Ex-premiê, cleptocrata ucraniano quer seu dinheiro e asilo nos EUA

Leslie Wayne

  • Efrem Lukatsky/AP

Em um dia qualquer, Pavlo Lazarenko parece um pai comum, levando seus três filhos pequenos para a escola e esperando sua mulher voltar do trabalho para casa. Às vezes tem uma ou duas coisas para fazer na rua.

Mas na verdade Lazarenko é um cleptocrata internacional escondendo-se em plena luz do dia em um subúrbio americano. Ele é ex-premiê da Ucrânia, onde foi acusado de desviar centenas de milhões de dólares para uso pessoal. A Transparência Internacional o classificou como um dos 10 políticos mais corruptos do mundo.

Ele é procurado em sua Ucrânia natal, foi condenado por lavagem de dinheiro nos Estados Unidos e, à revelia, na Suíça. Além disso, seu nome surgiu recentemente nos documentos secretos vazados conhecidos como os Panama Papers em um longo caso de corrupção envolvendo o suposto roubo dos recursos de gás natural da Ucrânia para si mesmo e seus aliados políticos.

Lazarenko está também travando duas batalhas intensas contra o governo americano. Uma é a respeito de US$ 250 milhões em contas em Guernsey, na Suíça, e outros lugares, que o governo alega serem frutos de atos de "fraude, extorsão, suborno, sonegação e apropriação indevida" de Lazarenko. A outra é seu esforço para permanecer nos Estados Unidos, onde ele vem tentando obter asilo político desde que chegou em 1999.

Até agora, Lazarenko está mais do que no comando. Com um exército de advogados, ele tem conseguido evitar a deportação, ainda que tenha cumprido pena em um presídio federal por lavagem de dinheiro alguns anos atrás. A batalha em torno da devolução de seu dinheiro para a Ucrânia está entravada nos tribunais há anos, e assim ficará por muito tempo.

Ele está em um limbo jurídico, não sendo nem um cidadão, nem tendo um visto, e ainda assim ele é capaz de operar livremente a partir de sua casa na Califórnia. O caso de Lazarenko demonstra quão difícil é para o governo americano ir atrás do que ele chama de ganhos desonestos daqueles com amplo poder e influência.

"Isso mostra quem derrota quem na batalha contra a corrupção", disse Kenneth Hurwitz, responsável jurídico anticorrupção na Open Society Justice Initiative. "Ele tem recursos e tem muito dinheiro em jogo."

Em resposta às perguntas, o advogado de Lazarenko, Daniel Horowitz, se negou a comentar ou dar acesso a Lazarenko.

Atualmente Lazarenko, 63, vive no condado de Marin na Califórnia, do outro lado da Golden Gate Bride em San Francisco, com sua segunda mulher e uma nova família.

Embora sua residência atual seja confortável, está muito distante da mansão de 1.700 m2 em Novato, uma das maiores da Califórnia, que ele comprou antes de fugir da Ucrânia em 1999 um passo à frente dos promotores.

Essa mansão de Novato, também no condado de Marin, foi apreendida pelo governo federal em 2013 depois que Lazarenko se tornou o segundo chefe de Estado —Manuel Noriega, o ditador panamenho, foi o primeiro— a ser condenado em tribunais americanos por lavagem de dinheiro. Em um vasto indiciamento de 53 acusações em 2000, o governo identificou US$ 114 milhões que Lazarenko lavou através de instituições financeiras nos Estados Unidos. Ele foi preso em 2009.

"Eu ficaria desapontada se os Estados Unidos lhe concedessem asilo", disse Daria Kaleniuk, diretora-executiva do Centro de Ação Anticorrupção de Kiev, capital da Ucrânia. "É muito cinismo dele se candidatar a asilo nos EUA ao mesmo tempo em que briga com o país pelos US$ 250 milhões que bloquearam e estão tentando repatriar para o governo da Ucrânia."

Além disso, Kaleniuk disse: "Os contribuintes americanos pagaram muito para entrar com ações contra ele em Washington e na Califórnia."

Nos Estados Unidos, a estranha saga de Pavlo Lazarenko começou quando seu avião pousou no aeroporto John F. Kennedy em fevereiro de 1999. Ele fugia de acusações de que havia encomendado o assassinato de um adversário político; ele escapou por pouco de uma tentativa de assassinato. Ele foi embora um dia antes que promotores ucranianos o acusassem de desviar recursos governamentais (eles arquivaram as acusações quando ele fugiu do país). Ele também era procurado pelo governo da Suíça.

