Por leis mais duras, projeto de anuário escolar lembra jovens mortos em tiroteios

Noah Remnick

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Em algum lugar fora de vista na casa de Shenee Johnson, em Long Island, talvez escondido em um armário ou talvez debaixo da cama, há uma cópia do anuário escolar de seu filho, Kedrick Morrow. 

Johnson não sabe exatamente onde o livro foi parar e não tem interesse em procurá-lo, mas nele, lhe disseram, Kedrick está sorrindo em meio a uma galeria de retratos, centenas de alunos se preparando para um futuro que seu filho nunca veria. Semanas antes de se formar pelo colégio Elmont em 2010, Kedrick morreu baleado do lado de fora de uma festa no bairro de Springfield Gardens, no distrito de Queens. Ele tinha 17 anos e iria para a Universidade de Saint John. 

De lá para cá, o período de formaturas, com sua procissão de estudantes vestindo beca, serve como um duro lembrete da morte de Kedrick, mas neste ano Johnson espera que também possa trazer um pouco de reparação. Ela e outros pais de crianças mortas pela violência das armas de fogo se uniram recentemente por meio da organização Nova-Iorquinos Contra a Violência das Armas de Fogo para a criação de um anuário, visando chamar a atenção para o resultado da violência das armas de fogo entre os jovens. 

O anuário, que conta com uma versão digital disponível no endereço signtheiryearbook.com, está repleto de histórias e fotos de vítimas jovens da violência das armas de fogo e também tem um segundo propósito: o de servir como petição para checagem universal de antecedentes para obtenção de armas de fogo, que o grupo planeja apresentar ao Congresso no último trimestre deste ano. Mais de 2.300 pessoa o assinaram no mês passado. 

"A violência das armas de fogo é uma questão tão politizada que as pessoas às vezes esquecem que também é pessoal", disse Johnson, 42 anos. "Elas se esquecem dos entes queridos que perdemos e das vidas despedaçadas que temos que reparar. Mas Kedrick era uma pessoa real." 

O anuário conta com apenas 11 histórias dentre os 31.104 menores de 18 anos que foram mortos em casos envolvendo armas de fogo entre 1999 e 2014 nos Estados Unidos, segundo os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, 1.111 deles no Estado de Nova York.

Com a aprovação da Lei de Segurança Contra Armas e Munições (Safe, na sigla em inglês), sancionada pelo governador Andrew Cuomo, um democrata, em 2013, Nova York conta com uma das mais rígidas leis de controle de armas de fogo no país, incluindo proibição de armas de assalto e pentes de alta capacidade, checagem de antecedentes mais ampla e penas mais duras para pessoas que utilizam armas para cometer crimes. 

Mesmo assim, sem uma legislação federal abrangente, dizem os defensores da segurança de armas, as armas de fogo são trazidas regularmente para Nova York de Estados com fiscalização mais frouxa. Na semana após o massacre em Orlando, Flórida, no qual 49 pessoas foram mortas em uma boate, os democratas no Congresso redobraram seus esforços para aprovar leis mais rígidas para controle de armas de fogo, mas vários tiroteios em massa ocorreram sem uma resposta do Legislativo. 

"Gostaríamos de ver na esfera federal o que temos aqui em Nova York", disse Leah Gunn Barrett, diretora-executiva da Nova-Iorquinos Contra a Violência das Armas de Fogo. "As circunstâncias por trás de quase todas as histórias no anuário envolvem o fácil acesso a armas de fogo. Esperamos que os perfis desses jovens e todo seu potencial perdido sensibilizem o Congresso a de fato fazer algo." 

Sem as legendas, seria fácil confundir as fotos no anuário com evidência de vidas à beira da idade adulta. As páginas incluem os perfis de Alphonza C. Bryant 3º, um aluno de destaque de 17 anos do Bronx, que foi morto meses antes de sua formatura em 2013, por membros de uma gangue à procura de outra pessoa; Nicholas Naumkin, um estudante de 12 anos de Saratoga Springs, conhecido por doar sua mesada para caridade, morto acidentalmente por um amigo que brincava com a arma de fogo do pai de outro amigo em 2010; e Michael Graham, um aluno de 13 anos de Brewster, que usou a arma de seu pai para tirar a própria vida em 2013. 

O ativismo serviu como uma forma de terapia para Natasha Christopher, 42 anos. Seu filho, Akeal, levou um tiro na cabeça enquanto ia a pé para a casa de um amigo no Brooklyn, em junho de 2012. Sonhando ser um condutor de trens, ele morreu em seu 15º aniversário.

Christopher agora é voluntária em tempo integral de uma organização de controle de armas, contando sua história cerca de uma dúzia de vezes por semana. 

"Todo mundo está se preparando para o baile e formatura, e aqui estou eu acendendo uma vela de vigília pelo meu menino", ela disse. "Esta é a minha vida agora. Eu transformei minha dor em ação." 

Após a morte de seu filho, Christopher se mudou para um novo apartamento no Queens e retirou todas as fotos de Akeal. Seus outros filhos, Rashawn e Christopher, simplesmente não suportavam ver as imagens. Mesmo assim, ela manteve uma única gaveta cheia de alguns dos pertences de Akeal. Uma camisa pólo ainda cheira sua colônia favorita, algo que conforta Christopher. 

Em uma tarde recente, ela abriu um largo sorriso ao levar o tecido ao seu nariz. Então, notando a hora, Christopher devolveu a camisa na gaveta e se recompôs. Seus filhos logo voltariam da escola e ela não queria que eles a vissem lamentando pelo irmão deles. 

"Agora estou aguardando ansiosamente pela formatura de Rashawn, daqui poucos anos", ela disse. "Apenas rezo para que nada aconteça a ele até lá."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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