Mais estudioso que guerreiro, novo líder do Taleban ainda é um mistério

Mujib Mashal e Taimoor Shah

Em Cabul e Kandahar (Afeganistão)

  • Afghan Islamic Press via AP

    Novo líder do Taleban, mulá Haibatullah Akhundzada, em foto sem data

    Novo líder do Taleban, mulá Haibatullah Akhundzada, em foto sem data

O início de mandato do novo líder do Taleban, um estudioso da religião islâmica com perfil discreto, que é considerado um potencial unificador, foi notável por não ter a dramaticidade que seu antecessor parecia incapaz de evitar.

Mesmo depois de dois meses na função, porém, o "mawlawi" (título reservado aos estudiosos islâmicos) Haibatullah Akhundzada permanece uma espécie de mistério para os talibãs comuns, segundo analistas e comandantes insurgentes. E ele ainda não fez uma marca importante em uma insurgência que sofre a tensão das divisões internas.

Muitos consideram que lhe faltam a força e a influência que seu antecessor, o mulá Akhtar Muhammad Mansur, conquistou antes de ser morto no ataque de um drone americano em maio passado. O período de Mansur no comando foi marcado por expurgos e rebelião aberta, que recuaram para o fundo da cena.

Apesar disso, alguns comandantes se recusaram a jurar fidelidade a Haibatullah, segundo entrevistas com comandantes e oficiais talibãs.

Desde o primeiro dia das reuniões de liderança convocadas às pressas que elegeram Haibatullah, ficou claro que o poder de decisão do Taleban estava retornando ao conselho superior da insurgência, sediado em Quetta, no Paquistão --um birô político de cerca de 25 religiosos e comandantes divididos entre a geração mais velha que fundou o Taleban e membros mais novos que ganharam poder recentemente.

As forças percebidas de Haibatullah, e as próprias características que o tornaram interessante como potencial unificador, estão em um tipo de influência mais lento: o fato de evitar os refletores e suas profundas ligações com as escolas religiosas radicais que há anos fornecem ao Taleban o núcleo ideológico de combatentes dedicados.

"A área de influência do mawlawi Haibatullah é com os mulás e os líderes religiosos, e não com a direção e os comandantes", disse Borhan Osman, um pesquisador da Rede de Analistas do Afeganistão que escreveu extensamente sobre o Taleban.

Como Haibatullah se sairá depende do espaço que ele consiga ocupar junto aos influentes membros do conselho superior, ou "shura", que "dão as cartas", segundo Osman. "Eu não penso que ele poderá manter seus próprios ideais --talvez expressar, mas não aplicar."

De certa maneira, a escolha de Haibatullah é um retorno às raízes da insurgência Taleban. Naqueles anos, pouco se sabia sobre o alto escalão Taleban. Raramente fotografados ou filmados, eles representavam mitos, com suas vagas identidades exploradas pelos senhores guerreiros locais e políticos para retratar os adversários como insurgentes.

"O mawlawi Haibatullah é calmo e compreensivo, um símbolo de gentileza que sempre levou uma vida humilde", disse Hajji Saifidad Aka, um idoso da aldeia natal do novo líder, Rigi, na província de Kandahar.

Tanto por sua origem modesta como por suas maneiras tranquilas, Haibatullah, hoje com mais de 50 anos, às vezes é comparado ao líder fundador do movimento, mulá Muhammad Omar, que detestava publicidade --em parte por acreditar que extraía sua legitimidade de uma conexão com Deus e não de um mandato popular.

Isso diferia muito do estilo de Mansur, que se tornou uma figura muito mais pública e pragmática nos meses depois que se candidatou ao poder em 2015. Ele alienou profundamente muitos comandantes com suas estreitas ligações políticas com o Paquistão, sua perseguição violenta aos comandantes que não se dobravam a ele, e, especialmente, sua vida luxuosa e o controle de sua fortuna pessoal, obtida com as drogas, e das finanças do Taleban.

"Mansur era o homem do dinheiro, era sua principal força. Que outra insurgência faz de seu contador o chefe principal?", disse Franz-Michael Mellbin, o embaixador da UE e representante especial no Afeganistão. "Será importante ver o que acontece com o fluxo de dinheiro agora."

Parte dos fluxos financeiros individuais pode ter sido interrompida após a morte de Mansur, mas autoridades afegãs e americanas dizem acreditar que o fluxo maior não será afetado porque há uma burocracia robusta que o supervisiona.

Além de seu original estilo de vida, Mansur mostrou impulsos contraditórios.

Ele indicou que poderia liderar o Taleban à mesa de negociação, mas na véspera da primeira rodada com o governo afegão ele desapareceu de repente, com seus telefones desligados. (Seus registros de viagens, que vazaram após sua morte e depois foram confirmados por autoridades paquistanesas, mostram que ele deixou Quetta rumo a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, nesse período.)

Haibatullah, por outro lado, é visto como uma personalidade mais constante e disciplinada: um acadêmico e um juiz que levou uma vida modesta de estudos religiosos e compromissos no tribunal, segundo detalhes de sua vida obtidos a partir de entrevistas com amigos e outros talibãs.

O pai de Haibatullah foi um imame de aldeia no distrito de Panjwai, em Kandahar. Sem possuir terras ou pomares próprios, a família dependia do que a congregação pagava ao imame em dinheiro ou produtos agrícolas. O jovem Haibatullah começou os estudos sob o olhar do pai, e quando a família migrou para Quetta depois da invasão soviética ele continuou em um dos primeiros seminários fundados no bairro de Sarnan, segundo aldeões e figuras do Taleban que o conhecem.

Depois que o Taleban conquistou o poder nacional, em 1996, um de seus primeiros cargos foi na província de Farah, como parte da temida polícia do "vício e virtude", que aplicava castigos aos que usavam barba curta ou cabelo comprido, por exemplo. Mas Haibatullah logo foi enviado a Kandahar e se tornou instrutor na madrassa Jihadi, um seminário com cerca de 10.000 alunos que Omar dirigia pessoalmente.

Como um modelador da ideologia Taleban em Quetta, Haibatullah teve um perfil bastante destacado para se tornar alvo de uma tentativa de assassinato. Ibrahim, um aluno dele, lembra de um atentado à sua vida há cerca de quatro anos, pelo qual o Taleban mais tarde culpou a agência de inteligência afegã.

"Durante uma de suas palestras em Quetta, certo dia há cerca de quatro anos, um homem se ergueu entre os estudante e apontou uma pistola para o mawlawi Haibatullah, de perto, mas falhou e os talibãs correram para algemar o homem", disse ele, acrescentando que Haibatullah não se moveu na confusão. 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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