Ataques com drones mostram que sistema para conter baixas entre civis é impreciso

Scott Shane

Em Washington (EUA)

  • Michael Sohn/AP Photo

A promessa do drone (aeronave não tripulada) armado sempre foi a precisão: os Estados Unidos poderiam matar apenas o pequeno número de terroristas perigosos que queriam matar, deixando ilesos os civis nas proximidades.

Mas a divulgação sem precedentes pelo governo Obama de estatísticas de contraterrorismo ressaltou o quanto os resultados do programa de drones são mais complicados.

Elas mostraram que, até mesmo dentro do governo, não há certeza sobre quem foi morto. E destacou o ceticismo dos grupos de direitos humanos e especialistas independentes a respeito das alegações oficiais americanas sobre as mortes seletivas, incluindo entre aqueles que acreditam que os ataques eliminaram algumas pessoas muito perigosas.

"É um passo importante. É um reconhecimento de que a transparência é necessária", disse Rachel Stohl, autora de dois estudos sobre o programa de drones e uma associada sênior do Centro Stimson, um grupo de pesquisa em Washington. "Mas sinto que não temos informação suficiente para analisar se esta tática está funcionando e nos ajudando a atingir metas estratégicas maiores."

De modo mais amplo, a decisão pelo presidente Barack Obama de abrir uma janela no programa secreto de contraterrorismo tem como fundo a escalada da violência jihadista em uma lista de cidades que inclui Paris; San Bernardino, na Califórnia; Bruxelas, na Bélgica; Orlando, na Flórida; Cabul, no Afeganistão; Bagdá; e agora, Dacca, em Bangladesh.

Fora a disputa em torno do número de civis mortos, a noção de que os ataques seletivos por drones são uma resposta adequada à ameaça terrorista parece cada vez mais desgastada.

"Há um fracasso imenso de estratégia", disse Akbar S. Ahmed, o ex-diplomata paquistanês e diretor de estudos islâmicos da Universidade Americana em Washington. Os drones apenas se tornaram mais um elemento da violência em países como Paquistão e Iêmen, não uma forma de reduzir a violência, ele disse.

Entre os jovens atraídos pela ideologia jihadista, "a fila para detonar a si mesmo permanece horrivelmente longa", ele disse. "Essa fila deveria estar encurtando."

Na divulgação, na semana passada, a Casa Branca tornou pública uma ordem executiva que estabeleceu políticas para minimizar as baixas civis em ataques de contraterrorismo e um plano para começar a tornar públicas as estatísticas básicas dos ataques a cada ano.

Ao mesmo tempo, o escritório do diretor nacional de inteligência divulgou as primeiras estimativas oficiais dos mortos durante o governo Obama em ataques fora das guerras convencionais no Iraque, Síria e Afeganistão. Apesar de o anúncio não dizer, os ataques secretos ocorreram na Líbia, Paquistão, Somália e Iêmen, e a vasta maioria utilizou mísseis disparados de drones, apesar de alguns poucos terem usado caças com pilotos ou mísseis de cruzeiro disparados a partir do mar.

Desde 2009, disse o governo, 473 ataques mataram entre 2.372 e 2.581 combatentes. Eles são definidos como membros de grupos, como a Al Qaeda e o Taleban, que são considerados em guerra contra os Estados Unidos, ou outros que representam uma "ameaça contínua e iminente" aos americanos.

Nas estatísticas mais debatidas, a declaração estimou que entre 64 e 116 não combatentes foram mortos. As autoridades disseram que esses números incluem tanto civis claramente inocentes quanto outros para os quais havia evidência insuficiente para se ter certeza de que eram combatentes.

Os números são muito menores do que as estimativas anteriores de três organizações independentes que rastreiam os ataques, com base em reportagens jornalísticas e outras fontes.

The Long War Journal, cujas estimativas são as mais baixas, contou 207 mortes de civis apenas no Paquistão e no Iêmen. O grupo de políticas de segurança Nova América, em Washington, estimou um mínimo de 216 nesses dois países, e o Birô de Jornalismo Investigativo, com sede em Londres, estimou o número de civis mortos durante o governo Obama entre 380 e 801.

Scott F. Murray, que se aposentou da Força Aérea como coronel depois de 29 anos, foi um oficial de carreira de inteligência envolvido na supervisão de ataques aéreos no Iraque, Afeganistão e Síria. Ele disse que apesar de não estar envolvido diretamente nos ataques de contraterrorismo fora das zonas de guerra, as estimativas de mortes de civis foram "mais baixas do que eu esperava".

Ele disse que as mortes de civis podem ser resultado de múltiplas causas, incluindo inteligência incompleta sobre as identidades das pessoas em terra, falha de equipamento e erro humano.

Talvez com mais frequência, disse Murray, problemas surgem quando civis entram em uma área de alvo antes do início da vigilância pelo drone, ou quando um civil entra repentinamente em uma zona de alvo pouco antes de um ataque.

"Na noite em que você opta por atacar, pode ser que cunhados cheguem mais cedo ou que haja uma festa de aniversário infantil ocorrendo, e você não está olhando quando todos chegaram", disse Murray. "São coisas como essas em uma guerra que levam alguém a beber. Você nunca tem uma informação perfeita."

Brandon Bryant, que trabalhou em equipes de drone da Força Aérea de 2006 a 2011 e se tornou um crítico do programa, lembrou de um ataque em 2007 contra um comandante local do Taleban. Enquanto o míssil Hellfire acelerava na direção da pequena casa, ele disse, uma criança pequena, talvez assustada com o estrondo sônico do míssil, correu para dentro da casa e foi morta.

"Estas coisas estão gravadas a fogo no meu cérebro. Realmente não tenho como esquecê-las", disse Bryant. Ele acrescentou que acredita que o total de mortes de civis é muito maior do que a estimativa do governo mais por ilusão das autoridades do que por logro deliberado.

"Eles estão apenas iludindo a si mesmos a respeito do impacto", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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