a carta. 

Nos últimos meses, Castañeda tem promovido uma campanha pró-México pelas redes sociais com o hashtag #ImProudToBeMexican (Tenho Orgulho de Ser Mexicano). Voltado para um público americano de língua inglesa, ele postou vídeos no Facebook e em um site de campanha exaltando a diversidade da diáspora mexicana e suas contribuições aos Estados Unidos. 

Explicando o foco americano desse lobby, ele disse: "Não quero convencer os mexicanos de quão nojento Trump é, porque todos já sabem. Não é preciso". 

As críticas constantes de Fox a Trump tiveram início em fevereiro, quando ele declarou em uma entrevista de televisão, usando uma palavra de baixo calão, que os mexicanos não construiriam o muro proposto pelo candidato. Ele então deu início a uma escalada, repreendendo Trump com uma linguagem que às vezes degradava em grosseria de pátio de escola. 

 

Ele chamou o candidato de "falso profeta", "ditador" e "perdedor". Ele postou uma selfie, tirada tendo como fundo uma praia, com esta mensagem: "Trump, esta é a bela Cancún. VOCÊ NÃO É BEM-VINDO AQUI". Ele postou fotos da festa de aniversário de sua esposa, provocando Trump: "O que é que você sabe sobre amor? Você só conhece ódio. Que triste!" 

Neste mês, Fox expressou arrependimento por alguns de seus comentários em uma entrevista para a "Breitbart News" e pediu desculpas a Trump. Mas em meio à reação dos mexicanos nas redes sociais e em outras partes, o acusando de fraqueza, ele voltou a atormentar, postando fotos nas redes sociais de uma gravata da marca Trump feita na China e de uma jaqueta Trump feita no México, evidência, segundo ele, da hipocrisia do candidato. 

Fox disse em uma entrevista por telefone, de sua casa no Estado de Guanajuato, que foi motivado a atacar Trump pelo que chamou de "puro amor por essa grande nação, os Estados Unidos".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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