Voto sobre saída da UE faz tabloides britânicos extravasarem seu antieuropeismo

Stephen Castle

Em Londres (Reino Unido)

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    Manchete do tabloide "Daily Express" diz: "Agora a UE quer proibir nossas chaleiras; torradeiras e secadores de cabelo também são alvos"

    Manchete do tabloide "Daily Express" diz: "Agora a UE quer proibir nossas chaleiras; torradeiras e secadores de cabelo também são alvos"

Os britânicos poderão perder o controle de seu litoral. Seu país poderá ser reduzido ou fundido com a França. E um país no qual fazer chá é um ritual diário enfrenta a perspectiva de uma proibição das chaleiras.

Nos últimos anos, o jornal "The Daily Express", com circulação de aproximadamente 400 mil exemplares, e seu irmão, "Sunday Express", não fizeram segredo de sua antipatia pela União Europeia, apresentando-a como a fonte de diversos ataques igualmente improváveis ao Reino Unido e a tudo o que é britânico.

Com a aproximação do referendo em 23 de junho sobre se o Reino Unido deve continuar no bloco de 28 países, entretanto, "The Express" foi um pouco mais longe e pediu que os leitores usem um adesivo na janela a favor da saída.

Os irrestritos tabloides britânicos nunca hesitaram em promover uma agenda. Mas o debate sobre a saída da UE --conhecida como "Brexit"-- deu a alguns jornais uma oportunidade especial de liberar suas tendências nacionalistas e antieuropeias.

Enfrentando uma circulação cada vez menor e a concorrência impiedosa do meio digital, a indústria de jornais do país cedeu em parte seu poder de moldar a opinião pública. Mas a hostilidade de alguns jornais contra a UE é de todo modo um problema para o primeiro-ministro David Cameron, que está envolvido em uma luta feroz para convencer os britânicos a votarem pela permanência no bloco.

Uma pesquisa recente revelou que de 928 artigos sobre o referendo 45% eram a favor da saída e 17% da permanência (19% eram classificados como "mistos ou indecisos" e 9% como sem posição definida).

O tom da cobertura contrasta fortemente com o único referendo anterior que houve aqui, em 1975, quando quase toda a imprensa foi favorável à Europa, inclusive o popular "Daily Mail".

Desta vez não. O jornal ainda não publicou editoriais claramente a favor da saída, mas o tom foi definido em fevereiro, quando Cameron renegociou os laços do Reino Unido com a UE antes de recomendar a permanência.

O "Daily Mail" não se impressionou e recorreu a um tema que ainda preocupa parte da imprensa britânica: a Segunda Guerra Mundial.

"Quem falará pela Inglaterra?", perguntou um editorial na primeira página, em um reflexo incongruente de um discurso parlamentar feito antes do início da guerra com a Alemanha nazista.

"Como em 1939, estamos numa encruzilhada na história de nossa ilha", escreveu o jornal.

Para os pró-europeus, o ataque do tabloide parece extremamente familiar. "Algumas partes da mídia britânica frequentemente se referem à Segunda Guerra Mundial como o contexto da discussão", disse Charles Clarke, um ex-ministro do gabinete trabalhista, em uma conferência recente, acrescentando que "a virulência" com que alguns jornais tentam definir a agenda sobre a Europa afetou o debate político britânico.

Para os críticos dos padrões da imprensa, esse tipo de cobertura dos tabloides ilustra falhas mais profundas na mídia britânica.

"Não apenas eles não sentem o dever de reportar o que o outro lado está dizendo ou dar equilíbrio, como sentem um compromisso com depreciar seu argumento", disse Brian Cathcart, professor de jornalismo na Universidade Kingston em Londres.

"Eles são facilmente o participante mais partidário no debate, e qualquer pessoa que pense que eles são um veículo para explicar os prós e os contras de estar na Europa estaria completamente enganada", acrescentou.

