Na mansão de Ceausescu em Bucareste, o foco é na decoração, não na ditadura

Palko Karasz

Em Bucareste (Romênia)

  • Divulgação

    Cômodo do Palatul Primaverii

    Cômodo do Palatul Primaverii

Nos 24 anos em que Nicolae Ceausescu governou a Romênia, a mansão onde ele viveu com sua esposa, Elena, era envolta em segredo. 

Nenhum cidadão comum podia se aproximar da residência, em um bairro nobre no norte de Bucareste. Mas havia abundância de rumores sobre sua decoração opulenta: metais de banheiro banhados a ouro, closets repletos dos casacos de pele, roupas e sapatos de Elena; a piscina interna com mosaicos nas paredes. 

Após o casal Ceausescu ter sido derrubado (e executados por um pelotão de fuzilamento em 25 de dezembro de 1989, na mais sangrenta das revoluções que acabaram com a Cortina de Ferro no Leste Europeu), a agência de notícias estatal atacou o "luxo extraordinário" da casa deles. Os romenos comuns, que viviam de rações limitadas de alimentos e combustível, ficaram enfurecidos com o estilo de vida dos Ceausescu. 

Nascido na Romênia, mas criado na Hungria, eu era pequeno quando o casal Ceausescu foi executado. Mas passei aquele Natal e muitos verões que se seguiram com parentes na Transilvânia, ouvindo suas histórias de privações no período comunista. Quando me tornei adulto, a maioria dos romenos que conhecia deixou tudo isso para trás, ou queria fazê-lo. 

Mas quando o governo romeno abriu a mansão de Ceausescu como museu em março, eu fiquei intrigado. Assim, participei de uma visita com guia, que custa cerca de US$ 11 (cerca de R$ 38). A mansão já recebeu cerca de 8.000 visitantes desde a abertura. 

Conhecida como "Palatul Primaverii", ou Palácio de Primavera, a mansão é espaçosa, com 30 cômodos, 4.900 metros quadrados, com jardins projetados para inverno e verão, mas não tão opulento segundo padrões palacianos. A mansão em si é bem mantida, com funcionários ocupados limpando janelas e o zumbido constante de cortador de grama vindo do jardim. 

A área, com casas originalmente destinadas aos funcionários da usina de gás e eletricidade de Bucareste, mas posteriormente reservadas para as autoridades da elite comunista, permanece exclusiva. 

Os visitantes precisam vestir uma sapatilha descartável azul antes de entrar. Nosso guia, Andrei Stancu, um homem esguio e de aspecto estudioso na faixa dos 20 anos, nos disse que o casal Ceausescu, ambos nascidos de famílias camponesas, sempre tiravam seus sapatos na entrada para preservar os tapetes. 

Stancu nos conduziu por mais de uma dúzia de cômodos decorados em uma mistura de estilos do final da Renascença e Rococó. Ele apontou para cada candelabro de cristal e tapeçaria flamenga. Em um cômodo após o outro, ele destacava as marcas romenas (cristal Medias, tapetes Cisnadie) que atualmente deixaram de existir ou enfrentam dificuldades. 

O clima ficou mais leve quando Stancu começou a compartilhar histórias dos Ceausescu, todas cautelosamente não políticas. 

No sala de cinema com revestimento acústico, ele explicou que Nicolae Ceausescu adorava filmes americanos. Ele tinha uma queda por faroestes e por séries de televisão como "Kojak", o detetive de Nova York com um grande coração interpretado por Telly Savalas. Para os romenos na época, a televisão se limitava a produções domésticas sisudas, muitas delas propagandistas. 

Ao lado da cama do casal, que parecia recém-arrumada, soubemos que Elena Ceausescu, conhecida por seu guarda-roupa luxuoso, vestia apenas pijamas masculinos. 

Um caderno cita sua empregada descrevendo como "a camarada" se deitava de bruços no chão para mostrar a forma certa de espanar debaixo da cama. 

As crianças na visita guiada ficaram encantadas com a piscina interna, agora esvaziada e contendo uma exposição tediosa sobre o casal Ceausescu em férias ou em visita a países estrangeiros. 

Por mais altamente decorada que seja, a mansão está longe de ser a Casa do Povo, a poucos quilômetros de distância. Com 370 mil metros quadrados, aquela fortaleza de concreto construída por Ceausescu, com frequência comparada ao Pentágono em tamanho, agora abriga o Parlamento romeno. 

Apesar da Casa do Povo ser aberta a visitas públicas, "ninguém diz que um bairro de Bucareste foi demolido para aquela coisa, que pessoas morreram no canteiro de obras", disse Radu Preda, presidente do Instituto para a Investigação dos Crimes Comunistas e Memória do Exílio Romeno, um órgão do governo encarregado de estudar o regime Ceausescu. "Enquanto estava em construção, os romenos tiveram que suportar frio e fome." 

Na visita ao Palácio de Primavera, muito mais atenção è dada aos móveis e porcelana do que às brutalidades da ditadura comunista. 

Muitos dos meus companheiros de visita não se importavam com a falta de contexto político. "Estou impressionada", disse Silvia Rosman, 61 anos, uma visitante de Tel Aviv que partiu da Romênia antes de Ceausescu chegar ao poder em 1965, sobre nosso guia. "Adorei a apresentação dele, sem amargura ou críticas." 

O órgão do governo encarregado pela mansão parece querer provocar essas reações. 

"Nós apresentamos a casa e cabe a cada um tirar suas próprias conclusões", disse Alexandru Niculae, um funcionário do órgão. "Não estamos nem tentando satanizar Ceausescu, seja o homem ou o líder, nem lhe fornecendo álibis ou desculpas pelo que aconteceu." 

Niculae disse que a maioria dos guias contratados por seu órgão é jovem demais para ter vivido sob o regime, em um esforço para manter as visitas neutras. Alguns estudiosos consideram essa abordagem uma oportunidade perdida,. ou mesmo uma reflexão sem entendimento do relacionamento problemático da Romênia com sua história. 

Neste país de 20 milhões de habitantes, a temida polícia secreta, a Securitate, mantinha uma rede de cerca de 100 mil informantes nos anos que antecederam a queda de Ceausescu, segundo Florian Banu, um pesquisador dos arquivos da polícia secreta. Muitos dos que colaboraram com o regime mantiveram seus empregos após a queda do comunismo. 

Em um pequeno exemplo, duas empregadas que cuidavam da mansão sob os Ceausescu ainda trabalham ali. 

A Romênia ingressou na União Europeia em 2007, juntamente com a Bulgária, mas sob a condição de se submeter a revisões regulares por Bruxelas devido à antiga luta do país contra corrupção. Oficialmente, o antigo governo comunista é condenado nos termos mais fortes pela atual liderança romena. 

"Não podemos mais nos permitir ignorar as lições do passado", disse o presidente Klaus Iohannis, o primeiro presidente da minoria étnica alemã da Romênia, ao tomar posse em 2014.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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