Bode expiatório ou espiã? Consultora do Vaticano é alvo em caso de vazamentos

Elisabetta Povoledo

Na Cidade do Vaticano

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    Francesca Immacolata Chaouqui, acusada de vazar documentos do Vaticano

    Francesca Immacolata Chaouqui, acusada de vazar documentos do Vaticano

Seus acusadores a chamam de conspiradora ambiciosa, até mesmo uma espiã. O juiz principal perguntou em voz alta se ela é "cheia de conversa fiada". Os promotores do Vaticano querem sua prisão por até 15 anos, sob a acusação de ter roubado e vazado segredos de Estado. 

Ela se considera um bode expiatório, alegando ser alvo de uma vingança, tramada por seus inimigos para desacreditá-la junto ao papa Francisco. 

Seja qual for a verdade, Francesca Immacolata Chaouqui despontou como a protagonista central no que é chamado aqui de julgamento "Vatileaks 2", transformando-se em um para-raios de intriga e críticas. 

Heroína para alguns e vilã para outros, Chaouqui, 34 anos, nascida na Calábria e grávida de mais de oito meses, é acusada juntamente com outros de vazar documentos confidenciais a dois jornalistas, que escreveram livros denunciando o desgoverno e corrupção no Vaticano. O julgamento segue o padrão do primeiro julgamento Vatileaks, no qual Paolo Gabriele, o mordomo de Bento 16, o papa emérito, enfrentou acusações semelhantes. 

Os jornalistas, Gianluigi Nuzzi e Emanuele Fittipaldi, podem ser condenados a até oito anos de prisão em um caso que provocou críticas de que o Vaticano está tentando reprimir a liberdade de expressão e abafar revelações embaraçosas. Um dos Estados mais sigilosos, o Vaticano definiu as revelações como uma ameaça à sua segurança. 

Ao longo de mais de seis meses de testemunhos, os observadores do Vaticano, que esperavam que as revelações no tribunal expusessem uma intriga do tipo Dan Brown e maquinações maquiavélicas nos salões fechados da Santa Sé, ficaram decepcionados.

Em vez disso, o julgamento, que deverá chegar ao fim neste mês, produziu apenas mais embaraços. Os testemunhos revelaram graves fragilidades no sistema de segurança do Vaticano: invasores desconhecidos conseguiram entrar em gabinetes supostamente seguros e abrir um cofre, assim como invadir conexões protegidas de internet. 

Várias testemunhas chamadas pela acusação expuseram uma série de fraquezas humanas, nutridas por rivalidades no trabalho, ciúmes mesquinhos, recriminações e ambições frustradas. No mínimo, o julgamento levantou um questionamento crítico entre alguns observadores do Vaticano sobre as escolhas do papa Francisco para sua equipe, principalmente a de Chaouqui. 

Uma consultora de comunicações, Chaouqui integrava uma comissão de oito membros, formada por Francisco em julho de 2013, para analisar as estruturas econômica e administrativa e apresentar recomendações para reforma. Sua decisão de nomear Chaouqui para o grupo causou espanto, por ela ser vista como uma pessoa de fora. Ela agora se diz vítima de uma armação por parte de seus inimigos dentro do Vaticano e que o caso contra ela é "político". 

"Sou um bode expiatório", ela disse em uma entrevista recente, na casa de sua advogada, Laura Sgro, em Roma. "Os promotores não apresentaram nenhuma evidência que mostre que eu dei um documento de A para B." 

Quando um guarda do Vaticano testemunhou que Chaouqui admitiu em novembro, quando foi brevemente detida, que tinha dado os documentos para um dos jornalistas, ela respondeu no tribunal que os "documentos" eram ingressos para um evento no Vaticano. 

Ela diz acreditar que trabalhou apenas para o bem da Igreja, e que o mandato e recomendações de sua comissão foram frustrados pela inação. 

"Minha comissão descobriu e denunciou crimes muito sérios" aos promotores e reguladores financeiros do Vaticano, sem resultar em nenhuma ação, ela disse na entrevista. 

