Opinião: Quem são os culpados pelo apelo do "Brexit"? Os jornais britânicos

Martin Fletcher*

Em Londres (Reino Unido)

  • Ed Sykes/Reuters

    O ex-prefeito de Londres Boris Johnson faz comício pela saída do Reino Unido da União Europeia, em Selby

    O ex-prefeito de Londres Boris Johnson faz comício pela saída do Reino Unido da União Europeia, em Selby

Liderada por Boris Johnson, a mídia do país difama a UE há décadas

Ninguém deve se surpreender se o Reino Unido votar pela saída da União Europeia [a opção chamada de "Brexit"] na quinta-feira (23). Há décadas os jornais britânicos oferecem a seus leitores uma torrente interminável de artigos tendenciosos, enganosos e simplesmente mentirosos sobre Bruxelas. E o jornalista que ajudou a definir o tom --muito antes de se tornar prefeito de Londres ou a cara da campanha pró-saída-- foi Boris Johnson.

Sei disso porque fui nomeado correspondente em Bruxelas de "The Times" de Londres em 1999, alguns anos depois de Johnson ter feito reportagens de lá para outro jornal londrino, "The Telegraph". Eu tive de enfrentar as consequências.

Johnson, demitido do "Times" em 1988 por inventar uma citação, fez nome em Bruxelas não com reportagens honestas, mas com extremo euroceticismo, ataques incansáveis, zombaria e difamação da União Europeia.

Ele escreveu sobre os planos da UE de dominar a Europa, proibir as batatas fritas preferidas dos britânicos, padronizar o tamanho das camisinhas e explodir seu próprio quartel-general cheio de amianto. Esses artigos eram sem dúvida pitorescos, mas tinham pouca relação com a verdade.

Os despachos de Johnson galvanizaram o resto da indústria de jornais britânica, altamente competitiva e partidária. Eles eram muito mais divertidos que o material geralmente seco e político enviado de Bruxelas. Os editores de outros jornais, particularmente mas não exclusivamente os tabloides, começaram a pressionar seus correspondentes para que fizessem reportagens criativas como as de Johnson.

Quando eu cheguei a Bruxelas, os editores só queriam reportagens sobre eurocratas sem rosto ditando a forma dos pepinos que podiam ser vendidos no Reino Unido, ou complôs para impor um Superestado europeu, ou primeiros-ministros britânicos combatendo corajosamente na retaguarda contra um continente hostil.

Grande parte da imprensa britânica parecia incapaz de ver a UE através de qualquer outro prisma. Essas narrativas refletiam e exploravam o nacionalismo inato, o senso histórico de superioridade e o desprezo pelos estrangeiros de muitos leitores.

Artigos que não criticavam Bruxelas, que reconheciam as conquistas da UE, que admitiam que o Reino Unido tinha muitos aliados naturais na Europa e muitas vezes ganhou discussões importantes sobre, por exemplo, a criação do mercado único, eram quase invariavelmente cancelados.

A UE pode ser difícil, arrogante e incompetente, mas raramente ou nunca o leitor britânico comum soube como ela garantiu a paz no continente, abraçou os antigos países do bloco comunista da Europa Central, rompeu os cartéis ou obrigou países membros a limpar seus rios e praias.

Reprodução
Manchete do tabloide "Daily Express" diz: "Agora a UE quer proibir nossas chaleiras; torradeiras e secadores de cabelo também são alvos"

O retrato da UE pintado pelos jornais britânicos ao se aproximar o referendo de 23 de junho tem sido igualmente negativo. "The Financial Times" e "The Guardian" apoiaram a campanha do Fica, mas eles têm uma circulação relativamente pequena e pregam principalmente aos já convertidos.

"The Times" foi parcimonioso, mas finalmente declarou em 18 de junho que prefere ficar na UE. Mas o maior panfleto ("The Telegraph"), o maior jornal do mercado médio ("The Daily Mail") e o maior tabloide ("The Sun") se atiraram vergonhosamente por trás da Brexit.

Eles apregoaram os mitos de que o Reino Unido paga 350 milhões de libras (cerca de R$ 1,7 bilhão) à UE; que milhões de turcos vão invadir o Reino Unido porque a Turquia está prestes a ser aceita na UE; que os imigrantes estão destruindo nossos serviços sociais; e que depois da Brexit o Reino Unido vai continuar tendo acesso ao mercado único europeu sem permitir automaticamente a entrada de trabalhadores da UE.

Algumas amostras de manchetes recentes do "Daily Mail" dão uma amostra: "Somos da Europa: deixem-nos entrar!"; "Dez bombas que a UE mantém em segredo para depois que você votar"; "Os esnobes mais gananciosos da UE. Chega". Estas são de "The Sun": "Vamos ser recheados pela Turquia"; "Postos de controle: juízes europeus abrem os portões para ilegais"; "Todos estão convidados".

Endossando formalmente a saída em 13 de junho, "The Sun", um baluarte da imprensa xenófoba, declarou: "Se nós ficarmos, o Reino Unido será engolido em poucos anos por esse Estado federal em constante expansão dominado pela Alemanha".

O Centro de Pesquisa em Comunicação e Cultura da Universidade de Loughborough calculou que 82% dos artigos de jornal sobre o referendo favorecem a saída quando se levam em conta a circulação e a "força do endosso dos jornais".

O grupo InFacts, favorável à permanência na UE e que defende um jornalismo acurado, enviou 19 queixas à Organização de Padrões de Imprensa Independente, o órgão vigilante da mídia impressa no Reino Unido, que levaram a cinco correções, incluindo uma contra uma manchete do "Sun" que proclamava: "A rainha apoia a saída". A entidade ainda não decidiu sobre as demais.

Muitas vezes se diz que os jornais não têm mais importância. Mas eles têm quando a disputa é tão apertada e os consumidores veem títulos como "Acredite só na Grã-Bretanha" na primeira página de tabloides sempre que vão ao supermercado. Eles têm importância quando enganam seus leitores, de forma coletiva e individual, durante décadas.

O resultado final é que Johnson e seus colegas proponentes da Brexit hoje fazem campanha contra a caricatura da UE que ele mesmo ajudou a criar. Eles pedem que a população britânica se afaste de um monstro tão real quanto o de Loch Ness. Johnson pode ser sagaz e divertido, mas é extremamente perigoso. O que começou meio como brincadeira pode causar um dano terrível a seu país.

*Martin Fletcher é um ex-editor de exterior de "The Times" de Londres

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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