Com agendas distintas, milícias avançam para enclave do EI na Líbia

Declan Walsh

No Cairo (Egito)

  • Goran Tomasevic/Reuters

    Militantes de Misrata (terceira maior cidade da Líbia) atiram contra membros do Estado Islâmico, perto de Sirte

    Militantes de Misrata (terceira maior cidade da Líbia) atiram contra membros do Estado Islâmico, perto de Sirte

Combatentes alinhados ao governo de união da Líbia apoiado pela ONU estão avançando pela costa do Mediterrâneo em direção ao enclave do Estado Islâmico em Sirte, indicando o primeiro grande ataque ao território que desde o ano passado se tornou a maior base do grupo terrorista fora do Iraque e da Síria.

Duas forças milicianas diferentes lutaram a caminho da cidade nos últimos dias, movendo-se do leste e do oeste, aparentemente em ataques descoordenados que reduziram a extensão do litoral líbio controlada pelo EI de cerca de 240 km para 160 km. Na última quarta-feira (1º), uma das milícias afirmou ter tomado o controle da usina de energia de Sirte, a 32 km a oeste da cidade.

Essas vitórias ocorreram em áreas pouco povoadas, e não ficou claro se as milícias tinham força ou vontade suficientes para entrar em Sirte, que é considerada uma fortaleza e também abriga milhares de combatentes estrangeiros. Mas o avanço sinalizou um novo problema para o EI, num momento em que o grupo sofre ataques coordenados em Fallujah, no Iraque, e em partes da Síria.

Analistas e diplomatas advertem que, embora essa ofensiva vise a maior preocupação do Ocidente na Líbia, também corre o risco de desestabilizar o frágil esforço de paz ao promover uma concorrência violenta entre grupos rivais.

"Apenas um ano atrás esses dois grupos batalhavam pelo controle do chamado crescente do petróleo, disparando foguetes e morteiros entre si", disse Frederic Wehrey, um especialista em Líbia na Fundação Carnegie para a Paz Internacional que visitou recentemente o país. "Agora eles estão convergindo para um inimigo comum, mas o grande temor é o que virá depois."

No último ano, Sirte, a cidade natal do ditador líbio deposto Muammar Gaddafi, tornou-se uma preocupação para os países ocidentais, pois poderia se tornar um refúgio para militantes em fuga do Iraque e da Síria. Os combatentes do EI exerceram um controle brutal na cidade, com execuções e açoitamentos públicos, além da falta de alimentos e remédios.

Desde o final de 2015, pequenos grupos de forças de operações especiais americanas, britânicas e francesas se mobilizaram silenciosamente pela Líbia, fazendo contato com milícias líbias amigáveis na tentativa de obter informações sobre o EI.

Em fevereiro, o Pentágono apresentou à Casa Branca um potencial plano de ataques aéreos extensos contra os acampamentos, centros de comando e depósitos de munição do grupo militante na Líbia.

Mas o presidente Barack Obama foi comedido e limitou a ação aberta dos EUA a ataques esporádicos contra alguns alvos do EI, na tentativa de permitir que um processo de paz liderado pela ONU se enraíze na Líbia. Essa iniciativa, porém, falhou redondamente porque o governo de união, que chegou à capital, Trípoli, em março, não obteve ampla aceitação política.

Agora, com o súbito movimento contra o EI, a ação militar em terra está avançando mais depressa do que a emaranhada política do país.

A usina de energia onde houve combates na quarta-feira é um prêmio importante, porque sua perda para o EI em junho passado foi vista como um passo significativo na dominação da região de Sirte pelo grupo.

O ataque foi instigado por milícias de Misrata, uma poderosa cidade comercial no litoral, a oeste, em reação aos ataques do EI. Dezenas de combatentes de Misrata morreram nas últimas semanas, segundo reportagens na mídia líbia.

Não está claro se forças estrangeiras estão tendo um papel direto na ofensiva.

No "Times" de Londres na semana passada, uma reportagem de Misrata citou um comandante local que disse que soldados das forças de operações especiais britânicas haviam disparado um míssil para destruir um caminhão do EI cheio de explosivos durante uma batalha no início de maio. Autoridades da Defesa britânica não comentaram o relato.

Em abril, um porta-voz do Pentágono disse que o pequeno grupo de forças de operações especiais dos EUA mobilizado na Líbia --cerca de duas dúzias de tropas que operam perto de Misrata e Benghazi-- estiveram principalmente envolvidos na obtenção de informações e em reconhecimento.

Enquanto se desenrolavam os dois prolongados ataques ao território do EI, vários analistas indicaram o papel do novo ministro da Defesa do governo de união, Almahdi Al-Barghathi, que vem tentando colocar as facções militantes rivais sob um comando central, o qual poderia se tornar um Exército nacional.

Mas tais esforços estão sendo frustrados pelas rivalidades tribais e pessoais que canalizaram o caos à Líbia desde a queda de Gaddafi em 2011.

"Essas forças não têm capacidades cruciais", disse Wehrey sobre os dois grupos. "Uma coisa é repelir o EI para as aldeias e cidades próximas, e outra é libertar Sirte."

A cidade costeira é considerada o lar da maioria dos combatentes do EI na Líbia, cujo número é estimado entre 3 mil e 6.500.

Autoridades ocidentais dizem que qualquer grupo que ataque Sirte provavelmente enfrentará homens-bombas, minas nas estradas e a resistência de combatentes com poucas vias de escape. Estima-se que dois terços da população da cidade já tenham fugido.

De maneira mais ampla, há o perigo de aprofundar as divisões entre Oriente e Ocidente na Líbia. Uma autoridade ocidental que visitou recentemente o país disse que o clima político na Líbia se tornou cada vez mais confrontante durante os últimos meses, na medida em que a ONU, agindo sob pressão dos EUA e seus aliados, se esforçou para conquistar aceitação para o governo de união.

O ataque a Sirte poderá isolar ainda mais o general Khalifa Hifter, um poderoso comandante de milícia na cidade oriental de Benghazi, que resistiu com determinação a todos os estímulos para aderir ao governo de união. Algumas semanas atrás, ele se vangloriou de que expulsaria o EI de Sirte.

Em um sinal dessas divisões, a filial oriental do banco central do país anunciou esta semana que imprimiu 4 bilhões de dinares líbios por meio de uma empresa na Rússia, atraindo uma reação furiosa do banco central principal, em Trípoli.

Na quarta-feira, o banco de Trípoli indicou o recebimento de sua própria remessa de dinheiro novo, que, segundo autoridades, foi produzido pela imprensa tradicional de moeda líbia, no Reino Unido.

Relembre a crise na Líbia em fotos
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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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