Barrados pela UE, afegãos se tornam "os refugiados entre os refugiados"

May Jeong*

Em Cabul (Afeganistão)

  • Shah Marai/AFP

    30.mai.2016 - Crianças em campo de refugiados internos em Cabul

    30.mai.2016 - Crianças em campo de refugiados internos em Cabul

Os governos europeus dizem que a guerra no Afeganistão acabou, mas os afegãos estão partindo em números recordes

Quando Ahmad foi deportado da Turquia no início deste ano, ele passou a viver sob uma ponte chamada Pul-i-Sokhta, no oeste da cidade. A ponte, que atravessa um leito de rio seco, é ponto de encontro não oficial de viciados em drogas há anos. Mas recentemente, homens como Ahmad, homens que gastaram tudo que tinham no Afeganistão pela chance de algo melhor em outro lugar, homens que foram traídos pela sorte e foram forçados a voltar, estão se reunindo aqui, para fumar, se drogar, roubar e mendigar. 

Em uma visita certa tarde no mês passado, foi preciso algum tempo para que meus olhos se adaptassem à escuridão sob a ponte. Então eu vi os corpos espalhados sobre outros corpos sobre ilhas de lixo. Entre os montes de homens arruinados, fluíam filetes de água contendo lixo e excremento. Ahmad (ele não disse seu sobrenome) imagina que aproximadamente metade dos cerca de 200 moradores de Pul-i-Sokhta sejam deportados recentes. 

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), havia mais de 3,8 milhões de refugiados afegãos em 2001. Esse número caiu em meados dos anos 2000, um momento de esperança resultante da presença das forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) no Afeganistão. Mas à medida que a situação da segurança começou a deteriorar, o número de refugiados inchou de novo, chegando a cerca de 2,6 milhões no último trimestre de 2015. 

A maioria dos afegãos foge para os vizinhos Paquistão e Irã, mas cada vez mais eles também seguem mais para o oeste. Mais de 178 mil afegãos pediram asilo na Europa em 2015, quase quatro vezes o número do ano anterior, segundo estatísticas da ONU. 

Cerca de 5,8 milhões de afegãos retornaram voluntariamente ao Afeganistão desde 2002, sob um programa de repatriação da Acnur. Mas muitos também foram forçados a voltar: no ano passado, quase 260 mil afegãos sem documentos foram deportados apenas do Paquistão e do Irã. 

A reintegração pode ser tão difícil que a grande maioria dos afegãos enviados de volta parte de novo em até dois anos, como me disse Abdul Ghafoor, o chefe da Organização de Orientação e Apoio aos Migrantes Afegãos, no mês passado em Cabul. 

Quando Ahmad partiu pela primeira vez há uma década, ele seguiu para Londres, onde esperava "trabalhar e enviar dinheiro para casa, até mesmo estudar". Essa viagem lhe custou US$ 1.500, uma fortuna para sua renda de alfaiate. Ele conseguiu chegar até a Grécia, antes de ser pego pela polícia de fronteira e enviado de volta ao Afeganistão. 

Ele partiu de novo, de novo e de novo. Toda vez era enviado de volta. Em casa, ele trabalhava 16 horas por dia para economizar para o preço cada vez mais alto cobrado pelos contrabandistas e então partia de novo. 

A mais recente deportação de Ahmad fez a balança pender para o fatalismo. "Desta vez, eu realmente perdi a esperança. Não há nada em nenhum lugar para mim", ele disse, com um cachimbo de vidro em sua orelha direita. 

Do outro lado da ponte, em um escritório subterrâneo vazio, um homem obeso e corado que disse se chamar Humayoon me disse que trabalha como contrabandista há 25 anos. Ele se gabou de que os negócios nunca estiveram melhores. Sua rede emprega 70 homens, ele disse, e cada um ganha US$ 100 mil por ano. Todo mês, a operação transporta 150 afegãos para a Europa. Ele disse conhecer outras 50 redes que fazem o mesmo. 

Em setembro, a União Europeia anunciou que receberia apenas refugiados da Eritreia, Iraque e Síria. Neste ano, o governo britânico disse que começaria a deportar os requerentes de asilo afegãos cujos pedidos foram negados. 

Eu perguntei a Humayoon se o recente acordo entre a União Europeia e a Turquia, que visa coibir a imigração ilegal para a Europa, conteria o fluxo de refugiados. "O caminho está sempre fechado", ele disse rindo, "mas sempre há um caminho". 