Os que estão na outra ponta da cobertura eurocética incluem o presidente Barack Obama, que, durante uma recente visita ao Reino Unido, apoiou a continuação do país no bloco e disse que não haverá um acordo comercial rápido com os EUA caso o Reino Unido saia.

A reação do "Daily Express" foram uma manchete sobre "A incrível ameaça de Obama à Grã-Bretanha" e um artigo que relatava a "indignação por sua posição que pretende causar medo sobre a saída da UE".

Nem mesmo a rainha Elizabeth 2ª está acima da discussão, pelo menos para "The Sun", o maior tabloide diário pago do Reino Unido. Ele relatou que a monarca apoia a "Brexit", com base em relatos de comentário que ela fez ostensivamente sobre a Europa antes da convocação do referendo.

Segundo Cathcart, a cobertura de imprensa tem um efeito contagotas tanto da "reportagem negativa em longo prazo sobre a UE, como reportagem desonesta sobre o problema da migração".

Para "The Sun", "The Express" e "The Mail", o influxo de imigrantes europeus no Reino Unido, principalmente da Europa Central e do Leste, foi com frequência matéria de primeira página, em sintonia com o mais poderoso argumento da campanha pela saída do bloco.

Enquanto a maior parte da Europa está concentrada no fluxo de migrantes do Oriente Médio e da África, os defensores da Brexit afirmam que a imigração só poderá ser controlada se o Reino Unido deixar o bloco, porque a UE permite o livre movimento de trabalhadores europeus pelos países.

Em fevereiro, um artigo na primeira página do "Sun" sobre estatísticas de migração recebeu o título de "O grande truque da migração", salientando afirmações de um "'ocultamento' da migração".

Em março, o jornal publicou reportagem sobre um guia para imigrantes poloneses que recebem pensão do governo, com o título "Como ser um polaco remunerado", referindo-se ao seguro-desemprego.

Outros jornais deram ao assunto um tratamento polêmico, segundo a InFact, organização que defende a continuidade no bloco europeu.

"'Telegraph', 'Mail' e 'Express' publicaram uma série de reportagens sobre migração, terrorismo, crime e controle de fronteiras que contêm imprecisões factuais e/ou distorções", disse ele, anunciando que pretende se queixar ao órgão que regulamenta a imprensa britânica, a Organização Independente sobre Padrões da Imprensa, sobre oito artigos.

Mas os que defendem a permanência no bloco podem contar com um tratamento muito mais simpático de vários outros jornais, incluindo "The Financial Times" e "The Guardian", e o tabloide de tendência esquerdista "The Daily Mirror".

"The Mail on Sunday" dedicou muito mais espaço do que seu irmão diário à tese da permanência.

Nas últimas semanas, tanto "The Times" quanto --de maneira intrigante-- o muito mais direitista "The Telegraph", o jornal preferido do profundamente dividido Partido Conservador, adotaram uma abordagem bastante equilibrada do debate, dando peso a argumentos dos dois lados.

Isto pode refletir as opiniões divididas de seus leitores (inclusive os online, que tendem a ser mais jovens) ou preocupações sobre o impacto econômico da saída da UE sobre a mídia impressa.

"The Times", assim como "The Sunday Times", "The Sun" e "The Sun on Sunday", é de propriedade da News UK de Rupert Murdoch. Mas os leitores do "Times" são considerados mais pró-europeus do que os do "Sun", por isso os jornais poderão assumir posições opostas nas últimas semanas da campanha.

Entretanto, segundo Clarke, não está claro se mesmo o "Sun" fará editoriais a favor da saída da UE, especialmente se ele calcular que os eleitores preferirão permanecer.

Mas no final o impacto cumulativo da cobertura dos jornais sobre a Europa é provavelmente mais importante que um endosso à véspera do referendo a qualquer dos lados.

Cathcart comenta que os jornais britânicos são "organizações em declínio", mas ainda são importantes.

"É uma coisa de legado", disse ele.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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