Análise: Brexit não significa o fim do jogo, mas pode ser o primeiro dominó

Andrew Ross Sorkin

  • Reinhard Krause - 24.jun.2016/Reuters

Isto não tem a intenção de assustá-lo, mas vamos considerar os cenários absolutamente piores do Brexit.

Em todo o mundo, cientistas políticos e profissionais de finanças vêm se esforçando para decifrar as implicações econômicas da surpreendente decisão do Reino Unido de deixar a UE (União Europeia). Muitos deles já tinham feito vários cálculos, mas agora que a decisão é real surgiu um excesso de novos cenários.

A maior parte dos jogos de guerra se concentrou no golpe econômico direto para o Reino Unido. Mas os gritos de catástrofe lá quase certamente foram altos demais: sim, é provável que a economia do Reino Unido sofra em curto prazo enquanto o governo se reconstitui e tenta negociar seu divórcio da Europa. E sim, a libra provavelmente continuará perdendo valor, e a incerteza da relação entre o Reino Unido e a Europa vai paralisar o investimento até que novas regras de relacionamento sejam implementadas.

Tudo isso fará os mercados do mundo inteiro tremerem, se encolherem e, de modo geral, se comportarem como adolescentes petulantes. "As ações entraram em um novo reino de volatilidade, e é improvável que isso passe logo", disse uma nota de pesquisa da Wells Fargo divulgada na segunda-feira (27). E ela advertia: "Acostumem-se a isso".

Mas seria errado concentrar-se exclusivamente no Reino Unido ao se considerar as possíveis ramificações e alterações financeiras. Em um cenário realmente terrível, o Reino Unido é apenas a peça principal do dominó. São as próximas peças -- mais provavelmente do outro lado do canal -- que importam mais.

"Vemos o Brexit como apenas um passo em um processo que é inevitável de novos referendos em outros países para sair da UE", disse Felix Zulauf, investidor que opera um fundo hedge na Suíça, em uma nota na segunda-feira (27), alegando que "o prejuízo [da Brexit] será portanto muito maior para a UE do que para o Reino Unido".

Muito mais preocupante será se outros países da UE tentarem fazer suas próprias saídas -- mesmo que seus esforços não tenham sucesso. Mais laivos de falta de confiança entre os países do consórcio poderão em última instância causar uma crise que seria sentida muito além da Europa.

Considere isto: o governo da Itália está pensando em bombear até US$ 45 bilhões (cerca de R$ 153 bilhões) em seu sistema bancário depois da votação do Brexit. As ações dos maiores bancos italianos caíram mais de 20% desde que o resultado do referendo foi anunciado. E os bancos italianos são considerados especialmente vulneráveis porque detêm centenas de bilhões de euros em empréstimos ruins. Se o Brexit forçar uma desaceleração econômica material em todo o continente, os bancos da Itália -- sem um plano de socorro -- poderão sofrer significativamente.

Lembre-se: não é preciso entrar em pânico agora, pelo menos ainda não. Mas se mais adiante a economia da Itália falhasse e a ajuda da UE só viesse com duras condições -- lembra-se da Grécia e da possibilidade de uma "Grexit"? --, poderíamos testemunhar a secessão da Itália, que será o terceiro maior membro do consórcio depois da Alemanha e da França, supondo que o Reino Unido saia oficialmente.

Isso, por sua vez, poderá levar a uma catástrofe: a Itália provavelmente seria obrigada a voltar à lira, que quase com certeza seria tremendamente desvalorizada. Uma lira instável causaria enormes problemas para investidores e bancos de todo o mundo que têm interesses na Itália, assim como um maciço esmagamento do crédito no país. (Aliás, você poderia substituir "Itália" por "Espanha" ou "Portugal" nesse cenário e acabar praticamente no mesmo lugar.)

Richard N. Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, já previu que vários países deixarão a UE nos próximos cinco anos, o que se torna cada vez mais senso comum. Diante do baixo crescimento em tantos países da união, é difícil imaginar que não surgirá uma revolta populista.

"A economia global continua presa em uma expansão deflacionária de crescimento mínimo e índices mínimos", escreveu o Merrill Lynch em uma nota a investidores na segunda-feira. "E os eleitorados estão cada vez mais votando no mundo desenvolvido contra a deflação dos salários, o alto desemprego, a imigração e a desigualdade."

James Pethokoukis, comentarista do Instituto de Empresas Americanas, encontrou recentemente um memorando escrito em 2011 durante a crise do euro por Willem Buiter, o economista-chefe global do Citigroup, que imaginava a destruição da UE. "Uma ruptura da zona do euro seria parecida com a versão de divórcio do filme 'A Guerra dos Rose': perturbadora, destrutiva e sem um vencedor", escreveu ele, descrevendo como "até uma parcial envolvendo a saída de um ou mais países fiscal e competitivamente fracos seria caótica".

Eis o que aconteceria: "A saída, parcial ou completa, seria provavelmente precipitada por moratórias desordenadas nos países membros fiscalmente fracos e não competitivos, cujas moedas enfraqueceriam drasticamente e cujos bancos faliriam", escreveu Buiter na época. "Se a Espanha e a Itália saíssem, haveria um colapso de instituições financeiras sistemicamente importantes em toda a UE e a América do Norte e anos de depressão global."

Por enquanto, esperemos que esses piores cenários sejam apenas isso. 

Reino Unido vive tempestade política e econômica

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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