Opinião: Divididos por raça, unidos pela dor nos EUA

Frank Bruni

  • Jonathan Bachman/ Reuters

    9.jul.2016 - Manifestante para diante de policiais durante protesto pela morte de Alton Sterling, detido e morto por policiais, em Baton Rouge, Louisiana, EUA

    9.jul.2016 - Manifestante para diante de policiais durante protesto pela morte de Alton Sterling, detido e morto por policiais, em Baton Rouge, Louisiana, EUA

Não há respostas prontas para como por fim a este ciclo de derramamento de sangue, essas imagens de partir o coração da Louisiana, Minnesota e Texas, de um país em uma situação desesperadora, com tanta dor para aplacar, fúria para exorcizar e injustiça para confrontar.

Mas temos escolhas sobre como absorver o que aconteceu, sobre a irreflexão com que apontamos dedos. Fazer as escolhas certas é crucial e nos deixa com a esperança real de encontrar uma solução. Fazer as erradas coloca essa possibilidade ainda mais fora de alcance.

Assim como o debate público que nos designa a tribos diferentes e interesses beligerantes, quando quase todos nós queremos a mesma coisa: que as mortes tenham fim e que cada americano se sinta seguro e respeitado.

Há desacordos sobre como chegar lá, mas eles não justificam as manchetes inflamatórias que apareceram na capa do "The New York Post" ("Guerra Civil") ou no topo do "The Drudge Report" ("Vidas Negras Matam"). Eles não precisam se tornar linhas de batalha endurecidas.

"Nós nos degradamos em uma forma de separatismo e assumimos nossos lados", disse Malik Aziz, vice-chefe de polícia de Dallas, em uma entrevista para a "CNN" na sexta-feira. "Dias como o de ontem, ou anteontem, não deveriam acontecer. Mas quando acontecem, vamos agir como seres humanos. Vamos nos comportar como homens e mulheres honrados, nos sentar à mesa e dizer: 'O que podemos fazer para que isso não ocorra de novo?' e sermos sinceros em nossos corações."

"Estamos falhando nisso em todos os lados", ele concluiu, expressando um sentimento proferido por autoridades públicas negras e brancas, democratas e republicanas, em lamentos que fazem uso do mesmo vocabulário.

Separados, divididos: eu continuo ouvindo essas palavras e suas variantes, um relatório a respeito dos Estados Unidos tão condenatório quanto indiscutível.

Separados, divididos: vejo entendidos tentando falar mais alto uns que os outros, em um alarido que está se tornando cada vez mais difícil de suportar.

Separados, divididos: fico pensando em Donald Trump e como ele, em particular, explora nossa desavença e a aprofunda.

Na sexta-feira ele não o fez, postando mensagens de pesar refletidas no Twitter e Facebook e anunciando o adiamento de um discurso sobre oportunidade econômica que estava agendado para fazer. Fora isso se manteve em silêncio, e apesar de ser uma postura incomum para ele, estava de acordo com o choque e confusão que os americanos estavam sentindo.

Hillary Clinton lidou com essa confusão em uma entrevista para Wolf Blitzer da "CNN", destacando: "Não podemos nos engajar em retórica odiosa". Ao ser perguntada se e por que ela seria melhor do que Donald Trump para lidar com as relações raciais, ela se recusou a rebaixá-lo. Aquele não era um momento para aquilo.

Não podemos continuar caindo nas mesmas velhas armadilhas. Não podemos continuar tirando conclusões precipitadas, a fazer conexões errôneas. De forma previsível, houve uma recorrência de conversa após as mortes de cinco policiais em Dallas na noite de quinta-feira de que se tratava de fruto e culpa do movimento Vidas Negras Importam, e que os gritos de mau comportamento por parte da polícia equivalem a uma oferta de recompensa pelas vidas dos policiais.

Trata-se de uma interpretação intencionalmente seletiva dos fatos. Ela ignora o perfil emergente do suposto atirador de alguém que agia sozinho, não emissário de qualquer grupo queixoso.

Ela ignora quão pacificamente o protesto em Dallas teve início e como prosseguia de forma calma até o início dos disparos. Negros e brancos estavam juntos. Civis e policiais estavam juntos. Aqueles policiais estavam lá precisamente porque foram informados a respeito da manifestação e participaram de seu planejamento. Eles eram uma presença colaborativa, não inimiga.

"Tínhamos policiais tirando fotos com os manifestantes, os protegendo, assegurando que chegassem de um ponto ao outro", lembrou Aziz.

