Autofinanciamento de Trump inclui pagamentos à família e suas empresas

Alan Rappeport

  • Mary Altaffer/AP

Donald Trump regularmente se gaba de que está financiando sua própria candidatura à Presidência, mas novas prestações de contas de financiamento de campanha mostram que ele também está transferindo um bocado de dinheiro para si mesmo no processo. 

Segundo documentos apresentados à Comissão Eleitoral Federal (FEC, na sigla em inglês), Trump, cuja campanha conta com apenas US$ 1,3 milhão em dinheiro em caixa, pagou pelo menos US$ 1,1 milhão às suas empresas e familiares em maio por despesas associadas a eventos e viagens. O total representa quase um quinto dos US$ 6 milhões que sua campanha gastou no mês. 

Os gastos causaram espanto entre especialistas em financiamento de campanha e alguns dos críticos de Trump, que questionaram se o virtual candidato republicano, que aponta para sua sagacidade nos negócios como justificativa para ser eleito, está tentando fazer o que sugeriu que faria em 2000, quando considerou uma candidatura independente: "É muito possível que eu seja o primeiro candidato presidencial a concorrer e ainda ganhar dinheiro com isso". 

"Ele pode acabar tendo lucro caso reembolse a si mesmo por empréstimos de campanha", disse Paul S. Ryan, um especialista em financiamento de campanha do Campaign Legal Center. "Ele pode ter todo seu dinheiro de volta e mais a margem de lucro pelo que sua campanha pagou para ele mesmo por bens e serviços." 

Enquanto a maioria dos candidatos lista uma série de vendedores que fornecem bens e serviços em suas prestações de contas à FEC, as de Trump estão repletas de pagamentos a seus vários clubes e prédios, sua frota de aviões e sua família. O autoproclamado bilionário é obrigado por lei a prestar contas por seus gastos desta forma, para impedir que suas empresas façam doações ilegais à sua campanha. 

Em 2015, cerca de US$ 2,7 milhões foram pagos para pelo menos sete empresas de propriedade de Trump e para pessoas que trabalham para seu império imobiliário e de marcas, os pagando por serviços prestados para sua campanha. 

Em maio, a maior despesa foi o uso por Trump do Mar-a-Lago Club, seu resort na Flórida, que recebeu US$ 423 mil. A campanha pagou US$ 350 mil à TAG Air por seus aviões privados, US$ 125 mil para os Trump Restaurants e mais de US$ 170 mil para a Trump Tower, o arranha-céu em Manhattan onde fica o quartel-general da campanha. 

A família de Trump também lucrou com a campanha no mês passado, com o negócio de vinhos de seu filho Eric recebendo cerca de US$ 1.300. 

E Trump, que disse que não receberá salário se for eleito presidente, pagou a si mesmo US$ 3.085 em maio. Segundo a prestação de contas, trata-se de um reembolso por despesas de viagem. 

Ryan disse que a extensão com que Trump está utilizando seus próprios negócios em sua candidatura é sem precedentes e que devido às suas circunstâncias financeiras singulares, ele ingressou em um território que está além do controle da FEC. 

"Nós não temos respostas claras", disse Ryan. "Historicamente, os candidatos se separariam de seus interesses de negócios ao disputar um cargo. Trump tem feito o oposto, ao promover seus negócios enquanto concorre à presidência." 

Apesar dos candidatos ganharem notoriedade quando concorrem à presidência, eles são proibidos de enriquecer diretamente por meio de suas campanhas. Quando uma campanha compra em grande quantidade cópias do livro de um candidato para distribuição, por exemplo, o candidato não pode aceitar os royalties dessa venda. 

Mas Ryan notou que a FEC permite que os candidatos que possuem imóveis comerciais os aluguem para si mesmos por valores justos de mercado, como Trump tem feito regularmente. O uso por Trump de água e bifes da sua marca em um evento se enquadra em uma área cinzenta. 

Ciara Torres-Spelliscy, uma especialista em lei eleitoral do Centro Brennan de Justiça da Universidade de Nova York, disse que Trump aparentemente não está violando as leis de financiamento de campanha, mas que pode enfrentar uma averiguação mais profunda sobre o uso de seus negócios para fins de campanha, agora que está pedindo mais explicitamente para seus apoiadores doarem dinheiro para ela. 

"É algo para se ficar de olho, porque assim que ele começa a usar dinheiro de campanha proveniente de doadores, não apenas dinheiro que ele emprestou para si mesmo, e usá-lo para algo que manterá pessoalmente, ou sua família manterá pessoalmente, isso cruzará a linha." 

Se Trump acabará lucrando com sua campanha permanece alvo de especulação. Alguns questionam se ele futuramente pedirá pelo reembolso dos mais de US$ 40 milhões que emprestou para sua campanha. Um eventual efeito da campanha sobre a marca pessoal de Trump, que ele diz representar grande parte de sua riqueza, também não é claro. 

Na terça-feira (21), os democratas tentaram apontar os pagamentos feitos por Trump para suas próprias empresas como evidência de hipocrisia. Comentaristas no site liberal "Daily Kos" ridicularizaram Trump por realizar uma "scampaign" (mistura de golpe com campanha) e por exagerar o investimento pessoal que está fazendo em sua candidatura, ao canalizar o dinheiro de volta para seu império. 

Hillary Clinton, a virtual candidata democrata e principal adversária de Trump na eleição de novembro, também o criticou pelo Twitter na terça-feira pelos seus gastos e por sua soma de arrecadação de fundos relativamente insignificante. "No que Trump está gastando seus parcos recursos de campanha?" ela disse. "Ora, em si mesmo, é claro." 

Campanha de Donald Trump arrecada apenas U$ 1,3 milhão

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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