Depoimento: Virei "terrorista" por cobrir os dois lados da guerra na Ucrânia

Andrew E. Kramer

  • Genya Savilov/AFP

    30.05.2015 - Ucraniano dispara um lançador de granadas na linha da frente do combate contra os separatistas pró-russos perto de Donetsk, no leste da Ucrânia

    30.05.2015 - Ucraniano dispara um lançador de granadas na linha da frente do combate contra os separatistas pró-russos perto de Donetsk, no leste da Ucrânia

Tive armas apontadas contra mim, dormi em um contêiner de navio e caminhei entre os cadáveres de vítimas de morteiros desde que começou a insurgência separatista no leste da Ucrânia, há dois anos. Mas nunca tinha sido incluído em uma lista de terroristas.

Por isso, quando meu nome apareceu recentemente em uma lista de jornalistas "terroristas" publicada por um site com estreitas ligações com o governo ucraniano, vi isso com uma mistura de nervosismo e sarcasmo.

Nervosismo porque sugeria que pessoas poderosas na Ucrânia, uma democracia que aspira à liberdade de informação, estavam procurando a mim e aos outros na lista simplesmente por fazermos nosso trabalho: reportar os dois lados da guerra, incluindo o lado rebelde pró-Rússia.

E sarcasmo porque, sendo a Ucrânia, a lista provavelmente não teria muita credibilidade em outros lugares. Por exemplo, não tive dificuldade alguma para viajar de avião depois de participar da que talvez seja a primeira lista do mundo de jornalistas terroristas.

Também não é segredo que eu e outros repórteres escrevemos de território rebelde; nossas publicações e canais de transmissão habitualmente citam nossos nomes e os lugares onde estamos.

A lista, publicada por um site nacionalista ucraniano chamado Myrotvorets, ou "o Pacifista", parece ter surgido de uma frustração fervilhante.

Os membros da linha-dura na Ucrânia estão furiosos com a imprensa estrangeira há algum tempo, afirmando que qualquer cobertura dos rebeldes em sua base original no leste faz parte da poderosa máquina de propaganda russa. A Rússia pintou os moradores das regiões separatistas da Ucrânia como vítimas de um ataque militar injustificado por um governo "fascista" apoiado pelo Ocidente em Kiev, na Ucrânia.

A lista é uma compilação de nomes de repórteres e outros que solicitaram passes de imprensa para o território controlado pela República Popular de Donetsk, o principal inimigo da Ucrânia na guerra iniciada há dois anos no leste. Pedir credenciais aos rebeldes apoiados pela Rússia, segundo o site, foi suficiente para sermos rotulados de "cúmplices de terroristas".

O site disse que obteve a lista de nomes e as informações pessoais, incluindo e-mails, de hackers que roubaram os dados dos rebeldes.

Grupos que apoiam os jornalistas rapidamente condenaram a publicação dos nomes --e em alguns casos endereços residenciais-- por parecer convidar à violência contra os repórteres.

Um comentarista pró-Rússia que vive em Kiev, Oles Buzina, cujo endereço residencial foi publicado em Myrotvorets no ano passado, foi morto a tiros em uma rua perto de sua casa dias depois.

Mas desta vez o site estava publicando nomes e detalhes de contato de 5.412 jornalistas, motoristas, técnicos e intérpretes. Nem todos nós podemos ser eliminados.

Por que havia tantos repórteres com credenciais para cobrir a guerra em Donetsk? Porque servia à estratégia de mídia dos rebeldes apoiados pela Rússia. Cerca de dois terços dos jornalistas e equipes de apoio na lista eram russos ou habitantes do leste da Ucrânia, e provavelmente seriam simpáticos aos rebeldes. Além disso, 1.816 repórteres estrangeiros se apresentaram nos últimos dois anos e foram credenciados, segundo a lista.

A facilidade de conseguir a credencial garantia, por exemplo, ampla cobertura dos ataques aleatórios de artilharia ucraniana que atingem a cidade e às vezes matam civis, ajudando a desacreditar os atos da Ucrânia para reconquistar território.

A estratégia de mídia parece tirada diretamente dos manuais russos: analistas militares ocidentais notaram a perícia da Rússia no que chamaram de "guerras híbridas", que combinam força letal com cobertura de mídia agressiva (e positiva).

Para os repórteres, os passes de imprensa para viajar em território detido pelos rebeldes foram valiosos para evitar prisões, mãos atadas por fita adesiva ou a detenção em porões. Para conseguir o cobiçado papel, os jornalistas visitavam Angela, uma mulher esperta conhecida como a "rainha das credenciais".

Angela trabalhava em um escritório no sétimo andar do quartel-general separatista no centro de Donetsk, na Ucrânia. Para chegar ao seu espaço, era preciso subir uma escadaria escura cheia de propaganda rústica da causa antiocidental. Um desenho mostrava a cabeça do presidente Barack Obama no corpo de um macaco; outro, um políticoucraniano, Arseniy Yatsenyuk, vestido com um uniforme nazista.

Com poucas exceções, Angela alegremente imprimia passes de imprensa para qualquer pessoa que pedisse --menos para os repórteres da Ucrânia controlada pelo governo.

Muitos ucranianos ainda estão indignados porque, na sua visão, os grupos apoiados pela Rússia conseguiram habilmente amplificar sua mensagem com o megafone da mídia ocidental, apesar da virulenta agenda antiocidental dos rebeldes. A guerra já matou mais de 10 mil pessoas.

Mas a ombudsman da Ucrânia, Valeria Lutkovska, condenou a divulgação dos nomes dos jornalistas e pediu que as autoridades fechem o site sediado em Kiev por revelar informação pessoal. O presidente Petro Poroshenko disse na sexta-feira que a divulgação foi "um grande erro". Os embaixadores ocidentais manifestaram preocupação.

Diante das críticas, o site Myrotvorets replicou, publicando um lembrete sarcástico. "Muitos jornalistas exigem um pedido de desculpas nosso, e agora entendemos a razão disso", escreveu o site em 20 de maio, duas semanas depois de publicar a lista de "cúmplices terroristas" na mídia. "A equipe pede sinceramente desculpas porque a lista não é nova." E então adiciona novos nomes.

E o ministro do Interior, Arsen Avakov, pareceu endossar o vazamento, ou pelo menos não o condenou.

"Guerra é guerra", escreveu ele no Facebook. "Um amigo lutando sinceramente é mais importante para mim do que as opiniões de liberais e separatistas latentes que se dão muito valor."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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