Um divórcio britânico da Europa? Rei Henrique 8º abriu o caminho

Alan Cowell

Em Londres (Inglaterra)

  • Wikimedia commons

    Henrique 8º, rei da Inglaterra entre 1509 e 1547

    Henrique 8º, rei da Inglaterra entre 1509 e 1547

Do outro lado do Canal da Mancha governa um grande poder inflexível, que nega os direitos de Londres. O Estado soberano não tem soberania nenhuma. 

Dias antes de um referendo sobre a saída ou não da União Europeia, essas são as imagens do apuro do Reino Unido apresentadas pelos chamados "brexiteers" (os que defendem a saída), que fazem campanha para que seu país sinalize uma nova era vigorosa de independência ao deixar o bloco de 28 países.

Mas a Inglaterra já fez isso antes. Cinco séculos atrás, o rei Henrique 8º, irritado com o poder teológico e financeiro do papado, rompeu com Roma e conduziu seus súditos aos novos pastos da Igreja Anglicana, tendo ele como sua autoridade suprema. Foi um passo que mudou a cristandade, moldando a fé e a identidade até hoje entre os cerca de 85 milhões de anglicanos do mundo. 

No processo, "a Inglaterra deixou de fazer parte de um imenso império medieval europeu e se transformou em uma nação soberana independente, livre da 'autoridade de qualquer potentado estrangeiro', acima de todos o papa", escreveu Adrian Pabst, um professor de política da Universidade de Kent, no jornal "The Guardian" em 2009. "Se você alguma vez se perguntou sobre as origens do euroceticismo inglês, basta olhar para a Reforma Protestante." 

Os paralelos históricos podem ser fáceis, porém enganadores, e as diferenças entre as duas eras são profundas, inclusive na natureza democrática da decisão do Reino Unido desta vez. 

Mas os ecos são fortes o bastante para repercutirem em um momento em que o Reino Unido está olhando para o seu passado à procura de lições que possa aplicar ao seu futuro. 

A irritação de Henrique 8º se deu pela recusa por Roma de anular seu primeiro casamento, com Catarina de Aragão. Ele teria mais outras cinco esposas em sua busca por um herdeiro masculino, em uma contradição direta da ortodoxia católica. 

A campanha dos "brexiteers" também representa um divórcio, talvez de nações e economias, mas com certeza igualmente permanente e com potenciais consequências abrangentes. Quando os britânicos votarem na quinta-feira, eles o farão nos mesmos locais de votação usados durante as eleições nacionais. Mas para o lado que perder a votação, "não haverá uma nova oportunidade, nenhum pensamento consolador na derrota de que sempre haverá a próxima eleição", escreveu o colunista Alex Massie no site da revista "The Spectator". "Não, a derrota será permanente e para valer." 

Talvez por coincidência, a campanha ganhou impulso em um momento em que a imaginação nacional foi arrebatada pelo enorme sucesso dos romances de Hilary Mantel, "Wolf Hall" e "O Livro de Henrique", que se passam durante o reinado de Henrique 8º e revivem a questão de como a elite se relaciona com adversários em casa e inimigos no exterior. 

Mantel esteve entre as quase 300 figuras culturais (entre elas atores e escritores) que assinaram uma carta pública no mês passado defendendo o voto pela permanência na União Europeia. "Que tipo de nação queremos ser?" perguntava a carta. "Somos aqueles que olham para o exterior e são abertos a trabalhar com outros para realizar ainda mais? Ou nos isolamos de nossos amigos e vizinhos em um momento de crescente incerteza global?" 

A autoanálise vai além disso. Ao longo dos séculos, a Inglaterra, e então o Reino Unido, andou empertigada no palco global como uma soberana imperial cuja população às vezes parece mais à vontade disfarçada de oprimidos. A psique nacional se apoia em uma história de invasão, submissão, conquista e autoafirmação, dos romanos e anglo-saxões até os normandos e as dinastias entrelaçadas às casas reais da Europa. 

Em anos mais recentes, ondas de imigração (os jamaicanos nos anos 50, depois paquistaneses, indianos e outros asiáticos nos anos 60) mudaram a demografia do país. O cristianismo, predominante na época de Henrique 8º, é seguido por menos da metade da população. A perda do império e a ascensão de uma economia global complexa e interconectada reacendeu a noção de que, em momentos de mudança, a Inglaterra se define pela oposição ao poder exterior maior, o papado no século 16, a União Europeia no século 21. 

Esse tema de agir sozinho impregnava os discursos de Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto os exércitos de Hitler avançavam pela Europa até a linha costeira do continente. "Nunca nos renderemos", declarou Churchill em 1940, apesar da ressalva de que o Reino Unido lutaria até que "o Novo Mundo, com toda sua força e poder, venha ao resgate e libertação do Velho". 

Os líderes políticos atuais mal conseguem resistir ao mantra churchilliano. Enfrentando perguntas hostis de uma plateia de televisão no domingo, um agitado primeiro-ministro David Cameron apontou que "no meu gabinete, estou sentado a menos de dois metros" de onde Churchill "decidiu lutar contra Hitler". 

Churchill não desejava agir sozinho, disse Cameron. "Mas não desistiu", acrescentou o primeiro-ministro. "Ele não desistiu da democracia, ele não desistiu de nossa liberdade. Queremos lutar por essas coisas hoje." 

Também foi Churchill que, em 1930, antecipou um dos argumentos dos brexiteers em um artigo citado com frequência no "Saturday Evening Post". 

"Não vemos nada exceto o bem e esperança em uma Europa comunal mais rica, mais livre e mais contente", ele disse. "Mas temos nosso próprio sonho e nossa própria tarefa. Estamos com a Europa, mas não parte dela. Estamos ligados, mas não contidos. Estamos interessados e associados, mas não absorvidos." 

David Starkey, um historiador de Cambridge crítico da União Europeia, traçou um paralelo direto com a batalha moderna pela alma da nação. 

"O relacionamento semidesligado da Inglaterra com a Europa continental não é novo e nem uma aberração", ele escreveu em 2012. "Em vez disso, está profundamente enraizado no desdobramento político dos últimos 500 anos." 

Mas os britânicos sempre parecem associar a ambição global com o tipo de preocupações paroquiais que levaram Adam Smith a cunhar a frase "uma nação de lojistas" em 1776. 

De fato, à medida que o império crescia, um grupo conhecido como Pequenos Ingleses defendia um recuo da expansão colonial, particularmente no sul da África. 

Atualmente, o termo persiste como um apelido pejorativo para os brexiteers, que preferem reivindicar o manto de novas ondas de domínio britânico redespertado, desta vez por meio de uma rede de acordos comerciais e alianças além das percebidas restrições míopes e regulação ridícula de Bruxelas. 

Alguns argumentam que a cadeia de DNA dominante dos brexiteers está no que A.A. Gill, um colunista do "The Sunday Times", chamou de "a droga mais perniciosa e debilitante dos Pequenos Ingleses, a nostalgia".

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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