Pelo que todos dizem, ele chegou esperando a vida de um oligarca estrangeiro. Ele já tinha um passaporte panamenho. Uma série de empresas de fachada escoaram dinheiro para comprar sua mansão de US$ 6,75 milhões em Novato. A imensa propriedade, que já foi ocupada pelo astro de Hollywood Eddie Murphy, possuía dois heliportos, várias piscinas, um salão de baile do tamanho de um celeiro e maçanetas folhadas a ouro. À sua espera estavam sua primeira mulher e seus três filhos, já frequentando escolas locais.

Também à sua espera estava o FBI, que o tinha em uma lista de pessoas a serem vigiadas. Ele foi enviado às pressas para um presídio da Cidade de Nova York e nunca passou nenhuma noite em seu palácio da Califórnia. Um ano depois, ele foi indiciado por lavagem de dinheiro. Em 2004, ele foi condenado e, depois de apelações, foi para um presídio federal em 2009. Depois de sair da prisão em novembro de 2012, ele passou por um centro de detenção da agência de Imigração e Aduana, embora esta tenha se negado a dizer quando o liberou.

Enquanto Lazarenko esteve na prisão, um caso aberto pelo governo americano em 2004 para apreender seus bens no exterior avançava com dificuldades. Com o tempo, o governo localizou dinheiro que Lazarenko havia escondido em Guernsey, Antígua, Suíça, Liechtenstein e Lituânia. Ele barrou outros reivindicantes ao dinheiro e obteve um mandado de bloqueio evitando que Lazarenko tivesse acesso a ele. Mas o caso é tão complicado, envolvendo descobertas vultosas em muitos países, que só deve ir a julgamento em 2018.

"Esse caso se destaca em todas as categorias", disse David B. Smith, um advogado especializado em confisco de bens que representa Lazarenko. "É o caso mais amplo, mais longo e mais complexo de todos os tempos, que envolve governos do mundo inteiro. Só as moções preenchem 10 volumes. Poucos casos duram 13 ou 14 anos. É assombroso."

Horowitz, advogado de Lazarenko, se negou a comentar. Em documentos submetidos aos tribunais, ele comparou Lazarenko a Jean Valjean, o herói perseguido, mas ético, dos "Miseráveis" de Victor Hugo, que é caçado por um inspetor de polícia obcecado. O governo americano, ele disse, abordou Lazarenko com "a intensidade que normalmente se reserva a chefes do narcotráfico, pedófilos ou outro indivíduos altamente perigosos."

Horowitz, um advogado de defesa famoso e comentarista frequente em programas de televisão, viajou pelo mundo coletando provas para defender Lazarenko. Seu site diz que "a visão pró-Ocidente de Lazarenko e sua crença em uma economia livre irritaram os ditadores da Ucrânia e levaram ao acordo secreto que levou à sua prisão. A Ucrânia nunca se recuperou."

Durante as batalhas jurídicas, sua vida pessoal mudou muito. Ele agora está casado com Oksana Tsykova, que foi sua intérprete em seu julgamento em 2004 e estava grávida de seu filho —o primeiro de três— na época. Tsykova é proprietária da casa deles no condado de Marin, avaliada em US$ 1,8 milhão, com reserva de usufruto. Ela também é advogada na firma de Horowitz.

É pouco provável que Lazarenko vá voltar para a Ucrânia. A promotoria disse que Lazarenko seria preso e tem uma série de provas contra ele.

Atualmente, Lazarenko alega estado de pobreza. Em documentos submetidos ao tribunal, ele diz que não tem renda, deve US$ 100 mil a um ex-advogado e depende totalmente do salário de sua mulher. Lazarenko também diz que não tem autorização para trabalhar e está desempregado. Ademais, pelo que todos dizem, ele não fala muito bem o inglês e depende de um intérprete.

Nem todos acreditam na história de Lazarenko. Martha Boersch, a antiga promotora-chefe no caso de lavagem de dinheiro, disse: "Ele ainda tem muito dinheiro escondido."

Uma das grandes dúvidas é por que Lazarenko, um criminoso, não foi deportado.

"Parece-me estranho", disse Hurwitz, da Open Society. "Você tem crianças de 12 anos da América Central sendo expulsas, enquanto ele continua aqui."

Em geral, uma condenação criminal não proíbe requerentes de asilo de pleitearem perante um tribunal de imigração. Marc Van der Hout, o ex-advogado de imigração de Lazarenko, se negou a comentar sobre o caso, mas disse que não eram incomuns casos de asilo se arrastarem por anos. A agência de Imigração e Aduana tem a política de não comentar sobre casos individuais.

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