"Eu imaginei que a Justiça do Vaticano agiria contra essas pessoas que cometeram crimes financeiros muito sérios, muito mais do que aqueles expostos" nos livros Vatileaks, ela acrescentou. "Mas até agora nada aconteceu, ao menos até onde sei." 

Vários outros membros da comissão, que foi dissolvida após 10 meses, após concluir seu mandato, não responderam aos e-mails ou se recusaram a comentar. 

As recomendações da comissão levaram à criação, em fevereiro de 2014, do Secretariado de Economia, que supervisiona todas as atividades econômicas e administrativas do Vaticano. 

Ela também recomendou a reorganização das operações de mídia do Vaticano, que foi iniciada. 

Os promotores insistem que Chaouqui conspirou com outro membro do comitê, o monsenhor Lucio Ángel Vallejo Balda, e seu secretário, Nicola Maio (ambos também podendo ser condenados a 15 anos de prisão), para formação de um lobby secreto que vazou os documentos aos jornalistas. 

Mas Sgro, a advogada de Chaouqui, disse que a acusação ainda não explicou "que vantagem sua cliente teria" nesse arranjo.

 Os críticos dizem que Chaouqui, por meio de Vallejo Balda, tentava consolidar sua posição dentro da Santa Sé mesmo após o encerramento das atividades da comissão da qual fazia parte. Chaouqui chamou a teoria de risível. "Os funcionários da cúria ganham cerca de 2.000 euros por mês, que é o que ganho em menos de uma semana", ela zombou. "Claramente eu não aspiraria por isso." 

O turbilhão de insinuações em torno dela é tão convincente quanto contraditório. Quando foi chamado a testemunhar em março, Vallejo Balda contou que Chaouqui lhe disse que era uma espiã italiana. Ele também contou sobre uma noite em um hotel de Florença, durante a qual, "agindo sedutoramente", Chaouqui "queria me conquistar a todo custo". 

"Entendo que essa noite de amor foi a coisa que mais escandalizou a opinião pública, mas é tudo falso", disse Chaouqui na entrevista, virando os olhos. Seus encontros com Vallejo Balda faziam parte do "relacionamento normal de trabalho" entre os membros da mesma comissão, ela disse. "Eu nunca quis um emprego na cúria. Eu queria que minhas reformas fossem implantadas." 

Após trabalhar para vários escritórios de advocacia italianos de prestígio na gestão de suas relações públicas, e depois para a empresa de serviços profissionais Ernst & Young, Chaouqui abriu sua própria empresa de estratégia de comunicações. Ela conta com vários empreendedores, empresas de segurança particular e governos como clientes, ela disse. 

Mas suas credenciais não pareceram impressionar o tribunal do Vaticano. 

"Você ficou com a impressão de que ela é cheia de conversa fiada?" perguntou recentemente o juiz, Giuseppe Dalla Torre, para uma testemunha. Esta respondeu que, de fato, Chaouqui cumpriu sua promessa de trazer um ministro do governo para visitar um projeto. 

Logo depois de sua escolha, a mídia de notícias italiana publicou uma série de mensagens depreciativas, supostamente provenientes da conta de Chaouqui no Twitter, incluindo uma sugerindo que Bento 16 tinha leucemia e outra que um ex-ministro do governo italiano era gay.

Ela alega que sua conta foi hackeada e que as mensagens faziam parte de um dossiê maior, preparado por seus inimigos, para desacreditá-la junto ao papa. Ela repetiu a afirmação no tribunal em maio, e de novo em sua conta no Facebook, para explicar por que foi levada injustamente a julgamento. 

O reverendo Federico Lombardi, o porta-voz do Vaticano, alertou em uma declaração em maio que as acusações dela eram "afirmações caluniosas; são absolutamente inaceitáveis, sujeitas a ação legal". 

Chaouqui rebateu as críticas de que tem sido muito leviana em suas contas nas redes sociais em sua tentativa de rebater as acusações feitas no tribunal, que ela considera como parte da campanha difamatória contra ela. "Não sou uma freira. Sou uma comunicadora", ela disse. "O Vatileaks se transformou na estratégia mais importante de comunicações da minha vida."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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