E o instinto deles em meio aos disparos não foi de fugirem para se proteger, mas correr na direção de sua fonte e retirar os manifestantes. Se não prestarmos o tributo pleno a isto, não obteremos a prestação de contas plena dos policiais que também precisamos, e nunca poderemos tratar das exigências urgentes, legítimas, no coração da manifestação em Dallas e de outras como ela.

"Estamos feridos", disse o chefe de polícia de Dallas, David Brown, durante uma coletiva de imprensa na manhã de sexta-feira. "Nossa profissão está ferida."

Ele é negro. Assim como muitos outros policiais na força de Dallas, uma força que conta com diversidade e um bom retrospecto. E ele implorou a todos que se lembrem daqueles homens e mulheres, em Dallas e em outros lugares, "que literalmente colocam suas vidas em risco para proteger nossa democracia".

"Não sentimos muito apoio na maioria dos dias", ele prosseguiu. "Não vamos permitir que hoje seja como a maioria dos dias."

Esse apelo foi ainda mais comovente pela forma como uniu policiais e manifestantes no desejo de que não fossem feitos julgamentos condenatórios abrangentes a toda uma classe de pessoas, que era preciso resistir ao preconceito, que era preciso renunciar ao cinismo.

Temos que manter os corações abertos e a cabeça fria dessa forma.

Mas também precisamos ser honestos e também não nos esquivarmos da feiura exposta pela tecnologia e pelas redes sociais, pelas imagens da polícia crivando de balas Alton Sterling, em Baton Rouge, Louisiana, na terça-feira, e as de Philando Castile sangrando e morrendo ao lado de sua namorada, Diamond Reynolds, na quarta-feira em Falcon Heights, Minnesota. Repetidas vezes, Reynolds diz "senhor" ao policial que atirou em Castile e cuja arma ainda estava visivelmente apontada para o interior do carro onde ela e sua filha de 4 anos, Dae'Anna, estavam sentadas. É um retrato chocantemente íntimo de descrença e impotência.

Na manhã de sexta-feira, Reynolds apareceu na "CNN" e insistiu que sua história não deve ser vista de forma isolada. "Trata-se de todas as famílias que perderam pessoas", ela disse.

"Essa coisa que aconteceu em Dallas, não foi porque algo ocorreu em Minnesota", ela prosseguiu. "É maior do que Philando. É maior do Trayvon Martin. É maior do que Sandra Bland. É maior do que todos nós."

Ela acrescentou que sexta-feira ocorreu a formatura de Dae'Anna na pré-escola, que Castile deveria estar lá, e que a ausência dele seria difícil para a menina.

Refletindo sobre a morte de Castile, o governador de Minnesota, Mark Dayton, perguntou: "Isso teria acontecido se aqueles passageiros fossem brancos? Eu acho que não".

É uma pergunta importante, um palpite defensável, e precisamos ouvir e expressar ambos sem o início instantâneo de uma guerra política, sem a sobreposição de causas e eleitorados particulares sobre a narrativa, como se cada novo desdobramento e cada nova morte fosse um cassetete a ser empunhado.

Há apenas uma causa aqui: a adoção de medidas apropriadas, na Justiça Criminal, no treinamento policial, nas escolas, no discurso público, para que cada um de nós cuide de seus afazeres diários com o máximo de paz possível. E o eleitorado de tudo isso é toda a América.

Entre as escolhas importantes que temos que fazer é a quem devemos escutar. Há muitas vozes por aí buscando agitar. Há outras que não. Três de Dallas se destacam.

Uma foi a do prefeito Mike Rawlings, que lamentou como questões raciais "continuam nos dividindo".

"Isso está ocorrendo na minha geração de líderes", disse o prefeito, que é branco. "É em nosso turno que permitimos que isso continue infeccionando, que deixamos que a próxima geração siga por um caminho vicioso de retórica e ações que colocam uns contra os outros."

Outra voz foi a de Erik Wilson, vice-prefeito interino da cidade, que é negro. "Nenhum conflito já foi resolvido com violência", ele disse à "CNN". "Ele sempre é resolvido com diálogo. E é nisso que precisamos manter nosso foco."

E há o vice-chefe de polícia Aziz, que também é negro. Referindo-se aos casos nacionais de excesso de força por parte da polícia, ele disse: "Devemos ser responsabilizados, e para isso temos um sistema de Justiça Criminal".

Mas de igual importância, ele disse, é "um diálogo real com a comunidade de que não podemos ser separados. Não podemos nos dividir".

Separados, divididos: essas palavras de novo. Elas são nossa maldição no momento. Serão nosso destino?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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