Detestado por muitos russos, Gorbatchov ainda tem muito a dizer

Neil MacFarquhar

Em Moscou (Rússia)

  • Odd Andersen/AFP

Nos últimos meses, várias figuras públicas proeminentes, incluindo pelo menos um associado próximo do presidente Vladimir Putin, têm insistido para que a Rússia proclame oficialmente Mikhail S. Gorbatchov como sendo um criminoso, por ter encorajado o colapso da União Soviética. 

Alguns exigem regularmente que Gorbatchov seja julgado pelos eventos, no mínimo, como colocou um membro do Parlamento, para expor as operações de uma "quinta coluna" dentro da Rússia. 

Mas quando os organizadores da festa de 85º aniversário de Gorbatchov, em março, contataram o Hotel Ukraine para a realização de um banquete, seus proprietários recusaram pagamento, depois que souberam que o homenageado era o ex-líder. 

"Eles disseram que sem Gorbatchov eles teriam terminado como pequenos comerciantes, criminosos vivendo de contrabando", disse Alexei Venediktov, um amigo próximo e editor-chefe da emissora de rádio "Eco de Moscou", o principal veículo de notícias dos russos liberais. "Eles disseram: 'Agora somos proprietários de tudo isto graças a Gorbatchov! Não de apenas um kopeck (0,01 rublo)!'" 

Em uma entrevista, Gorbatchov deu de ombros ao fato de que 25 anos após o colapso da União Soviética, ele continua sendo uma das pessoas mais detestadas na Rússia. 

"É a liberdade de expressão", ele disse. 

Mas a posição oficial denegrindo a democracia tradicional, combinada com a própria ideia de que ele deveria ser julgado, obviamente o irritam, de modo que ele escreve artigos, ensaios e livros sobre a necessidade de aumentar a liberdade na Rússia. Seu mais recente esforço, chamado "The New Russia" (A Nova Rússia, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil), foi lançado nos Estados Unidos no final de maio. 

Também há grande admiração por ele entre os russos, é claro. Alguns o adoram por promover a "perestroika", ou reestruturação, combinada com a "glasnost", ou abertura, que juntas ajudaram a eliminar as piores repressões do sistema comunista. Gorbatchov liderou o caminho, mesmo que de forma hesitante, para a liberdade de expressão, livre empresa e fronteiras abertas. 

"Alguns o adoram por trazer a liberdade, outros o odeiam por trazer a liberdade", disse Dmitri Muratov, editor da "Novaya Gazeta", um dos poucos jornais independentes restantes e um do qual Gorbatchov tem 10% de participação acionária. 

A sociedade em geral o culpa pela perda do império soviético e por torná-los cidadãos de um país de segunda classe, mesmo que os indivíduos reconheçam que ele abriu novos horizontes para eles e seus filhos. 

"A sociedade não gosta dele; ele é o anti-Putin", disse Venediktov. "Putin é o construtor e ele é desconstrutor." Ele considera injusta essa percepção. 

Na entrevista, disse Gorbatchov, "eu continuo dizendo que a Rússia precisa de mais democracia". A entrevista de uma hora ocorreu em sua fundação cada vez menor, onde seu escritório é dominado por uma pintura a óleo de sua esposa, Raisa, que morreu de leucemia em 1999. 

"Nós ouvimos declarações, até mesmo de pessoas próximas de Putin, que enfatizam o autoritarismo, que enfatizam determinação e que sugerem que a democracia só será possível em um futuro distante", disse Gorbatchov. "Acredito que a democracia precisa estar firmemente enraizada, ser baseada em eleições, as pessoas devem ter a chance de eleger líderes em intervalos regulares. Acho que isso é o que precisamos. Essa é a base para a estabilidade na política externa e doméstica." 

Em seus anos crepusculares, Gorbatchov se tornou uma figura isolada. A maioria de seus contemporâneos está morta. Ele é crítico o bastante sobre a falta de democracia sob Putin que os canais estatais de televisão o evitam. Sua morte já foi anunciada mais de uma vez. 

"Ele começou a sofrer do mesmo mal que já sofri: excesso de autoconfiança", disse Gorbatchov na ocasião. "Ele se considera vice-Deus, mas não sei do quê." 