Ao fechar a rota pelos Bálcãs (de Nimroz para a Itália, via Irã, Turquia e Grécia), as novas regulamentações da UE apenas estão colocando os imigrantes em jornadas mais perigosas, segundo Sebqadullah Omidi, um agente de viagens em Cabul, que me disse que recebe regularmente chamadas de clientes perguntando sobre itinerários alternativos. 

Independente de a situação no Afeganistão no momento ainda ser formalmente considerada como guerra, independente de chamá-los de imigrantes ou refugiados, os homens e mulheres que estão partindo do Afeganistão o fazem devido à insegurança, como ocorre há anos. 

No norte de Cabul, outro Ahmad, este um oficial do exército, explicou por que ele e seu irmão, também um soldado, partiram para a Alemanha no ano passado. Ahmad e sua família são pashtuns, e quando seis deles se mudaram para Cabul de sua aldeia natal em Kandahar, poucos anos atrás, eles optaram por viver em um condomínio fechado com outros pashtuns. Mas os pashtuns são a base tradicional do Taleban, de modo que isso também significava viver entre pessoas ligadas aos insurgentes ou os próprios insurgentes. 

A família da Ahmad se acostumou a tolerar a hostilidade dos vizinhos. Mas então, certo dia, Ahmad emprestou seu carro a um amigo, e este foi morto a tiros enquanto dirigia. Ahmad e seu irmão soldado partiram para a Alemanha logo depois disso. 

A viagem custou US$ 14 mil a cada um, ou cerca de quatro anos de salários. Ela levou quase um mês para ser concluída. Eles se alimentavam apenas com uvas passas e amêndoas durante as muitas caminhadas. Eles entraram na Bulgária escondidos em um rebanho de vacas. Dali, caminharam até a Sérvia. Então tomaram um ônibus para a Áustria e um trem para a Alemanha. 

O que Ahmad encontrou na Alemanha o desanimou: um advogado lhe disse que seu pedido de asilo levaria anos para ser processado, e enquanto isso não poderia trabalhar. Ele teve dificuldade para aprender alemão. Diante da perspectiva de viver confinado em um campo, Ahmad voltou para o Afeganistão com seu irmão neste ano e se reapresentou para servir como comandante de pelotão. 

Logo depois, um irmão mais novo foi parado a caminho da escola e ordenado a transmitir uma mensagem: "Diga aos seus irmãos para abandonarem o Exército. Caso contrário, da próxima vez sequestraremos você". 

Ahmad me contou essa história no mês passado na casa de sua família, sentando em uma sala de estar com lambris elaborados, cercado por retratos de homens fardados com cortes de cabelo militares. "Não podemos nem mesmo sair para comprar pão sem uma arma", ele disse. 

Mas o presidente Ashraf Ghani vem tentando transmitir uma mensagem de vitória: em uma conferência regional em dezembro, ele disse que as Forças de Segurança e Defesa Afegãs "não apenas permaneceram unidas", como "estão aprendendo rapidamente". Ele precisa expor a trajetória recente do Afeganistão como uma história de esperança e não de medo, para poder reivindicar sucesso para seu governo sitiado. O mesmo vale para os governos ocidentais, que gastaram milhões de dólares aqui.

Mas 2015 foi o ano mais mortífero para os civis afegãos desde 2009, o ano em que a ONU deu início a uma documentação sistemática. Segundo a Acnur, retornos voluntários "atingiram baixas históricas" durante o primeiro trimestre de 2016, em parte por causa do agravamento da segurança. 

"Kunduz caiu no norte; ela pode cair de novo", me disse Hussain Alimi Balkhi, o ministro dos refugiados afegão e uma rara autoridade a discordar da posição oficial de Ghani, no mês passado. "O Daesh (nome pejorativo em árabe do Estado Islâmico) está decapitando homens em Jalalabad, a apenas duas horas ao leste de Cabul. Há combates em Helmand. Há combates em Uruzgan." 

É uma escolha racional para os afegãos querer deixar tudo isso para trás. Mas o governo Ghani e os governos europeus não podem permitir: o fato de os afegãos estarem mais desesperados do que nunca para deixar o país é um lembrete muito forte das muitas formas com que o Ocidente fracassou no Afeganistão. 

*(May Jeong é uma repórter free-lance baseada em Cabul.)

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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