Sem poder sair do lugar, família de rohingya lida com separação e escassez há 1 ano

Chris Buckley

  • Rahman Roslan/The New York Times

    Família de Hasinah Izhar e Dil Muhammad Rahma, refugiados rohingya na Malásia

    Família de Hasinah Izhar e Dil Muhammad Rahma, refugiados rohingya na Malásia

Para Hasinah Izhar, parece que se passou uma vida desde que ela subiu às pressas em um barco na costa lamacenta de Mianmar, com três de seus filhos a tiracolo, e se juntou ao êxodo da minoria perseguida dos rohingya, em busca de uma vida melhor na Malásia.

Mas no ano que se passou desde que ela contou sua história para o "New York Times", pouca coisa mudou. O fardo de cuidar de três crianças e um marido desempregado, enquanto separada do filho que ela deixou em Mianmar, continua difícel de carregar.

"Gostaria de voltar voando como um pássaro para Mianmar, mas não há paz nem segurança lá", ela disse no apertado quarto alugado que divide com seu marido e três filhos em Penang, na Malásia. "Mas não queremos ficar na Malásia, porque não podemos trabalhar e viver em liberdade."

A maior mudança veio em março, quando o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) de Kuala Lumpur reconheceu Izhar e seus três filhos como refugiados. Seus cartões de refugiados dão alguma proteção contra as frequentes abordagens policiais e um melhor acesso ao sistema de saúde, embora por um preço ainda inacessível para muitos.

A família também recebeu quase US$ 12 mil em doações de leitores do "NYT" que ficaram comovidos com o artigo e quiseram ajudar. Izhar disse que ela e seu marido usaram o dinheiro para pagar dívidas contraídas durante sua viagem a partir de Mianmar, para pagar o aluguel e as despesas com a escola dos filhos.

Mas o marido de Izhar, Dil Muhammad Rahman, não recebeu um cartão de refugiado. O casal acredita que seja porque as autoridades consideram prioridade dá-los para mulheres e crianças.

A Acnur de Kuala Lumpur disse por e-mail que não comentava sobre casos específicos, mas que em geral sua "capacidade limitada requeria que ela priorizasse refugiados com maior necessidade de proteção internacional."

Mesmo que tivesse status de refugiado, Rahman não poderia trabalhar legalmente. Assim como muitos rohingya, ele procura trabalhos informais na construção civil, em jardinagem e serviços de reparos domésticos. Mas mesmo trabalhos braçais têm sido difíceis de achar, porque Rahman não sabe falar malaio, e empregadores e outros trabalhadores ficam preocupados com seu status irregular, segundo ele.

Talvez até pior seja o fato de que o filho que Izhar deixou em Mianmar, a quase 2.000 km de lá, permanece preso no país. Jubair, agora com 14 anos, foi ficando cada vez mais revoltado.

"Quando ligo para ele", disse Izhar, "ele começa a chorar e reclama: 'Por que você não me leva para a Malásia? Você sempre diz que vai me levar em breve. Por quanto tempo mais vai me enganar?'"

Izhar deixou seu filho mais velho em parte porque ela não poderia pagar a taxa do coiote, que custa muito mais para homens jovens, mas esperava que ele pudesse se juntar à família. Ela se sentiu compelida a fugir da perseguição em Mianmar, como contou ao "NYT" no ano passado, mas jurou que "se eu conseguir sobreviver, o trarei para a Malásia."

Esse objetivo continuou fora de alcance. Mianmar não reconhece os rohingya como cidadãos e não permite que eles saiam. Sair clandestinamente tornou-se ainda mais difícil desde que governos na região passaram a coibir o tráfico depois que ele culminou em uma crise no ano passado.

Izhar tampouco pode voltar para Mianmar mesmo para visitar, porque ela chegou à Malásia como uma imigrante sem documentos, então qualquer viagem para fora seria arriscada, e seria praticamente impossível para ela voltar legalmente para Mianmar.

Ela ligava de vez em quando para Jubair e enviava dinheiro, mas ele não encontrou trabalho estável ou um lar acolhedor, embora esteja morando com um dos irmãos dela, um instrutor de islamismo que também não tem conseguido encontrar trabalho fixo. Jubair ganhou um pouco de dinheiro como ajudante em uma fazenda, carregando água e plantando arroz.

Izhar tem esperanças de conseguir migrar com sua família para os Estados Unidos, a Austrália ou o Canadá como refugiados. Ela disse: "Só então conseguiremos progredir com a vida de nossos filhos".

Mas são muito escassas oportunidades como essas, e ainda que a família tivesse a chance de migrar para lá, o filho Jubair não atenderia as condições necessárias.

Dos quase 1.500 rohingya que chegaram à Indonésia, Malásia e Tailândia e foram oficialmente registrados no ano passado, somente 46 foram se estabelecer em um terceiro país.

*Com contribuição de Kabir Ahmed Amzad

Tradutor: UOL

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