Ele e outros listaram vários motivos para abafar suas críticas. Primeiro, Gorbatchov não desfruta de imunidade contra processos, e, assim como muitos críticos do governo, sente um crescente desconforto à medida que o Kremlin reduz as liberdades civis. Ele disse temer ser declarado um "agente estrangeiro", um rótulo stalinista ressuscitado que basicamente significa "espião", e que está sendo usado no momento para fechar dezenas de organizações da sociedade civis. 

"Há um bocado de pessoas de mentalidade reacionária neste país que já estão me declarando como sendo um agente estrangeiro. Eles acham que eu trabalho para alguém", ele disse. É uma declaração e tanto para um homem que, caso não tivesse mudado nada, ainda poderia ser o líder supremo da União Soviética, já que a tendência dos líderes anteriores era governar por toda a vida. 

Segundo, ele atribui a maioria dos males políticos e econômicos que afligem a Rússia como legado de seu odiado arquirrival, o ex-presidente Boris Yeltsin, por ter dado a Putin carta branca para a correção necessária. 

Terceiro, ele concorda com Putin em muitas questões, particularmente na política externa. Ele apoiou a retomada da Crimeia por Moscou, por exemplo, considerando legítimo o referendo público (apesar de ter sido realizado sob mira de armas). Essa posição fez com que fosse proibido de entrar na Ucrânia por cinco anos. 

Como homem responsável por colocar um fim à Guerra Fria, Gorbatchov se sente traído pelo Ocidente (e em particular pelos Estados Unidos) por este ter se passado como vitorioso e tratado a Rússia como um servo demitido, trazendo as forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) e a União Europeia até suas fronteiras. 

"Havia um sentimento de triunfalismo ao final da Guerra Fria que foi compartilhado por muitos americanos", ele disse. "Esse foi o início do colapso de tudo." 

Mas ele diverge de Putin em assuntos domésticos, mesmo com ele mantendo Yeltsin no primeiro plano. 

Gorbatchov e Yeltsin eram rivais de longa data que adoravam humilhar um ao outro. Gorbatchov parabeniza a contragosto Yeltsin por sua intervenção para impedir o golpe que tentou derrubar sua presidência em 1991, mas uma nota baixa para o restante de seu caótico mandato, que deu má reputação à democracia na Rússia. 

"Eu ainda não entendo por que Yeltsin é considerado um herói nos Estados Unidos, quando na verdade era autoritário", disse Gorbatchov em sua maior demonstração de emoção, dando um tapa em sua mesa. 

Atualmente, Gorbatchov viaja pouco, dividindo seu tempo entre seu escritório e uma casa de campo. Ele considera a morte de Raisa sua "maior perda". Ele está mais gordo e sua famosa marca de nascença está menos proeminente. Apesar de visitas ocasionais ao hospital, ele ainda bebe vodca com os amigos. 

Muratov disse que eles com frequência repetem a mesma piada, baseada na infame campanha de Gorbatchov para reduzir o consumo de álcool: 

Dois homens estão em uma longa, longa fila para vodca provocada pela oferta limitada. Um pede para que o outro guarde seu lugar na fila, porque precisa ir até o Kremlin para dar um soco em Gorbatchov por sua política antiálcool. Ele volta muitas horas depois e seu amigo lhe pergunta se conseguiu dar o murro em Gorbatchov. "Não", responde o homem em desalento. "A fila no Kremlin era ainda maior." 

Várias pessoas entre os 300 convidados da festa de aniversário em março fizeram brindes a Gorbatchov. Os embaixadores dos Estados Unidos, Alemanha, França e Israel o parabenizaram separadamente por tornar o mundo um lugar mais estável, mais pacífico. 

Um editor da rádio "Eco de Moscou", Sergei Buntman, fez um brinde irônico ao dizer que Gorbatchov arruinou a existência tranquila de todos. 

Venediktov teria sido um estimado professor escolar em vez do controverso chefe de uma emissora popular de rádio, disse Buntman, enquanto Putin teria sido um respeitado tenente-coronel da KGB, em vez de alvo de críticas em todo o mundo. "Você arruinou nossas vidas", brincou o editor.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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