Dinheiro europeu faz Jordânia abrir vagas de trabalho a refugiados sírios

Somini Sengupta

Em Amã (Jordânia)

  • Tara Todras-Whitehill/The New York Times

    Walaa Mohammad, refugiada síria que trabalha em uma fábrica em Ramtha, na Jordânia

    Walaa Mohammad, refugiada síria que trabalha em uma fábrica em Ramtha, na Jordânia

Em uma movimentada avenida de Amã, capital da Jordânia, um vendedor de café chamado Mohammed al-Mulki não treme mais quando vê um carro da polícia encostar. Em uma loja de doces próxima, o balconista, Zuheir Taleb, não foge mais pelos fundos quando um oficial entra.

E no norte do país, nos campos escorchantes a poucos quilômetros da fronteira síria, Badra Hadahed, uma avó diabética que faz trabalho pesado, não se preocupa mais com ser arrancada dos campos de pepinos e enviada de volta a sua terra.

Como muitos síriosque fugiram da guerra civil em seu país, os três trabalham ilegalmente na Jordânia. Mas em uma experiência delicada e inteligente que surgiu da vontade da Europa de conter a chegada de estrangeiros a suas praias, a Jordânia foi convencida a deixar que esses síriosganhem a vida honestamente lá, em troca de recompensas financeiras potencialmente grandes.

Com 650 mil refugiados síriosregistrados com a ONU dentro de suas fronteiras, a Jordânia há muito tornava quase impossível que eles trabalhassem legalmente, citando preocupações com o alto desemprego entre seus cidadãos. Mas sob o novo experimento o governo concedeu 13 mil licenças de trabalho a síriose promete emitir até 50 mil até o fim do ano --e mais dezenas de milhares no futuro.

Em troca, o Banco Mundial está dando à Jordânia um empréstimo de US$ 300 milhões livre de juros, ajudas que geralmente são reservadas aos países extremamente pobres da África. Os países ocidentais, incluindo os EUA, ofereceram aproximadamenteUS$ 60 milhões para construir escolas para as crianças sírias. E a Jordânia está perto de conseguir o que mais deseja: exportações livres de impostos para a UE, especialmente de confecções feitas em suas zonas de exportação industrial.

Em suma, os líderes ocidentais estão usando sua influência financeirae política para convencer a Jordânia de que vale a pena ajudar os refugiados a melhorar sua sorte neste país, para que eles não cruzem o Mediterrâneo em barcos frágeis em busca de uma vida melhor na Europa. É uma mudança marcante tanto para os países doadores como para a Jordânia, que, depois de absorver gerações de refugiados de guerras em todo o Oriente Médio, tentou impedir que os síriosestabelecessem uma base permanente.

"Alguns podem dizer que esta é a oportunidade de o governo conseguir muito dinheiro", disse Stefan Dercon, professor na Universidade de Oxford e economista-chefe na agência de desenvolvimento do governo britânico, que apoia o esforço na Jordânia. "Eu diria que também é a única oportunidade que ele tem de reformar sua economia e criar empregos, com financiamento internacional substancial."

A Jordânia não é o único país que tenta alavancar a ansiedade da Europa sobre os refugiados e migrantes. A Turquia negociou um acordo que envolve receber de volta a maioria dos que atravessaram o mar Egeu, rumo à Grécia, em troca de US$ 6,6 bilhões em ajuda europeia e a dispensa de vistos para que os turcos entrem na Europa.

A Europa também está prometendo mais de US$ 4 bilhões em ajuda a vários países africanos em troca de sua ajuda para conter o êxodo do continente. Até o Sudão, há muito tempo sob sanções europeias e americanas por seu fraco histórico de direitos humanos, está obtendo dinheiro como parte do pacote. A Líbia recebe ajuda da Europa para impedir que os barcos de migrantes cruzem o Mediterrâneo, abordagem que a HRW (Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos) descreve como terceirizar "o trabalho sujo para as forças líbias".

As mudanças nas políticas de ajuda aos refugiados surgem enquanto a guerra e a perseguição expulsam números recordes de pessoas de seus países para outros de renda média e baixa, como a Jordânia, onde são acusados de sobrecarregar os serviços públicos e fazer baixar os salários ao trabalharem por menor remuneração.

O acordo com a Jordânia, anunciado em fevereiro como parte do Compacto da Jordânia, é descrito de forma otimista por seus idealizadores como "transformar a crise dos refugiados síriosem uma oportunidade de desenvolvimento". Sua meta é atrair novos investimentos estrangeiros e criar empregos para jordanianos e sírios. O risco, como indicam em privado seus propositores, é que não entrem novos investimentos e a economia da Jordânia continue fraca e o ressentimento local cresça.

Até recentemente, apenas 5.000 refugiados síriostinham licenças de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão da ONU que apoia e cria políticas trabalhistas, estimou que 50 mil pessoas trabalham sem registro na Jordânia --aproximadamente o número que o governo promete legalizar só este ano.

Para os líderes jordanianos, que enfrentam a dívida e uma economia que cresce só 2,4% ao ano, o acesso ao mercado europeu é um incentivo crucial.

O desafio para a Jordânia é demonstrar que o novo acordo vai reanimar sua economia e criar os empregos que seus cidadãos querem.

"Esta é uma boa oportunidade para a Jordânia atrair novos investimentos", disse Raed Nimri, um engenheiro jordaniano que se tornou assistente social na Mercy Corps, grupo sediado no Oregon (EUA) que ajuda pessoas durante crises. "Em cinco ou dez anos, os síriosvoltarão para casa. O investimento ficará."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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