Em meio a previsões econômicas sombrias, cubanos temem retorno aos tempos de crise

Victoria Burnett

Na Cidade do México

  • Enrique de la Osa/Reuters

Durante a turbulência econômica do início dos anos 90, os cortes no fornecimento de energia elétrica em Havana eram tão rotineiros que o incomum eram as poucas horas diárias de eletricidade.

Agora, previsões econômicas sombrias, a crise em sua protetora, a Venezuela, e os alertas do governo para economizar energia incitam temores entre os cubanos de um retorno aos dias em que usavam lamparinas a óleo para iluminar suas salas de estar e caminhavam ou pedalavam quilômetros até o trabalho, porque não havia gasolina.

Falando aos membros do Parlamento na semana passada, o ministro da Economia de Cuba, Marino Murillo, disse que o país terá que reduzir o consumo de combustível em quase um terço no segundo semestre e reduzir os investimentos do Estado e importações. Seus comentários, feitos em uma sessão fechada, foram publicados no sábado pela mídia de notícias estatal.

A economia de Cuba cresceu apenas 1% no primeiro semestre do ano, em comparação a 4% no ano passado, devido à queda na receita das exportações e do fornecimento de combustível à ilha, disse Murillo.

"Isso nos coloca em uma situação econômica tensa", ele disse.

A queda nos preços do petróleo e níquel e uma safra ruim de cana-de-açúcar contribuíram para a situação difícil de Cuba, disseram as autoridades. A agonia econômica da Venezuela leva muitos cubanos a se perguntarem por quanto mais tempo sua aliada rica em petróleo continuará fornecendo o óleo crucial à ilha, especialmente em caso de queda do governo do presidente Nicolás Maduro.

Esses temores cresceram na semana passada, depois que Murillo alertou sobre apagões e foi pedido aos funcionários públicos que reduzissem sua jornada de trabalho e reduzissem acentuadamente o uso de energia.

"Todos sabemos que é o petróleo venezuelano que mantém as luzes acesas", disse Regina Coyula, uma blogueira que trabalhou por vários anos para segurança do Estado cubano. "As pessoas estão convencidas de que se Maduro cair, haverá apagões aqui."

O presidente de Cuba, Raúl Castro, reconheceu esses temores na sexta-feira, mas disse que eram infundados.

"Há especulação e rumores de um colapso iminente de nossa economia e um retorno à fase aguda do 'Período Especial'", disse Castro em um discurso ao Parlamento, referindo-se aos anos 90, quando Cuba perdeu o equivalente a bilhões de dólares em subsídios soviéticos.

"Não negamos que podem vir a ocorrer efeitos ruins", ele acrescentou, "nas estamos em melhores condições do que estávamos na época para enfrentá-los".

Mark Entwistle, um consultor de negócios que foi o embaixador do Canadá em Cuba durante o Período Especial, disse que apesar da dependência do combustível venezuelano, a economia da ilha está agora mais sofisticada e diversificada do que antes do colapso soviético.

Além disso, ele disse, Cuba tem "essa capacidade social e política fenomenal de absorver mudanças críticas".

Mesmo assim, alguns estão perturbados com a perspectiva de apagões. Nenhum dos moradores de Havana entrevistados no fim de semana enfrentou falta de energia elétrica em seus bairros.

Em um discurso franco aos jornalistas neste mês, Karina Marrón González, vice-diretora do "Granma", o jornal oficial do Partido Comunista em Cuba, alertou para o risco de protestos como os de agosto de 1994, quando centenas de cubanos furiosos tomaram as ruas de Havana por várias horas.

"Estamos criando uma tempestade perfeita", ela disse, segundo uma transcrição de seu discurso que foi publicada em vários blogs. Ela acrescentou: "Senhores, este país não pode suportar outro 93, outro 94".

Herbert Delgado-Rodríguez, 29 anos, um estudante de arte de 29 anos, lembrou de sua mãe cozinhando com carvão nos anos 90.

"Não sei se a situação chegará a ponto de ocorrer protestos de rua", ele disse. Mas, ele acrescentou, os cubanos "não tolerariam as dificuldades extremas que enfrentamos nos anos 90".

Uma funcionária de um banco disse que os funcionários foram instruídos a usar o ar condicionado por apenas duas horas por dia e a trabalhar apenas meio expediente. O combustível para os carros do banco foi reduzido pela metade, ela disse. Uma professora universitária disse que lhe deram um ventilador para seu escritório e lhe disseram para trabalhar em casa sempre que possível.

José Gonzales, que é dono de um pequeno café no centro de Havana, foi mais otimista.

"Raúl está apenas nos pedindo para cortar o consumo desnecessário, apenas isso", ele disse, acrescentando que a conversa sobre outro período especial é "apenas especulação".

Segundo um acordo assinado em 2000, a Venezuela fornece a Cuba cerca de 80 mil barris de petróleo por dia, um acordo no valor de cerca de US$ 1,3 bilhão, disse Jorge Piñon, um especialista em energia da Universidade do Texas. Em troca, Cuba envia milhares de médicos e outros especialistas à Venezuela.

Na sexta-feira, Castro disse que ocorreu uma "certa contração" desse fornecimento de petróleo.

O tamanho da contração não é claro. A agência de notícias "Reuters" noticiou na semana passada que os envios de óleo cru para Cuba caíram 40% no primeiro semestre deste ano. Piñon disse que ao menos parte da redução é de petróleo que a Venezuela refina em Cuba e então é enviado de volta.

Se a Venezuela suspender as exportações de petróleo para Cuba, isso não necessariamente provocaria uma crise política, disseram especialistas e blogueiros.

Os Estados Unidos poderiam oferecer ajuda visando impedir instabilidade ou um êxodo em massa de cubanos desesperados. O governo cubano poderia acelerar as reformas e abrir a porta para um maior investimento estrangeiro, disse Entwistle.

"Extrapolar alguma consequência política terrível é insensato", disse Entwistle, acrescentando: "Ainda há muita coisa que pode ser feita".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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