Poluída, Cidade do México culpa carros, mas transporte público também é parte do problema

Elisabeth Malkin

Na Cidade do México

  • Adriana Zehbrauskas/The New York Times

    Passageiros esperam por transporte público na Cidade do México, onde alguns deslocamentos podem durar horas

    Passageiros esperam por transporte público na Cidade do México, onde alguns deslocamentos podem durar horas

No final dos anos 1980, o ar ficou tão sujo na Cidade do México que os pássaros emitiam um último piado antes de cair das árvores na calçada, seus pequenos corpos rijos um testamento triste sobre a poluição do ar, uma das piores do mundo.

Eu ouvi muito essa história quando cheguei à cidade alguns anos depois. Ninguém realmente tinha visto isso acontecer, é claro, mas o humor negro da lenda urbana revelava um orgulho perverso na sobrevivência.

Então a poluição começou a levantar. O governo fechou uma grande refinaria de petróleo e empurrou a indústria pesada para fora da cidade. Regulamentos tiraram o chumbo da gasolina e criaram incentivos para as pessoas comprarem carros novos mais "limpos".

E os pássaros voltaram a cantar.

Até agora. A cidade registrou apenas 20 dias "limpos" neste ano. Em todos os outros dias, as partículas e o ozônio subiram acima do limite oficial.

O que causou o retrocesso? Um dos principais motivos é que a poluição simplesmente saiu do radar do público.

"Enquanto as pessoas não se queixam e não é altamente visível, o governo não lhe dá prioridade", disse Mario Molina, prêmio Nobel em química e diretor de um instituto de pesquisa na Cidade do México que leva seu nome. Ele está assessorando as autoridades sobre os próximos passos que devem dar.

Sem uma sensação de urgência, as medidas antipoluição que poderiam ter feito diferença anos atrás estagnaram. O governo federal, por exemplo, evitou aumentar os limites de emissão dos novos veículos.

Apesar de a região ter conseguido reduzir os níveis dos principais poluentes nos anos 2000, o ozônio e o material particulado permaneceu teimosamente elevado na última década e até aumentou.
Em abril, a comissão ambiental regional reforçou a questão ao reduzir acentuadamente o nível em que declara situação de emergência.

De repente, fala-se em poluição em todo lugar. Reportagens no rádio dão atualizações a cada hora conforme os níveis de ozônio sobem todas as tardes, comentando que a cidade está perto de mais uma emergência.

Os jornais enchem suas primeiras páginas com fotos de paisagens urbanas envoltas em um véu cinza-amarelado. No Twitter, motoristas postam fotos de veículos cuspindo fumaça suja. Uma antiga abordagem descuidada das atividades ao ar livre deu lugar a verificações ansiosas no mapa de poluição da cidade.

Houve rumores de que o governo estava importando gasolina suja da China, o que as autoridades rapidamente negaram.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Trânsito na hora do rush no Circuito Interior, via expressa na Cidade do México

A realidade enfumaçada levou as autoridades a agir. Medidas de emergência foram implantadas para durar até o fim deste mês, quando chegarão as chuvas de verão.

Todos os dias, aproximadamente 20% dos carros da região ficam parados. O ozônio e o material particulado subiram tanto que a comissão ambiental declarou oito emergências de poluição desde março, impondo regras especiais que incluem retirar 40% dos carros das ruas.

Mas os motoristas que esperavam em uma estação de inspeção de escapamentos recentemente disseram que estavam sendo injustiçados.

"Deixar os carros em casa não resolve absolutamente nada", disse Óscar Rojas Ayala, 50, um advogado de defesa criminalista que usa seu esportivo-utilitário Mitsubishi 2009 para visitar seus clientes nas distantes cadeias da cidade. "Eles deveriam provar isso."

Para entender por que é tão importante ter um carro aqui, considere a viagem diária de Íris Venegas Maldonado. Ela sai às 6h15 no máximo da casa de seus pais no subúrbio de Tlalnepantla, no norte, e pega dois micro-ônibus capengas antes de chegar a uma estação de metrô.

Venegas toma trens "exageradamente lotados" antes de voltar à rua, onde pega outro ônibus para chegar a seu emprego de médica-assistente às 9h.

"É frustrante, porque eu passo grande parte do dia viajando", disse Venegas, 26, que acaba de terminar a faculdade de medicina.

Em um dia recente, um protesto havia desviado o tráfego e ela passou sete horas no transporte público. "Eu poderia estar fazendo outra coisa", disse ela, quase resignada.

No centro do problema está o modo como esta megalópole de mais de 20 milhões de pessoas evoluiu.

Cerca de 8,5 milhões vivem na Cidade do México, e o restante habita uma extensão sem fim que abrange de tudo, de condomínios fechados a favelas de concreto. Mas os moradores de bairros ricos e pobres com frequência moram longe de seus empregos. Assim que uma família pode comprar um carro, ela compra.

O Centro Mario Molina estima que hoje existam mais de 5 milhões de carros na área metropolitana.

O prefeito da Cidade do México, Miguel Ángel Mancera, disse que os antigos regulamentos inibiram a construção de habitações de baixa renda dentro dos limites urbanos.

"As pessoas que querem viver aqui não podem", disse ele em uma entrevista. "A cidade precisa se tornar mais compacta para que as pessoas não façam essas viagens loucas."

Leonardo Martínez Flores, um especialista em planejamento urbano que coordenou o plano aéreo regional da área para 2011-2020, disse que o problema vai muito além da habitação: toda a cidade precisa ser reformulada.

"Se você não atacar o problema da estrutura urbana, não importa quanto seja investido em transporte público", advertiu Martínez, que também assessora a cidade em medidas de emergência contra a poluição. "Isso não resolve o problema subjacente."

Algumas pessoas culpam os novos limites de velocidade pela poluição. Como a velocidade média de condução na hora do rush fica entre 5 km/h e 10 km/h, o Centro Mario Molina notou que o novo regulamento "não exige atenção prioritária".

Na semana passada, os governos federal e local anunciaram novas regras de inspeção das emissões, que, pela primeira vez, se aplicam a caminhões e ônibus.

Os carros não serão mais automaticamente parados, mas os níveis de emissão serão mais rígidos e as inspeções reforçadas para evitar a corrupção generalizada.

A cidade prometeu instalar novos sensores para detectar veículos "sujos", que a polícia deverá parar e rebocar.

Mancera prometeu que as novas regras, entre outras medidas, constituirão "um antes e um depois" para a cidade.

Ele também propôs a repressão das emissões industriais e programas de táxis e caminhonetes de entregas mais limpos, e começou negociações para limitar os caminhões de carga aos horários noturnos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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