Opinião: Alguns extremistas disparam armas, outros as promovem

Nicholas Kristof

  • Luke Sharrett/The New York Times

    Fuzis AR-15 Smith & Wesson à venda em exposição de armas em Loveland, Colorado (EUA)

    Fuzis AR-15 Smith & Wesson à venda em exposição de armas em Loveland, Colorado (EUA)

Nas últimas duas décadas, o Canadá teve oito tiroteios em massa. Apenas até este mês os EUA já tiveram 20.

O Canadá tem uma população muito menor, é claro, e os critérios que os pesquisadores usaram para cada país são ligeiramente diferentes, mas isso ainda diz algo importante sobre a segurança pública.

Poderia ser, como sugere Donald Trump, que o perigo venha de se aceitar a entrada de muçulmanos? Pelo contrário, os canadenses estão seguros apesar de terem sido muito mais hospitaleiros com os refugiados muçulmanos: o Canadá recebeu mais de 27 mil refugiados sírios desde novembro, cerca de dez vezes a quantidade que os EUA receberam.

De modo geral, a população do Canadá é 3,2% muçulmana, enquanto os EUA têm cerca de 1% --mas o Canadá não tem massacres como o que acabamos de experimentar em uma boate gay em Orlando, na Flórida, ou o de dezembro em San Bernardino, na Califórnia. Então talvez o problema não seja tanto de muçulmanos fora de controle, mas de armas fora de controle.

Veja, eu cresci em uma fazenda com armas. Certa manhã, quando eu tinha 10 anos, despertamos de madrugada ouvindo nossas galinhas cacarejando freneticamente e vimos uma raposa escapando com uma galinha na boca.

Meu pai pegou seu fuzil.308, abriu a janela e disparou duas vezes. A raposa não se feriu, mas soltou seu café da manhã e fugiu. A galinha se recuperou, sacudiu as penas com indignação e voltou ao celeiro. Assim, no contexto certo, as armas têm sua utilidade.

O problema é que não fazemos um esforço sério para manter as armas de fogo fora das mãos de pessoas violentas. Veja alguns dados:

Vídeo flagra troca de tiros em atentado a boate gay nos EUA

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-- Mais americanos morreram por causa de armas, incluindo suicídios, desde 1970 do que em todas as guerras da história dos EUA, desde a Revolução Americana.

-- A Guerra Civil marca de longe o período mais selvagem na história bélica dos EUA. Mas mais americanos são mortos hoje por armas a cada ano, também incluindo os suicídios, do que foram mortos por armas em média em cada ano da Guerra Civil (quando muitas mortes foram causadas por doenças, e não por armas).

-- Nos EUA, mais estudantes pré-escolares até 4 anos são mortos a tiros por ano do que policiais.

O Canadá implementou medidas que dificultam que uma pessoa perigosa adquira uma arma, com um enfoque não tanto para proibir totalmente as armas (o AR-15 pode ser comprado depois de um treinamento de segurança e uma verificação de antecedentes), quanto para limitar quem pode comprá-las.

Nos EUA não temos sequer a verificação da ficha policial, e nova pesquisa de Harvard que será publicada em breve descobriu que 40% das transferências de armas não tiveram uma verificação de antecedentes.

Não podemos evitar todas as mortes por armas, assim como não podemos evitar todos os acidentes de carros, e o desafio é especialmente agudo com terroristas criados no país, como o de Orlando.

Mas especialistas estimam que um esforço sério para reduzir a violência pelas armas poderia diminuir em um terço o número de mortos, o que seria mais de 10 mil vidas salvas por ano.

O assassino de Orlando teria sido legalmente impedido de comprar um jogo de dardos, porque eles foram proibidos como inseguros. Ele não poderia dirigir um carro que não passasse por uma inspeção de segurança ou que não tivesse seguro. Ele não poderia comprar uma pistola de água preta sem uma ponta cor-de-laranja --porque seria perigoso demais.

Mas não é perigoso permitir a venda de um rifle de assalto sem uma simples verificação de antecedentes?

Se quisermos evitar chacinas como a de Orlando, precisamos ser vigilantes não só sobre a infiltração do Estado Islâmico, e não só sobre cidadãos americanos levados a cometer atos de terrorismo.

Também precisamos ser vigilantes com o extremismo do tipo da Associação Nacional do Rifle, que permite que armas sejam vendidas sem verificação.

É incrível que o Congresso não veja problema em permitir que as pessoas nas listas de vigilância de terroristas comprem armas: em cada um dos últimos três anos, mais de 200 pessoas na lista de vigilância puderam comprar armas.

Nós damos poder ao EI quando permitimos que acólitos como o matador de Orlando, investigado diversas vezes como ameaça terrorista, comprem um Sig Sauer MCX e uma pistola Glock 17 em dias consecutivos.

Uma grande maioria de muçulmanos é pacífica, e é injusto culpar o islamismo por atentados terroristas como o de Orlando. Mas é importante responsabilizar Estados do Golfo como a Arábia Saudita, que são fontes de preconceito, intolerância e fanatismo religiosos. Devemos também responsabilizar nossas figuras políticas que exploram acontecimentos trágicos para demonstrar preconceito. Sim, isso quer dizer Donald Trump.

Quando Trump usa os muçulmanos como bodes expiatórios, prejudica nossa segurança ao reforçar a narrativa nós-contra-eles do Estado Islâmico. A lição da história é que os extremistas de um lado invariavelmente empoderam os extremistas do outro.

Então, por todos os meios, os muçulmanos do mundo inteiro deveriam se erguer contra seus fanáticos que semeiam ódio e intolerância --e nós, americanos, deveríamos nos erguer contra nossos extremistas que fazem o mesmo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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